Acho que vi um gatinho
Yara de Melo Barros
Coordenadora-executiva do Projeto Onças do Iguaçu e membro do Grupo de Especialista em Planejamento para a Conservação da IUCN (CPSG Brasil).

Acho que vi um gatinho

Yara de Melo Barros
quinta-feira, 7 junho 2018 16:46
O macho Croissant. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

Onças-pintadas são figuras meio mágicas e que mexem com emoções e imaginação. Para o bem ou para o mal. Impossível não reagir à imagem de uma onça-pintada, e as reações vão de fascínio ao pavor. A onça-pintada está ameaçada de extinção (Vulnerável, na lista de espécies ameaçadas do MMA) e já perdeu mais de 50% de seu habitat natural, sendo que o Brasil tem as maiores populações da espécie.

A situação da espécie é tão crítica que em março foi realizado o Fórum de Alto Nível Jaguar 2030, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU). Este ano o tema do Dia Mundial da Vida Selvagem foi grandes felinos e, durante o fórum, o Brasil assumiu o compromisso de se associar aos países das Américas do Sul, Central e do Norte nos esforços de proteção das onças-pintadas (Panthera onca).

As ameaças mais significativas são perda de habitat, devido à supressão de áreas de floresta e falta de conectividade entre ambientes e caça, tanto esportiva quanto por retaliação, uma vez que acuadas em fragmentos de floresta que não suportam populações adequadas de presas e que são cercados por áreas antropizadas com criação de gado, elas muitas vezes acabam predando bezerros. E na verdade essa fama de vilã não é totalmente justificada. Há sim casos de prejuízos causados a pecuaristas, mas a percepção do “estrago” é bem maior do que a realidade das perdas. Estudos feitos no Pantanal, sul da Amazônia e oeste do Paraná indicam que, em média, apenas uma ou duas a cada 100 cabeças de gado são perdidas por predação de onças-pintadas.

Bichano pesa 73 kg. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

Quando eu trabalhava na caatinga havia uma “novíssima classificação” do mundo natural, que era “bichos que merecem viver “e “bichos que não merecem viver”. Todos os que não merecem viver entravam na categoria de “inseto ruim”, que englobava uma gama variada de espécies, de carcarás e cascavéis a suçuaranas. Para muitas pessoas a onça-pintada se encaixa na categoria de “inseto ruim”.

Há muitos anos, em uma expedição pelo sul do Pará para avaliar o status de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) na região, nos deparamos com um amontoado de pessoas em torno de uma caminhonete, cuja caçamba estava toda enfeitada com folhas de bananeira e no centro havia uma jovem onça-pintada abatida. Parecia uma exposição macabra, e muita gente (mesmo) estava ao redor celebrando a morte. Quando eu perguntei por que exatamente o animal foi morto, eles disseram que é porque um dia ele ia comer o gado deles. E creio que é o que acontece geralmente com onças-pintadas: julgadas e condenadas pelo que um dia poderiam fazer. Sabe, estilo atira primeiro e pergunta depois?

Portanto, esforços para a conservação da onça-pintada passam necessariamente pela administração dos conflitos e busca da coexistência entre gente e onças. O que é bem complicado quando consideramos as taxas crescentes de desmatamento.

O veterinário Gediendson de Araújo examina a onça. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

O Projeto Onças do Iguaçu é um projeto institucional do Parque Nacional do Iguaçu/ICMBio e tem como missão a conservação da onça-pintada como espécie-chave para a manutenção da biodiversidade na região daquela unidade de conservação. Este projeto é uma continuidade do antigo Projeto Carnívoros do Iguaçu, que foi revisto. Em fevereiro, o projeto foi “repaginado”: mudou de nome, teve seu escopo ampliado e novos objetivos foram definidos em um Plano Estratégico para cinco anos, com 69 ações previstas. Como conservação só se faz com integração de esforços, para a elaboração deste planejamento e para a execução das atividades previstas, contamos com a participação de parceiros valiosos como o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio), a Pró-Carnívoros, o Proyecto Yaguareté (Argentina), a ESALQ/LEMaC, o Chester Zoo/Wildcru e o Peter Crawshaw Jr. Recebemos auxílio financeiro do Parque das Aves, nosso maior patrocinador, e também do Hotel Belmond Cataratas, Fundo Iguaçu e WWF.

O status de conservação da onça-pintada varia em cada bioma, sendo que na Mata Atlântica ela é considerada criticamente ameaçada, com uma estimativa de cerca de 300 animais restantes. No Parque Nacional do Iguaçu a última estimativa populacional, de dois anos atrás, é de 22 onças-pintadas. Este ano vamos refazer o censo populacional e verificar se houve alteração deste número. Lembrando que esta população tem que ser avaliada também considerando o Parque Nacional do Iguazú, e a região de Missiones, na Argentina (onde a estimativa é de 70 onças-pintadas), pois os animais circulam entre os dois países, e os censos populacionais são feitos de forma coordenada entre os dois países.

Medição da dentição. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

Um dos objetivos do projeto é minimizar o risco para pessoas e onças-pintadas dentro do Parque Nacional do Iguaçu, nas áreas de uso público e zona de uso especial. Para atender este objetivo, uma das ações é capturar, instalar colares com GPS e monitorar 100% as onças que frequentem estas áreas. No momento, temos pelo menos 3 animais já identificados, um macho adulto, uma fêmea adulta e seu jovem filhote, com cerca de dois anos.

Há duas semanas realizamos uma campanha de captura e capacitação da equipe do Projeto, coordenada pelo Rogério Cunha de Paula (CENAP/ICMBio) e pelo veterinário Gediendson de Araújo. Foram 10 dias intensos. Após a instalação das armadilhas, elas são checadas a cada hora, durante as 24 horas do dia, para reduzir o tempo que um animal capturado fique preso. Utilizamos o método de laço, que é considerado o mais seguro para o animal e para a equipe.

Após muitos dias de tentativas frustradas, pouco sono e muitos carrapatos, decidimos encerrar a campanha e retirar os laços. Quando fomos retirar o último, para nossa surpresa (e total deslumbramento, poxa) tinha uma onça na armadilha!!! (pense em pesquisadores dando pulos ridículos de alegria na mata).

A onça-pintada capturada foi o Croissant, um macho com cerca de 5 anos de idade, lindo de chorar, que nunca havia sido capturado antes. Ele recebeu um colar que nos permite acompanhar sua movimentação, tanto por GPS quanto VHS.

Sangue coletado. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

Esse monitoramento nos dá várias informações e possibilidades de atuação: podemos saber quando ele está próximo a locais com pessoas e implementar medidas de proteção adequadas, saber se ele está deixando o parque e indo até propriedades no entorno e nelas implementarmos medidas para evitar a predação de animais domésticos e sensibilizarmos os moradores. Estimar área de vida, acompanhar atividade, enfim… melhorar o conhecimento e usar isso para embasar ações de conservação.

Mas isso é só uma das ações. O projeto tem objetivos bem abrangentes para a conservação das onças-pintadas na região do PARNA Iguaçu, como gerar informações que subsidiem a conservação de populações viáveis de grandes felinos, promover a coexistência de populações humanas e grandes felinos, promover ações de prevenção de perda/remoção de onças pardas e pintadas e de suas presas, realizar trabalhos técnicos e científicos colaborativos para viabilizar a pesquisa e conservação da onça-pintada, desenvolver e implementar um plano de comunicação para o Projeto Onças do Iguaçu para os diferentes públicos, capacitar a equipe e parceiros diretamente envolvidos em ações do Projeto Onças do Iguaçu.

Ou seja: temos muito trabalho e muitos desafios pela frente, e seguimos totalmente empolgados.

E que tal criar o Dia Nacional da Onça-Pintada?? Seria um momento bem bacaninha para discussão, sensibilização e mobilização. Fica a sugestão.

Equipe reunida. Da esquerda para a direita: Gediendson de Araújo, Ivan Carlos Baptiston, Ewerton Luis Lima, Thiago Reginato, Carlos Brocardo, Aline Kotz, Yara Barros. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

 

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7 comentários em “Acho que vi um gatinho”

  1. Não creio que a caça ESPORTIVA (sim, ilegal) seja uma ameaça com a mesma escala de significância que as outras (perda de habitat, falta de presas e caça por "retaliação", como descrita no texto).

  2. "Quando fomos retirar o último, para nossa surpresa (e total deslumbramento, poxa) tinha uma onça na armadilha!!! (pense em pesquisadores dando pulos ridículos de alegria na mata)."
    Penso. A maioria dos biológos/ambientalistas é assim mesmo, infelizmente.

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