Angela Kuczach
Diretora Executiva da Rede Nacional Pro Unidades de Conservação

Água, onça e gente: do que é feito o Boqueirão da Onça

Angela Kuczach
quinta-feira, 22 março 2018 18:04
Boqueirão. Foto: Angela Kuczach.

No Dia Mundial da Água, é preciso pensar no prejuízo que a falta deste recurso pode causar à humanidade e ao meio ambiente. O Brasil tem cerca de 12% da água doce do planeta, é terra do Pantanal, a maior planície alagada do mundo, e do rio Amazonas, o maior do mundo em extensão e volume. Mesmo assim, há lugares no país que sofrem com a falta de água. Em alguns lugares isso ocorre por falta de cuidado com este bem, seja por causa de desperdício, seja por poluição. Já em outros lugares, é a composição do bioma a responsável pela escassez.

A Caatinga é um de nossos sete biomas, e o único exclusivo do Brasil. Neste bioma de clima semiárido, a chuva é um fenômeno raro e celebrado pelo sertanejo. Tão frágil quanto ameaçada, a Caatinga carece de novas unidades de conservação para proteger seu ecossistema. Uma área de proteção que há mais de 10 anos aguarda para ser criada é o Boqueirão da Onça, na divisa entre Bahia e Pernambuco, uma área de 150 km de chapadas, montanhas e vales, e a última grande área selvagem da Caatinga.

Graças à localização e ao relevo, o Boqueirão da Onça é um dos locais com maior potencial eólico no Brasil, o que atraiu o interesse de indústrias para a região.

Também é no Boqueirão da Onça que encontramos uma das últimas populações significativas de onça pintada da Caatinga.

Boqueirão da Onça. Foto: Rogério Cunha de Paula/ICMBio.

A proposta inicial era criar um Parque Nacional com mais de 1,5 milhão de hectares, mas isso não aconteceu. Foram propostos vários desenhos para a futura unidade de conservação, e um certo estica e puxa se desenrolou nos últimos anos, tendo de um lado o Ministério do Meio Ambiente, propondo o desenho do Parque, e de outro o Governo da Bahia e as empresas que tentam explorar a área. Há cerca de 3 semana, o Ministério do Meio Ambiente encaminhou à Casa Civil uma proposta definitiva – já alinhada entre as várias partes. A proposta é criar um mosaico de unidades de conservação de 850 mil hectares, sendo 345,3 mil hectares de Parque Nacional e 505,6 mil hectares de Área de Proteção Ambiental (APA).

O desenho proposto não é o ideal, pois há várias áreas estranguladas que poderiam ter sido melhor avaliadas, e várias áreas importantes vão ficar de fora, como a entrada da Toca do Boa Vista, a maior caverna da América Latina, e áreas essenciais para a onça-pintada, que estarão representadas na APA do Boqueirão da Onça, a categoria mais flexível de UC. Porém, criar Unidades de Conservação não é tarefa fácil, diante do atual cenário político agro-pop, e se a proposta apresentada não é a ideal, entendemos que é a possível. Melhor que seja decretado logo, antes que mais algum naco seja abocanhado.

O Boqueirão da Onça é uma região no meio do semiárido, com a última grande população de onça pintada da Caatinga e a última população da Arara-azul-de-Lear fora da região de Canudos, espécie ameaçada de extinção e que encontra na região do Boqueirão da Onça o habitat ideal para reprodução e sobrevivência. Um estudo realizado pelo Centro de Recuperação de Áreas Degradadas da Universidade do Vale do São Francisco catalogou 932 espécies de plantas, sendo 380 exclusivas da região.

Os fundos de vale abrigam uma raridade e uma das grandes belezas da Caatinga, as florestas. Imagina-se que a Caatinga seja formada basicamente por arbustos espinhentos, mas nas regiões em que ainda é protegida e preservada, é possível encontrar florestas de, como no Boqueirão da Onça.

A paisagem do futuro parque do Boqueirão da Onça. Foto: Claudia Bueno de Campos.

Já os boqueirões, que dão nome a região, são os pontos de acúmulo de água da chuva, onde as pessoas podem ter acesso à água, um recurso escasso na Caatinga. No Boqueirão da Onça existem nascentes perenes, mesmo em período de seca. Criar a UC é, além de proteger a biodiversidade, uma forma de proteger as pessoas que vivem no entorno e oferecer a elas mais qualidade de vida, seja pelo acesso à água, seja pelo crescimento de turismo na região, com ações de gestão que contemplem os povoados.

Caminhar pela paisagem agreste do Boqueirão da Onça é uma experiência de vida. E quem pisa por aquelas paragens, sente na pele o calor escaldante e o sofrimento da população pobre do entorno, vê seus paradigmas caindo por terra um a um. Foi lá, em 2012, que entendi que a diferença entre morte e vida está na presença da água, e que constatei na prática a vertente mais cruel da “politicagem barata”: onde um prefeito apoia um governo, o povoado tem água e próspera, onde isso não acontece a miséria prevalece além da esperança.

Caminhar pelo Boqueirão da Onça é entender que uma unidade de conservação é também uma ferramenta de justiça social, além de essencial para a biodiversidade e o maior bem que se pode deixar para um povo. O Parque Nacional do Boqueirão da Onça, se bem gerido pode mudar o cenário de uma das regiões mais majestosas do Brasil, e levar o desenvolvimento econômico a uma população que enfrenta a cada dia uma miséria que não se traduz em palavras.

Que os bons ventos influenciem os tomadores de decisão.

 

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3 comentários em “Água, onça e gente: do que é feito o Boqueirão da Onça”

  1. desocupar, retirar humanos de algumas areas, seria de grande valia e deixaria espaço para reservas florestais.
    Me refiro a areas do nordeste do brasil, que nao chove normamente mais de 220mm por ano.
    temos areas bem mais saudaveis para familias em outras partes do pais.

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