A ciência do clima e o dilema de uma geração
Coalizão Ciência e Sociedade
A Coalizão Ciência e Sociedade integra 65 pesquisadores de instituições de todas as regiões brasileiras

A ciência do clima e o dilema de uma geração

Coalizão Ciência e Sociedade
sexta-feira, 20 setembro 2019 11:41
Greta Thunberg. Foto: Anders Hellberg/CC.

Hoje, dia 20 de setembro, a Greve Global do Clima promove atividades em todo o mundo em defesa da justiça ambiental e do combate às mudanças climáticas. A Coalizão Ciência e Sociedade, composta por 70 cientistas de instituições de todas as regiões brasileiras, une-se a esse movimento que alerta sobre um tema que, apesar da sua relevância, tem sido negligenciado em debates públicos no Brasil.

O movimento despertou o interesse de jovens e crianças globalmente pois é liderado por uma adolescente sueca, Greta Thunberg [retratada acima em foto de Anders Hellberg/CC]. A lucidez dos jovens que aderem ao movimento impressiona, apelando aos governantes por seu direito a um futuro saudável e demandando ações imediatas para reverter a trajetória alarmante das mudanças climáticas globais. Mais impressionante ainda é a interpelação de Greta aos tomadores de decisão: “Ouçam a ciência e assumam a responsabilidade.”

Reverter os efeitos das mudanças climáticas causadas pelas ações humanas é uma questão prioritária para o planeta e para a sociedade. O consenso científico de que as mudanças climáticas já estão de fato ocorrendo é robusto e amplo. O atraso nas ações de mitigação das atuais emissões de gases de efeito estufa implicará em maiores impactos, principalmente para a geração mais jovem, além de custos muito mais altos para todos. Além disso, tornará mais difícil manter as metas estabelecidas no Acordo de Paris e nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que buscam evitar mudanças climáticas numa rápida escalada de riscos para a natureza e para as atividades humanas.

“Os benefícios propiciados às gerações presentes agravam as mudanças climáticas e a degradação ambiental, entrando em conflito com os direitos das gerações futuras”.

As ações dos jovens na defesa de seu futuro em um ambiente saudável trazem para o centro do debate as implicações éticas das mudanças climáticas, em particular na questão da justiça global e intergeracional e na transformação de valores. É a mensagem dos jovens que deve fornecer hoje a bússola moral aos tomadores de decisão. De forma pacífica e crescente, esses jovens vêm indicando seu desacordo com o modelo atual de desenvolvimento. Os benefícios propiciados às gerações presentes agravam as mudanças climáticas e a degradação ambiental, entrando em conflito com os direitos das gerações futuras. Efeitos já estão sendo sentidos em muitas regiões do planeta, incluindo graves ameaças às cidades, onde vive 55% da população mundial (ou 84,4% da população, no caso do Brasil).

As crianças e os jovens, frequentemente esquecidos nas discussões e em acordos globais sobre mudanças climáticas, sofrem e sofrerão, de forma desproporcional, as consequências do rápido aumento das emissões de gases de efeito de estufa, especialmente nos países em desenvolvimento e nos menos desenvolvidos. Por exemplo, em Bangladesh, o número de casos semanais de diarreia aumentou em cerca de 5% em função de eventos de maior precipitação. No Peru, a incidência de diarreia aumentou 8% a cada grau Celsius de aumento da temperatura.

No Brasil, a responsabilidade climática deveria ser a marca dos gestores e formuladores de políticas públicas e também dos agentes econômicos, seja pelos impactos econômicos, seja pelos impactos ambientais, e ainda pelos impactos sociais que acentuam a desigualdade entre os brasileiros.
Infelizmente, a lucidez cristalina dos jovens na reivindicação de seus direitos a um ambiente íntegro e saudável (no presente e no futuro) está distante das declarações recentes de ministros de Estado e de parlamentares brasileiros.

Estas lideranças políticas persistem na negação das mudanças climáticas e da ciência, que claramente aponta as causas e, também, as possíveis soluções desse grande desafio para a humanidade. A janela de tempo para amenizar tais mudanças está se fechando rapidamente. Cada segundo perdido negando as mudanças climáticas é tempo que roubamos das próximas gerações que sofrerão suas terríveis consequências.

Nesse cenário, o conjunto de medidas e posturas que hoje estrangulam as atividades promotoras de um futuro saudável, como a proteção do meio ambiente e o direito à educação e ao conhecimento científico, é uma afronta direta aos jovens brasileiros. Por isto, devemos priorizar a multiplicação e disseminação de espaços que garantam o diálogo e a reflexão com todos os atores sociais e que resultem no fortalecimento das políticas e mecanismos de enfrentamento às mudanças climáticas.

Congregar a ciência e a sociedade, e à luz da mobilização dos jovens em prol de ações que reduzam os riscos e ameaças das mudanças climáticas para a qualidade de vida das futuras gerações, é uma condição essencial para pensar e conduzir melhores trajetórias de desenvolvimento do Brasil.

 

*Texto originalmente publicado no site da Coalizão Ciência e Sociedade e republicado em ((o))eco

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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8 comentários em “A ciência do clima e o dilema de uma geração”

  1. Com o avanço do novo Mínimo Solar que possui expectativa de durar pelo menos 50 anos e cuja principal expressão serão invernos mais rigorosos e expansão do vortex polar no hemisfério norte trazendo eventos como o La Bestia del Este que marcou recordes como os 32 graus negativos em Livigno/Italia ou 30 negativos em Chicago. Esta dura realidade que irá comprometer a produção de alimentos na Europa, assim como a geração de energia solar, além da tragédia social e mortos por frio, colocará em cheque o "consenso" cientifico anualmente e provavelmente colapsará o malandro nascente mercado de carbono e a decrescente credibilidade do IPCC. Deste modo, faz sentido que a liderança seja doas crianças e jovens, que no final das contas são apenas massa de manobra…

  2. É impressionante que o "obscurantismo" persista mesmo diante de evidências claríssimas quanto ao aquecimento global. Vemos dois exemplos aí pra cima. Flávio (?) e Carlos Magalhães imagino serem climatologistas doutorados por Harvard ou Berkeley que produziram pesquisas patrocinados pela ONU e aqui nesse espaço vêm apresentar suas conclusões. Meu Jesus da Goiabeira!!!

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