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Aprender, ensinar e sonhar (com a natureza) sempre faz bem

Dois casos recentes de pessoas premiadas por seus projetos ambientais mostram a importância de garantir o contato das crianças com a natureza

11 de janeiro de 2011 · 10 anos atrás
  • Suzana Padua

    Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreen...

O botânico Ricardo Cardim. Foto: Arquivo pessoal.

Recentemente, passei por uma experiência conhecida como “déjà vu”. Finalista do Prêmio Empreendedor Social de Futuro, Ricardo Cardim me fez lembrar a história de alguém muito próximo a mim, a do meu marido Claudio Padua (se quiserem saber mais de sua história, leiam entrevista feita no próprio ((o))eco). Ricardo, cuja carreira de dentista tinha tudo para ser de enorme sucesso, e seria certamente mais facilmente aceita pela família, amigos e sociedade em geral, tem se dedicado mesmo é a salvar árvores e pequenos remanescentes de matas nativas da cidade de São Paulo. Por muito tempo sentiu-se um estranho no ninho.

Mas, ninho é mesmo o que Ricardo mais parece querer, e para isso coloca toda sua energia e incansável empenho na defesa de árvores e da biodiversidade da metrópole de São Paulo. Explica, com os conhecimentos adquiridos ao longo de sua vida e do mestrado que cursa na USP em Botânica, que São Paulo é originariamente um ecótono, ou seja, ali ocorre o encontro de vários ecossistemas como Mata Atlântica decidual e semi-decidual, Cerrado e até um pouco de influência de Campos Sulinos, com a presença de araucárias nas áreas mais altas da cidade. Com isso, era berço de uma enorme variedade de espécies, algumas que teimam em sobreviver frente à fúria do crescimento urbano do 2º maior aglomerado humano do mundo (perdendo o primeiro lugar apenas para Tóquio).

Na tentativa de divulgar sua paixão e contagiar outros, Ricardo criou um site que vale a pena ser visitado: http://arvoresdesaopaulo.wordpress.com. Com um começo bastante singelo, o site cresceu e, para o espanto do próprio Ricardo, tem sido largamente visitado (mais de 414 mil entradas ou acessos de 92 países desde sua criação que ocorreu em meados de 2008). Isso mostra que existe interesse pela natureza local. O site tornou-se fonte de consultas com perguntas variadas, que incluem questões de como se deve plantar certas árvores, ou quais as características de determinadas espécies, ou onde se encontram mudas específicas para serem adquiridas. O site contem reportagens com fotos e ilustrações, mostrando as raras belezas de árvores floridas. Expõe um fascínio ao juntar fatos históricos da ocupação da cidade com os remanescentes de matas nativas, ou algum exemplar sobrevivente de árvore que testemunha a cobertura original que ali existia. Algumas entrevistas ilustram o desempenho do próprio Ricardo Cardim, que agora com o Prêmio Schwab e Folha de São Paulo conseguiu notoriedade e quiçá mais respeito de seus amigos e familiares. Afinal, ter coragem de mudar o rumo da uma vida, deixando a zona de conforto e do que seria considerado maior “segurança” (se é que isso existe) para se dedicar a uma paixão, que infelizmente não reverte em resultados financeiros à altura das expectativas da sociedade moderna, não é comum.

Axel Grael. Foto: Arquivo pessoal.

Outro exemplo de mudança de rumo, que também fez parte como finalista do evento de premiação Empreendedor Social da Folha de São Paulo e Fundação Schwab, é a história de Axel Grael. Formado em Engenharia Florestal, Axel sempre seguiu uma trajetória engajada no ambientalismo, mas passou pelos três setores: governamental, privado e filantrópico, ou de ONGs. Sem nunca ter abandonado a paixão da família por velejar, Axel acabou unindo seus interesses, e criou uma organização que integra os diferentes mundos, o Projeto Grael (http://www.projetograel.org.br). Capacita meninos de meios menos favorecidos nos esportes náuticos, ao mesmo tempo em que oferece oportunidades de aprendizado sobre a natureza e sobre o equilíbrio ecológico dos ecossistemas aquáticos e das encostas por onde navegam. Os barcos a vela, necessitam de mão de obra especializada, mas os atletas e donos de veleiros careciam de profissionais competentes porque este ramo esportivo sempre foi restrito a pessoas mais abastadas da sociedade. Mas, o Projeto Grael já capacitou mais de 10 mil meninos, sendo quase todos absorvidos neste mercado de trabalho específico. É, assim, um exemplo do famoso “win-win”, pois todos ganham. Os donos de embarcações esportivas agora têm profissionais aptos a cuidarem de seus barcos com qualidade; os jovens passam a exercer uma profissão lucrativa em um ramo que aprendem a gostar e também a praticar (o que antes era impossível pela falta de acesso deles a este tipo de esporte), tendo a vantagem de aproveitarem a demanda crescente de empregos neste ramo; e, a natureza passa a contar com mais observadores e admiradores que ajudam a cuidar de suas riquezas, sempre tão ameaçadas.

Seu sucesso é inquestionável, tendo sido reconhecido recentemente pela Confederação Brasileira de Vela e Motor, que afirmou que os projetos sociais ligados à vela são inspirados ou criados com o apoio do Projeto Grael, já tendo capacitado mais jovens do que todos os iate clubes no Brasil foram capazes de fazê-lo. Todavia, mesmo que seu trabalho tenha contribuído significativamente para melhorar as condições sociais dos jovens com os quais atua, Axel não aprecia quando é elogiado por tirar crianças das ruas. Ele afirma que “é verdade que precisamos tirar as crianças do abandono nas ruas, mas trabalhamos com estudantes da rede pública e, infelizmente, os meninos de rua, em sua maioria, não estão nas escolas e, portanto, não podem ser participantes do Projeto Grael. Muitas vezes, quando nos procuram, os levamos primeiro para a escola e, então, passam a poder participar”. Defende que é preciso sim tirar as crianças da frente dos computadores e das televisões e dar a elas a chance de um contato com a natureza, seja por meio de passeios a áreas naturais ou esportes.

Todos os ganhadores ou finalistas do Prêmio Folha de São Paulo e Fundação Schwab de 2010 merecem aplausos por seu espírito empreendedor e de dedicação a uma missão específica. Alguns se dedicam à área médica, outros e artes ou apoio a pequenos negócios ou a agricultura familiar, mas a razão que me levou a relatar esses dois casos com maior detalhe nesta coluna é o foco que ambos têm nas questões ambientais. Cada um a seu modo, Ricardo e Axel são exemplos de pessoas que se apaixonaram cedo pela natureza e hoje se dedicam quase exclusivamente à sua proteção. Na verdade, confirmam um estudo realizado por alunos de James Dietz da Universidade de Maryland (Dietz é conhecido no Brasil por anos de trabalhos com duas espécies de micos-leões: o dourado, do Estado do Rio de Janeiro, e o de cara-dourada, do Sul da Bahia). Por meio de entrevistas com lideranças do setor ambiental que vivem da região de Washington DC, o estudo mostrou que 100% deles foram expostos ao mundo natural durante a infância.

Ricardo conta que um tio o levava a uma fazenda na Serra da Mantiqueira e se emociona ao relembrar suas temporadas de férias, chegando a quase se engasgar quando relata a venda da propriedade em épocas mais recentes. Axel nasceu de uma família de expoentes no esporte de velejar, e desde cedo desbravava os mares de nossa enorme costa, com ênfase na proteção da baía da Guanabara, o que o propiciou oportunidades de se apaixonar e trabalhar incessantemente pela conservação da natureza.

Esta deveria ser uma lição a ser aprendida. O ensino precisa trazer às crianças um sentido de pertencimento ao mundo natural. Passeios a parques, reservas, lagoas, mares, manguezais e outros ecossistemas onde a natureza ainda se apresenta de maneira integral é, sem dúvida, um caminho promissor de mudança interior. O sistema educacional precisa estar disposto a ousar e adotar perspectivas mais amplas de aprendizado que incluam a natureza da qual somos parte. Mudanças também são necessárias nas áreas protegidas, pois a maioria não conta com infra-estrutura e nem incentiva a visitação pública (mesmo que para fins educacionais), talvez faltando a percepção do poder de se tocar o indivíduo enquanto este está em formação. Quem sabe a exposição ao mundo natural poderia ser um meio de se obter mais adeptos e aliados à proteção dessas áreas?

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