A festa rural da mudança climática

Marcos Sá Corrêa
Marcos Sá Corrêa

Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

quarta-feira, 10 fevereiro 2010 19:12
 

O Show Rural Coopavel 2010 tem mais tudo o que se possa esperar de uma feira agrícola, menos show. Não há vaga para duplas sertanejas em seus múltiplos palcos. Estão todos reservados a palestras técnicas, inclusive sobre investimentos em bolsa. Nem sobra tempo para a vida noturna em sua agenda de negócios. O pavilhões enfileirados em quadriláteros quilométricos fecham, pontualmente, às seis da tarde.

O Coopavel dorme com as galinhas. Mas o que menos se vê neles é galinha, para nem falar dos porcos e outros pratos típicos da criação caipira. Eles vão saindo de cena. Encarnam um passado bucólico, como tudo que vem do tempo da ordenha manual, do boi no pasto e da rede no alpendre, sempre esperando a chuva ou o sol. O Show Rural está aí desde 1989 para mostrar, antes de mais nada aos próprios agricultores, que a agricultura não é mais a mesma.

Esta semana, ele abriu com16 mil vagas para automóveis – e bota lugar para picape e 4×4 nessa estimativa de espaço – no estacionamento, restaurante com quatro mil lugares à mesa, 4,8 mil terrenos reservados à demonstração concreta de experiências no campo, como latifúndios produtivos em miniatura, e 3,5 mil pesquisadores e recepcionistas à disposição dos 150 visitantes que passarão por lá até domingo, em visita de trabalho.

Não corre uma gota de álcool nas veias do show. Cerveja nem adianta pedir. Em compensação, os bebedouros com água gelada, copos descartáveis e marcas bem visíveis dos patrocinadores, ficam sempre a poucos passos de distância. Os banheiros públicos, escovados sem parar com panos de chão, cheiram a desinfetante até o fim do expediente, mesmo depois que um temporal inesperado transforma as calçadas de pedra em riachos de barro vermelho.

E não se vê lixo no chão. “Pode procurar”, desafia o engenheiro agrônomo Rogério Rizzardi. Ele é o coordenador e o inventor dessas feiras de amostras da Coopavel, que estrearam de maneira modesta há 22 anos. Começaram com 110 associados trocando entre si informações, por um dia, no Centro Tecnológico de Cascavel.

A cidade nasceu em 1928, mais ou menos como todas que brotaram no Oeste do Paraná no século 20. Seu nome vem, é claro, das cobras que assombravam as noites dos pioneiros. Em seus passos veio Nhô Jeca, ou seja, o colono Antônio José Elias que arrendou as terras dos posseiros para investir em colonização. Em pouco tempo, as madeireiras acabaram com a floresta, que hoje só se vê para lá das cercas do parque nacional do Iguaçu.

O desmatamento implacável gerou, a quase 500 quilômetros de Curitiba, uma cidade de 300 mil habitantes, com 21 mil universitários, PIB per capita superior a 11 mil reais e IDH de países mais prósperos e organizados que o Brasil. Tem um centro com torres de vidro e praças floridas, além de neste momento movimento 23 municípios no show da Coopavel.

O show dura a semana inteira. Proclama-se o maior do mundo por alguns critérios, como “a diversificação de produtos”. Recebe governadores e políticos. Caravanas vêm de longe, até do Piauí, para ver e ouvir as últimas do campo. Mas suas estrelas nos palanques são, por exemplo, as espigas “longas e cilíndricas” de um milho uniforme e dourado que, como legítimo produto dos laboratórios de manipulação genética, atende por nomes de outrora pertenciam aos robôs nos filmes de ficção científica – como o millho “BX 767”, “superprecoce”, ou o “BX 970”, notável por sua “arquitetura de planta moderna”.

Mais vistosas, só as máquinas. Um trator como o H3000I chega a ser tão que as conversas entre vendedores e clientes podem desdenhar as cadeiras de jardim nos estandes cobertos. Realizam-se ali mesmo, sobre a grama, na vasta sombra de seu chassi. Está em demonstração tambén o Auto Pilot RTK. A engenhoca eletrônica, instalada no painel de um trator, faz sozinha a colheita automática de cana-de-açúcar, percorrendo “com precisão de 2 a 5 centímetros” e “100% de paralelização” os talhões assinalados no GPS. Custa 45 mil reais. É parente do Auto Drive Ag 500, que dirige o trator para o fazendeiro, girando o volante automaticamente. E o vendedor reage ao menor sinal de espanto diante do produto, afirmando que “já tem muitos desses rodando por aqui”. Diante de tantos tamanhos e lançamentos, os pequenos produtores e assentados, que comparecem ao Show Rural com seus produtos orgânicos e artesanais, parecem uma montagem de época num espetáculo futurista. Não é fácil exibir um vidro de compota entre máquinas que talvez nem caibam em suas roças.

 

O Coopavel é um aviso de que a agricultura de ponta está aprendendo a mascar o jargão do ambientalismo, que os fazendeiros tradicionais consideravam intragável. Seus prospectos andam cheios atualmente de palavras como “sustentabilidade” ou “reciclagem”. O que não impede a tecnologia das sementes clonadas ou da dispersão eletrônica de agrotóxicos de ir adiante, supostamente abrindo caminho para a troca do desperdício poluente pela eficácia, que é a versão do agronegócio para um mundo mais limpo.

Ainda por cima, o Show Rural 2010 coincide com uma safra que teve “o sol certo, a chuva certa”, segundo um dos campeões locais de produtividade, num ano de vários recordes agrícolas regionais. O rendimento médio por hectare cresceu no Oeste do Paraná mais de 30%. E que não lhe venham falar de aquecimento global com um barulho desses.

Os céus bem que tentaram. O tempo mudou de repente da tarde de segunda-feira. O sol atordoante das últimas semanas sumiu atrás de nuvens negras. Às quatro, com a Coopavel cheia, caiu uma chuva forte, trazida por um vendaval. Painéis inteiros caíram nos estandes (veja foto acima). Tetos de pano se soltaram das amarras. Balões de publicidade murcharam de tanto bater de um lado para o outro. Caiu água aos cântaros em áreas cobertas. E logotipos coloridos voaram.

O que isso tudo quer dizer? Talvez nada. Às cinco e meia, assim que a tempestade amainou, os expositores já estavam em seus postos, deixando tudo novo para a manhã seguinte, encharcados, às vezes rindo do susto. Pareciam convencidos de que vieram para ficar.

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