Quem parte, reparte e fica com a melhor parte…

Pedro da Cunha e Menezes
Pedro da Cunha e Menezes

Ex-chefe do Parque Nacional da Tijuca, diplomata de carreira e conselheiro de ((o))eco.

terça-feira, 9 fevereiro 2010 16:01

Quando as guerras fratricidas que devastaram os Balcãs na década de 1990 finalmente terminaram, a Croácia herdou da extinta Iugoslávia um dos mais bem organizados complexos de Parques Nacionais em toda a Europa, protegendo os diversos ecossistemas do novo país, desde os terrenos de solo cárstico, até as ilhas paradisíacas do Adriático, passando pelas montanhas balcânicas. Explica-se: o Marechal Tito, supremo líder iugoslavo, era croata e apaixonado pela natureza que o abrigou dos nazistas nos anos em que liderou a resistência à invasão dos países do Eixo. Durante o período em que esteve no governo, declarou o estabelecimento das primeiras áreas protegidas da região. Além disso, montou um sistema de unidades de conservação com pessoal bem treinado e dotado de meios para manter a integridade da biodiversidade. Como resultado, hoje ainda sobrevive na Croácia uma série de animais extintos em outras partes da Europa, como o lobo, o urso, o lince, a lontra europeia, o javali, o falcão peregrino e mais de uma espécie de cervídeo.

Atualmente, 10% do território croata encontra-se protegido em algum dos oito Parques Nacionais do país. Plitvice Jezera, maior e mais antigo deles (criado em 1949), é de uma beleza inacreditável. Seus 294 km² protegem uma sequência de dezesseis lagos e lagunas interligados por magníficas cachoeiras encravadas em profundos canions de calcário, bem como a floresta primária que os circunda. A natureza porosa do solo de cálcio carbonado e a constituição do calcário dão à água uma tonalidade azul-caribenha que, no entanto, varia conforme o tempo e a vazão da água, podendo assumir um colorido verde esmeralda ou até mesmo uma tonalidade cinza chumbo. Não é sem razão que Plitvice Jezera ganhou o estatus de Patrimônio Mundial da Humanidade em 1979, ainda sob o regime comunista.

A mata primária de Plitvice, uma das últimas da Europa, abriga 1267 espécies de plantas, sendo 75 endêmicas, além de 321 espécies de borboletas, 161 de pássaros, e 21 de morcegos. Mas o animal mais significativo do Parque é o urso pardo (Ursus actos), que ali ainda vive em números expressivos.

Como era de se esperar, nos meses do curto verão europeu, cerca de um milhão de visitantes entram na fila para visitar essa maravilha da natureza. Graças a Deus ou, como preferem os saudosos marxistas, graças à clarividência de Tito, o Parque está preparado para recebê-los. Plitvice Jezera dá uma aula de manejo em uso público. Ninguém visita o Parque em veículo particular. A única forma de chegar às margens dos lagos formados pela junção dos rios Bijela e Crna Rijeka é tomando um dos ônibus pertencentes à unidade de conservação.

Com efeito, desde a entrada em Plitvice, o visitante vai sendo sempre lembrado que está em uma área protegida. Ao comprar seu ingresso, passa obrigatoriamente por um centro de visitantes onde é projetado um vídeo educativo nas línguas dos grupos nacionais que constituem os visitantes mais assíduos. Nas costas do bilhete vem um belo mapa do Parque, contendo suas normas de visitação.

Para os mais sedentários, os cadeirantes, os urbanóides, os obesos e a terceira idade, os ônibus dão conta do recado, fazendo um serviço de leva e trás entre meia dúzia de atracões principais. Nesses lugares, o Parque preparou-se para uma visitação de massa e deseducada. Os caminhos são reforçados com pavimento de concreto, há alambrados e corrimãos, coleta seletiva de lixo, quiosques de venda de suvenires e pequenos bares e restaurantes, tudo sempre com o logotipo de Plitvice Jezera, desde os bancos nos mirantes, até os guardanapos e o jogo americano das lanchonetes.

Os mais aventureiros, contudo, vão tendo acesso a uma natureza mais selvagem à medida que se distanciam das paradas do coletivo. A princípio, caminham em bem conservadas plataformas de madeira que protegem o solo delicado do excesso de pisoteio, mas, depois, passam a palmilhar trilhas de terra batida, sem intervenções que excedam os cuidados habituais com a drenagem do solo, o desestímulo ao uso de atalhos e a boa sinalização direcional e educativa.

O modelo se repete nas outras áreas protegidas croatas, como o Parque Nacional Krka, segundo mais visitado do país e criado em 1985 para proteger um conjunto de cachoeiras e lagos que abrigam dez espécies endêmicas de peixes de água doce, e o Parque Nacional de Paklenika, que protege a cadeia montanhosa que corre paralela à costa do Adriático e recebe cerca de 100 mil visitantes por ano, metade deles montanhistas.

Os Parques da Croácia, entretanto, não estão apenas preocupados com a visitação. Com efeito, para citar o exemplo de Paklenika, sua equipe de técnicos trabalha em estreita coordenação com os funcionários do Parque Natural de Velebit e do Parque Nacional de Velebit Norte, duas áreas protegidas adjacentes que formam um mosaico com ele. A cada três meses há operações conjuntas de fiscalização ou de monitoramento de espécies, tais como o lince e o lobo, bem como existe um planejamento comum de atividades de manutenção, de divulgação e um projeto unificado de pesquisas científicas.

Recentemente o esforço integrado na região de Paklenika logrou um grande sucesso, o isolamento com alambrados e a construção de passagens de fauna sobre a auto-estrada A1 que liga Zagreb, capital da Croácia, a Dubrovnik, principal aglomeração urbana na costa adriática. As passagens não saíram baratas. Não atravessam por baixo da rodovia, mas sim sobre ela, criando túneis para os automóveis. São pontes cobertas de vegetação e matacões de pedra, com largura suficiente para parecerem naturais a animais como o lobo e o urso, espécies em perigo de extinção. Segundo relatos do governo croata, os passadiços têm dado resultado e estão sendo utilizados com frequência pela fauna selvagem. Lá do cantinho do Céu onde Deus hospeda os comunistas, o Marechal Tito agradece e se regozija pelos compatriotas que souberam dar continuidade a seu trabalho, pois sabe que em matéria de conservação quem não faz a sua parte ou é tolo ou não tem arte.

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