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Um guia de viagem para ficar em casa

Nada mais cômodo do que abrir as páginas amareladas de um livro de 1918, que conta a visita do americano Burton Holmes às cataratas no tempo do facão e da canoa indígena

7 de abril de 2010 · 11 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

Travelogues. Reprodução.

Com 20 mil pessoas marchando para os portões do parque neste feriadão, nada mais refrescante do que um mergulho nas cataratas que o americano Burton Holmes visitou em 1918 no rio Iguaçu. A história está num de seus Travelogues, o 13º volume da série de relatos de viagem que ele manteve por 60 anos, de fins do século XIX a meados do século XX.

Holmes foi um legítimo blogueiro. Isso uns 100 anos antes que a moda pegasse na internet. Ou mesmo que a internet existisse. Mas nunca teve nada a ver com a atual voga dos guias turísticos, feitos para quem planeja botar o pé no mundo. Ele zanzava de continente em continente para que as as pessoas conhecessem lugares remotos sem sair de casa – ou saindo para ir, no máximo, ao cinema mais próximo.

Porque Holmes também fez cinema falado antes do cinema falado. Ou seja, ele em pessoa falava durante a projeção de seus filmes. Adotou o neologismo Travelogues – soando a “papo de viagem” – para evitar que a platéia debandasse diante da ameaça de ouvir uma palestra em sala de cinema. E seus livros são imitações propositais de velhos diários de bordo, colando impressões a  imagens.

Até aí, nada demais. Difícil era ir às cataratas naquela época, quando a primeira Guerra Mundial mal havia terminado e só o périplo de Buenos Aires a Puerto Aguirre, onde começa a visita aos saltos do Iguaçu, vai da página 301 à 315. As 300 páginas anteriores, diga-se de passagem, percorrem Recife, Salvador, Rio de Janeiro e outros portos da rota para a Argentina. E cada cidade tem seu capítulo próprio.

“Nunca um destino nos hava parecido tão fugidio”, ele confessa. “Alguns nos diziam que os mosquitos nos comeriam vivos ou que o calor dos trópicos se revelaria mortal”. Na reta final da viagem, ele encarou hotéis “en liquidación”, atendidos por “misantropos enigmáticos”, antes de percorrer a cavalo os 20 quilômetros “encantadores” de uma “soberba avenida” na selva, sob “espantosas borboletas” que lhe coroava a cabeça com “auréolas coloridas”.

Imagem: Reprodução.

Ia a caminho das cataratas que desbancaram as do Niágara. Mas, “Oh! Leitor!”, que ninguém esperasse encontrar por lá, como no Niágara, trilhas pavimentadas, pontes e escadas. O Iguaçu tinha que ser conquistado a facão de mato. Em compensação, suas rochas tinham cor de “chocolate”, emolduradas pelo “verde de uma floresta quase equatorial”.

O grupo passou “oito dias que jamais serão esquecidos fotografando as cataratas de muitos pontos de vista difíceis de atingir, para os quais tivemos que abrir caminho à força”. No fim, com “a ajuda de dois guias índios”, Holmes atracou no último dia uma “canoa de tronco” sobre a Garganta do Diabo, onde o rio parece-lhe “literalmente despencar num buraco redondo no meio da correnteza”. Ali, descobriu que os índios nunca tinham feito aquilo antes.

Imagem: Reprodução.

Mas não perdeu a chance de se debruçar numa ilhota pendurada sobre o abismo, sentindo a “pedra tremer com o impacto incessante do rio”, para fotografar a cena indescritível de “suprema grandeza”. No fim, a catararas renderam 19 páginas de seu Travelogue.

Holmes não deixou de notar que, embora raramente visitadas, a não ser “por índios pouco impressionáveis”, as cataratas do Iguaçú já tinham naquela ocasião inspirado projetos hidrelétricos a uma civilização incapaz de ver água caindo sem pensar em quilowatts. Fez votos de que, pelo menos, o essencial daquela paisagem escapasse do progresso “para a elevação do espírito humano”.

Imagem: Reprodução.

Ela escapou, como atestam hoje os sucessivos recordes de visitação às cataratas. Mas o livro de Holmes, que aos 90 anos chegou intato a um sebo de Foz do Iguaçu e foi parar na administração do parque, bem que poderia ficar exposto na fila de ingresso. Para ninguém pensar que às cataratas se vai assim, sem mais nem menos.

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