Albert Aguiar e Marcelo Lisita
Albert Aguiar é biólogo, mestre em biologia animal, especialista em gestão ambiental e Coordenador de Projetos na SAVE Brasil e Marcelo Lisita é ornitólogo e assistente de Projetos na SAVE Brasil.

A redescoberta da rolinha-do-planalto, símbolo para a conservação do espinhaço mineiro

Albert Aguiar e Marcelo Lisita
terça-feira, 6 outubro 2020 10:50
Rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis). Foto: Marcelo Krause.

Algumas espécies de aves se tornaram emblemáticas e misteriosas por serem naturalmente raras, arredias ou por suas cores e cantos que afloram os nossos sentidos. A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis) é uma delas. Ela é um dos animais mais raros do planeta e já chegou a ser considerada um dos grandes mistérios da ornitologia. Até a sua redescoberta em 2015, 74 anos após sua última documentação, as esperanças de encontrar a ave viva eram diminutas, mesmo entre os mais otimistas.

Endêmica do Cerrado brasileiro, a rolinha-do-planalto é Criticamente Ameaçada de Extinção, de acordo com a BirdLife International e União Internacional pela Conservação da Natureza – UICN, e também conforme avaliação pelo Ministério do Meio Ambiente. Segundo esses critérios, a rolinha está apenas um degrau abaixo da extinção, e sem exemplares em cativeiro, isso significa que ficaria restrita às gavetas de museus, onde 163 espécies de aves extintas nos últimos 500 anos foram documentadas.

A rolinha-do-planalto chama atenção pelo contraste marcante de sua cor, formada por nuances marrons e brancas, com olhos penetrantes de coloração azul-cobalto, a mesma cor que tinge manchas em suas asas, tornando-a inconfundível.

A história recente da rolinha-do-planalto se inicia em 2015, um ano após o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção considerar a espécie como provavelmente extinta. Durante uma consultoria, o ornitólogo Rafael Bessa teve contato com o habitat da espécie e ao parar para fotografar a beleza cênica dos campos rupestres, gravou uma voz desconhecida. Na manhã seguinte, após reproduzir sua gravação neste ambiente, conseguiu visualizar seu emissor. Rafael soube naquele momento que acabara de fazer uma das descobertas mais comemoradas da ornitologia.

Foram 74 anos entre a última documentação da rolinha-do-planalto na natureza e a sua redescoberta por Bessa em Botumirim, Minas Gerais – distante em linha reta, em mais de 1.000 quilômetros de onde foi vista pela última vez.

Antes disso, a última pessoa a ter contato com a ave foi Walter Garbe que, entre 1939 e 1941, obteve um macho e uma fêmea em Cachoeira Alta, sul de Goiás. Antes dele, seu pai, Ernst Garbe, naturalista vinculado ao Museu Paulista de Zoologia, coletou um indivíduo macho às margens do Rio Paraná, no município de Itapura (SP) em 1901. A documentação de Ernst Garbe interrompeu um período de 76 anos desde a única ocorrência conhecida para a rolinha-do-planalto até então, em Cuiabá, Mato Grosso.

Foi em Cuiabá que Johann Natterer, entre 1824 e 1825, colocou a rolinha-do-planalto nos cadernos da ciência, quando coletou 5 exemplares da espécie. Natterer era um dos naturalistas que integrava a comitiva da Missão Austríaca, trazida pela Arquiduquesa Leopoldina em seus preparativos para o casamento com D. Pedro I. Natterer, e viria a descobrir a rolinha-do-planalto após se negar a regressar à Europa, contrariando ordem do governo austríaco. No Brasil, o naturalista coletou milhares de animais para enriquecer os acervos dos museus austríacos e chama atenção o relativo baixo número de rolinhas-do-planalto obtidas por ele. Estes fatos históricos representam o caráter raro da espécie. Naturalmente, a redescoberta de uma “espécie Lázaro” (táxons pensados extintos e que foram reencontrados) proporcionaria uma grande oportunidade para sua conservação.

Após a redescoberta da rolinha-do-planalto, a SAVE Brasil foi consultada por Bessa e outros pesquisadores sobre possíveis ações para a conservação da espécie que, à época, era de apenas 11 indivíduos contabilizados, um número assustadoramente baixo. A SAVE Brasil atua com foco nas aves ameaçadas e, por essência, algo tinha de ser feito para salvar a rolinha-do-planalto. À época não haviam unidades de conservação na área de ocorrência da espécie e, ainda assim, o governo de Minas Gerais considerava a região como prioritária na conservação da biodiversidade. No ano de 2006, a SAVE Brasil publicou o livro Áreas Importantes para a Conservação das Aves no Brasil (IBAs) e a região de Botumirim já era considerada uma das áreas-chave para a conservação das aves no país, devido a presença de outras espécies de aves.

Campos rupestres de Botumirim. Foto: Albert Aguiar.

A redescoberta da rolinha-do-planalto nesta IBA representou uma grande oportunidade para a implementação de um projeto da SAVE Brasil no Cerrado, contribuindo para a conservação deste bioma e da biodiversidade dos campos rupestres na Serra do Espinhaço. Nestas áreas predominam ecossistemas com grandes níveis de endemismos e importantíssimos também para a segurança hídrica da região, marginal ao polígono da seca brasileiro.

A primeira estratégia de conservação da espécie foi garantir a proteção de seu habitat, o que levou a SAVE Brasil a comprar uma propriedade de 600 hectares, com apoio da Rainforest Trust, criando a Reserva Natural Rolinha-do-planalto. Por questões de segurança, somente após a criação da reserva, em janeiro de 2018, a localização da espécie foi divulgada, apesar dos constantes pedidos da comunidade de observadores de aves, desde a divulgação da redescoberta da espécie em 2016, durante o Avistar Brasil, em São Paulo.

Neste momento, Botumirim entrou para o mapa dos melhores destinos do turismo de observação de aves no país. Atividades de educação ambiental e sensibilização foram iniciadas nas escolas municipais, assim como a formação de condutores locais para atender os turistas que visitam Botumirim com o intuito de observar a rolinha e outras aves (birdwatching). A prática, que vem movimentando o turismo na região, já levou mais de 300 pessoas à reserva, munidas de seus binóculos e câmeras fotográficas e deixando donos de pousadas e restaurantes satisfeitos.

O início do projeto permitiu que o Parque Estadual de Botumirim (36 mil hectares) viesse em seguida, em julho de 2018, 19 anos após os primeiros estudos para criação da unidade de conservação. O engajamento do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais e do Instituto Grande Sertão foi fundamental para este resultado, contando com o apoio da SAVE Brasil. A descoberta de uma espécie tão importante e única foi o grande catalizador para o estabelecimento do parque estadual, depois desse longo processo.  

Enquanto o habitat da espécie era protegido, as primeiras pesquisas para entender as razões da raridade da rolinha-do-planalto, assim como as necessidades para sua conservação e ações de engajamento da população eram realizadas. Os primeiros resultados de pesquisa mostraram as especificidades comportamentais, tanto de dieta quanto ao micro-habitat da rolinha-do-planalto, especialista em campos rupestres, formados por afloramentos de rochas quartzíticas, areias brancas, decoradas com sempre-vivas, cactos e águas ferrugíneas.

Em 2018, com o apoio da American Bird Conservancy e do ICMBio/CEMAVE, um time de pesquisadores brasileiros reuniu-se para criar o primeiro plano de ação para a conservação da espécie em longo prazo. Com este plano, muitas perguntas foram respondidas, mas a situação da espécie se mostrou crítica. Por isso, em agosto de 2019, uma oficina para a criação de um Plano de Emergência para a espécie foi realizada no Parque das Aves, em Foz do Iguaçu (PR). O evento reuniu 29 especialistas em conservação de 15 instituições renomadas do mundo, incluindo Carl Jones, da Durrell Wildlife, reconhecido mundialmente como o responsável por salvar da extinção 5 espécies de aves e 3 de répteis.  O workshop foi conduzido por facilitadores do Grupo Especialista em Planejamento para a Conservação (UICN). Dentre as estratégias discutidas para garantir a conservação da rolinha-do-planalto em longo prazo, o plano de emergência prevê ações para a criação de uma população de segurança em cativeiro, protegendo-a de eventos estocásticos que coloquem a sua existência em risco.

Incêndios em 2019 diminuíram ainda mais o habitat disponível para a espécie. Foto: Albert Aguiar.

Desde a sua redescoberta, os 11 indivíduos conhecidos da população passaram a 27. Foram encontrados os primeiros ninhos, ovos e até mesmo filhotes. Novas áreas com a presença da espécie foram localizadas dentro do Parque Estadual de Botumirim. Contudo, as buscas por novas populações da espécie foram pontuais. Para auxiliar nesta procura, um modelo preditivo das áreas potenciais à ocorrência da espécie foi criado em parceria com a professora Katia Ferraz e sua equipe do LEMaC/ESALQ/USP e /CPSG Brasil – Grupo Especialista em Planejamento para a Conservação. Este modelo, somado a gravadores autônomos e um software de reconhecimento de voz (Wildlife Acoustics) estão permitindo maior precisão nas buscas no norte mineiro. Em 2019, a SAVE Brasil voltou ao estado do Mato Grosso para procurar a rolinha, mas não foram encontrados nem a espécie, e nem o seu habitat – potencialmente alterado pelas frequentes queimadas até deixar de existir.

O Espinhaço tem sido o último refúgio da espécie e para continuar sendo seu lar, ele precisa parar de queimar anualmente, sem controle. O Cerrado já perdeu uma área do tamanho do Rio Grande do Sul desde 1985 e continua ardendo para dar lugar a práticas ultrapassadas de produção, a maior ameaça à conservação da espécie. Além da perda de seu habitat, a rolinha-do-planalto precisa ainda lidar com riscos oferecidos por animais domésticos, como cães, cavalos e porcos, frequentemente registrados por armadilhas fotográficas em seu território.

Os próximos anos são cruciais para estabilizar a pequena população da rolinha-do-planalto e salvar essa espécie da extinção. Além disso, a sua recuperação pode simbolizar a resiliência do Cerrado brasileiro.

O projeto rolinha-do-planalto é possível graças aos nossos apoiadores: American Bird Conservancy, Rainforest Trust, Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF/IEB), Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund e Neotropical Bird Club. Para a execução deste projeto, a SAVE Brasil conta com seus parceiros: Instituto Grande Sertão, Prefeitura Municipal de Botumirim, Instituto Estadual de Florestas (IEF/MG), Parque das Aves, Centro Nacional de Pesquisa e Conservação das Aves Silvestres (CEMAVE/ICMBio), BirdLife International, Chester Zoo, Durrel Wildlife, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), Grupo Especialista em Planejamento para a Conservação (CPSG/IUCN), Toledo Zoo, Universidade Federal de Roraima, Universidade Estadual do Norte Fluminense e Vogelpark Marlow.

 

Albert Aguiar é biólogo, mestre em biologia animal, especialista em gestão ambiental e Coordenador de Projetos na SAVE Brasil.
Marcelo Lisita é ornitólogo e assistente de Projetos na SAVE Brasil.

 

 

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