O futuro não será uma eterna era Lula

Marcos Sá Corrêa
Marcos Sá Corrêa

Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

quinta-feira, 11 março 2010 17:47

Num debate que faz tempo a estridência enrouqueceu, a voz do agrônomo Eneas Salati soa como uma pausa de orquestra em aberturas sinfônicas. Chama atenção pelo silêncio. Ele tem algo a declarar sobre os efeitos da desordem climática numa política energética que joga todas as fichas nas hidrelétricas. Pede para isso “alguns minutos”.

E trata de resumir com o mínimo de retórica as “Estimativas da Oferta de Recursos Hídricos no Brasil em Cenários Futuros de Clima 2015-2100”, cujo título já é um sinal de que não veio ao mundo para fazer barulho. O documento de 76 páginas é, em si, um extrato de prognósticos internacionais e dados dez especialistas, aninhados em redes de computadores, levaram mais de um ano mastigando.

Concentrado em gráficos à primeira vista cabalísticos e traduzido no tom pausado e meio inaudível de Salati, leva-se algum tempo para notar que o relatório é bombástico. Avisa que está passando a hora de se pensar a sério em alternativas energéticas, “tais como solar, eólica, das marés e biomassa”.

Ao contrário do que prometem as políticas vigentes, as águas tendem a rolar daqui ao fim do século de um jeito que, como não disse ainda o presidente Lula, mas no caso poderia dizer com toda a razão, nunca aconteceu antes na história do Brasil. E isso altera em doses variadas e contraditórias as 12 grandes bacias hidrográficas que oficialmente dividem o território brasileiro.

No Tocantins, o rio dos grandes investimentos hidrelétricos, a vazão ameaça chegar ao ano 2.100 com a metade da média que o rio manteve entre as décadas de 1960 e 1990

No Tocantins, o rio dos grandes investimentos hidrelétricos, a vazão ameaça chegar ao ano 2.100 com a metade da média que o rio manteve entre as décadas de 1960 e 1990. Na Amazônia, a perda vai de 30 e 40%. No São Francisco, o rio da transposição corre o risco de virar um terço do atual em 2040.

Isso significa que a bacia do São Francisco, “onde se concentra grande parte da fruticultura de exportação nacional”, tem chances de passar de lugar “seco e sub-úmido com pouco ou nenhum excesso de água para semi-árido”. O sertão, pelo visto, não vai mesmo virar mar. Mas o mar do Atlântico Leste ameaçar lamber o sertão, à medida que ele se aproximar da costa.

“São cenários”, adverte Salati. Ou seja, hipóteses formuladas com rigor científico em cima de informações e métodos disponíveis. Lidam principalmere com previsões sobre os efeitos regionais do clima no regime de chuvas e na perda de água por evaporação. Podem mudar, se novos dados rolarem na mesa. O resto, só com horóscopo ou jogo de búzios.

Por enquanto, o que se vê é um Brasil com menos sombra e água fresca. Num mundo mais quente, a evaporação devolverá ao céu uma percentagem cada vez maior das chuvas que ainda caírem. No São Francisco, essa perda está orçada em 83%. Na do Paraguai, que corta o Pantanal Matogrossense, 84%. Haja mata ciliar para segurar esses rios. Mas não é nisso que o país está investindo.

O relatório é pontuado por ressalvas. Recomenda, na conclusão, mais e melhores estudos do problema daqui para a frente. Adverte que “o nível de incerteza ainda é grande em relação ao que de fato possa acontecer”.

Salati está longe de ser candidato ao estrelato em manchetes catastrofistas. Pessoalmente, acredita que as previsões científicas servem antes de mais nada para evitar que as incertezas aconteçam.

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