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A maior corrupção da história

A preocupação com o Meio Ambiente, o primeiro Bem Comum da Humanidade, deveria ser a base para toda a estruturação moral de um país e uma das principais preocupações do Poder Público

12 de maio de 2021
  • Reuber Brandão

    Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservaçã...

Recentemente li um livro de um conhecido sociólogo onde, com certo desdém, o autor ironizava a preocupação com o meio ambiente como algo secundário em um país com tantas desigualdades e injustiças. Comparando quem atua na conservação do país com escandinavos, sugere que profissionais em meio ambiente ou outros cidadãos preocupados com o tema vivem numa bolha que não permite enxergar as mazelas econômicas e sociais do país.

Gostaria de registrar um outro entendimento sobre a questão. A corrupção pode ser amplamente entendida como um atentado ao bem comum, onde governos, instituições, empresas e/ou cidadãos agem apenas visando o seu benefício particular ou específico. Em sistemas altamente corruptos, a noção de bem social é rapidamente degradada, incluindo aí a destruição das relações sociais através da contaminação dos interesses particulares imediatos sobre os aspectos morais e éticos que orientam a noção de sociedade. Ignorando, oprimindo, manipulando, reprimindo ou simplesmente excluindo a sociedade e pressupostos morais, os que dominam os meios de acesso aos privilégios replicam seus benefícios em detrimento dos interesses coletivos e dos menos afortunados. Como resultado, temos a violência, a segregação racial, o preconceito, as carteiradas, a concentração de renda e a miséria dos excluídos como produtos diretos de uma sociedade enferma de corrupção.

No entanto, o bem comum é sempre central na questão da corrupção, seja ele os impostos pagos pelos trabalhadores, as instituições públicas, as oportunidades coletivas, a segurança, a educação, a saúde, dentre outros. No entanto, é sempre relevante ressaltar que o bem coletivo basilar, o bem coletivo essencial, o bem coletivo indissociável à vida é justamente o Meio Ambiente. Desta forma, a preocupação com o Meio Ambiente, o primeiro Bem Comum da Humanidade, deveria ser a base para toda a estruturação moral de um país e uma das principais preocupações do Poder Público. Elenco razões para isso.

Com raríssimas exceções, toda a riqueza já produzida, em produção ou a ser produzida pelas sociedades foi, é e será baseada na transformação de recursos naturais em bens de consumo. A busca por produtos naturais consumíveis, transformáveis e/ou comercializáveis foi a força motriz da máquina da história humana. Com isso, toda a nossa riqueza, todo nosso conforto material, só é possível através dos recursos naturais. Sem recursos naturais, sem riqueza. Sem recursos naturais, sem economia. Sem Meio Ambiente, sem Humanidade como a conhecemos. Da mandioca plantada na roça de pequenos produtores rurais, da energia elétrica gerada pelos rios, do óleo que movimenta motores, estamos sempre lidando com o consumo de recursos naturais e se não houver uma preocupação real com sua conservação, manejo, acesso e preservação, é ilusão falar em um futuro justo para toda a sociedade. Não por acaso, recursos naturais de elevado valor agregado são, via de regra, controlados atentamente por governos, empresas, grupos ou pessoas poderosas, geralmente mais interessados na sua conversão monetária que na sustentabilidade ambiental ou na responsabilidade social sobre o acesso a esse recurso.

Grandes cidades costumam ser vitrines de desigualdade. Uma das coisas que mais me chama a atenção é como a gentrificação urbana está geralmente associada a uma menor oportunidade de contato com a Natureza. Veja imagens de bairros ricos e compare com as imagens dos bairros pobres nas grandes cidades brasileiras. Via de regra, bairros habitados por pessoas de maior poder econômico possuem praças e avenidas arborizadas, as casas possuem quintais espaçosos com palmeiras elegantes e árvores. Por outro lado, os bairros habitados pelos mais excluídos das benesses financeiras carecem de praças, parques e avenidas arborizadas. As casas, apertadas em lotes pequenos, mal cabem a moradia e, quando muito, algumas poucas plantas alojadas onde dá. Terrenos baldios, via de regra, não se tornam jardins ou hortas coletivas, mas acabam acumulando resíduos e comprometendo ainda mais a qualidade de vida dos moradores, especialmente das crianças. O que quero deixar claro aqui, não é que ter alguma Natureza na região onde você mora seja um privilégio de ricos, mas sim que a ausência dela é um sintoma claro de exclusão social. É um reflexo direto da gentrificação, da desassistência, do viés perverso da atribuição de valor à vida humana, no viés perverso sobre o acesso a um bem comum essencial à sadia qualidade de vida, ao acesso de direitos constitucionais.

Uma forma onde os pobres podem ter maior contato com a natureza é viver mais afastado dos grandes centros urbanos, notadamente na área rural. No campo, no entanto, a exclusão se manifesta nos conflitos por território. Territórios com fartos recursos naturais sempre foram razão de cobiça. A exclusão de populações indígenas, de posseiros ou simplesmente de quem não tem como defender sua ocupação é corriqueira nos conflitos por terra no Brasil, independentemente de quais conflitos sejam esses. E quando tais populações são excluídas, geralmente também lhe é tirado o acesso aos recursos naturais que exploravam. Mas a questão do território é ainda mais complexa quando a apropriação desse território é atrelada à ausência de controle sobre as atividades realizadas nessas áreas. Isso inclui questões como o licenciamento de atividades e empreendimentos, a mineração, o desmatamento e a perda da biodiversidade.

Desta forma, não há como combater a corrupção no país se não combatemos a destruição da natureza, dos mecanismos de controle de impactos ou das garantias legais de conservação. Em um sistema democrático, elegemos representantes para exercer, em nosso nome, a gestão dos bens comuns, incluindo aí a Natureza. É lamentável quando nossos representantes não entendem que o Meio Ambiente é um dos maiores patrimônios do povo e que esse patrimônio é essencial para as opções futuras das próximas gerações. No entanto, quando representantes eleitos (ou nomeados por estes) escolhem conscientemente tomar medidas visando reduzir os cuidados, a responsabilidade e a valoração desse patrimônio, visando atender a interesses privados bastante específicos, o que temos é o pior cenário de subtração de um bem do povo brasileiro jamais visto. Um cenário que busca locupletar os interesses particulares em detrimento do bem natural de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida é o reflexo de uma barbárie sem precedentes na história nacional, onde os governantes negligenciam tanto o valor desse patrimônio como também a imposição constitucional ao Poder Público e à Coletividade em defender e preservar o bem comum representado por nossa Natureza.

A apropriação da Natureza para atender a interesses não civilizatórios, que tem sido comum na ainda breve história nacional, não significa subtrair o bem comum apenas da sociedade contemporânea. É tirar também das futuras gerações os benefícios coletivos do patrimônio natural brasileiro. É a maior corrupção da história.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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Comentários 4

  1. Mariana Damasco diz:

    Que texto incrível!! Você, como sempre muito lúcido, botando em palavras temas de importância gigantesca de forma belíssima. Orgulho de ter tido um professor tão brilhante no meu caminho, que continua me ensinando constantemente.


  2. Alguem diz:

    Um comentário desse só poderia vir de alguém covarde que se esconde como “Ninguem”.


  3. Silvana diz:

    Parabéns pelo excelente argumento, Reuber. Muito bem escrito o seu texto, de uma logica inquestionavel. Pena que voce omitiu o nome do sociologo idiota, mas entendo que o fez por elegância.


  4. Ninguém diz:

    O grande cientista, renomado pesquisador e indefectível conservacionista, Reuber, fala de corrupção ambiental genérica para justificar a corrupção de fato de quem ele gosta. Estamos de olho!