Colunas

A Santiago de Compostela Tupiniquim pode ser aqui. Basta Querer!

O Cristo Redentor, cartão postal mais antigo do Brasil, faz 75 anos. Para comemorar, idéias boas e rentáveis para o parque nacional que o cerca: um circuito sacro de turismo.

10 de outubro de 2006 · 15 anos atrás

Dia 12 de outubro de 2006, a estátua do Cristo Redentor no alto do Corcovado, dentro do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, completa 75 anos de idade. A idéia de construir um monumento a Jesus no Rio de Janeiro, entretanto, é muito anterior. Remonta a 1859, quando o padre Pedro Bos imaginou o Corcovado como um gigantesco púlpito feito pela natureza. Sua vontade de ver seu sonho transformado em realidade era tanta que chegou a persuadir a Princesa Izabel a apoiar o projeto. Com a Proclamação da República, contudo, o sonho do Padre Bos perdeu força, sendo retomado somente em 1917 pelo engenheiro Eduardo Limoeiro, ainda que com um projeto arquitetônico muito diferente do atual.

A idéia, então, passou por um processo de indecisão sobre onde localizar o monumento, havendo sido sugerido também o Pão de Açúcar. Em 1921, o Corcovado foi escolhido definitivamente. A partir de 1922, o projeto deslanchou impulsionado pelo futuro Cardeal Leme que o transformou em uma cruzada de prestígio para a Igreja Católica, então sob pressão e questionamento intenso dos movimentos tenentistas da década de 1920, de orientação anti-clerical. Seguiu-se um problema com a Procuradoria da República, que negou licença para a construção do monumento com base na Constituição vigente que determinava a separação entre o Estado e a Igreja. O impasse só foi solucionado com a intervenção pessoal do Presidente Epitácio Pessoa.

Resolvido isso, foi iniciada uma enorme campanha em 1924 para arrecadar fundos entre a população, que contribuiu com a soma de cerca de US$ 400 mil, uma fortuna para a época. A partir de 1925, Heitor da Silva Costa, engenheiro responsável pela obra, empreendeu viajens pelo mundo em visita a outros monumentos. Em paralelo, o artista plástico franco-polonês Paul Landowski começou em Paris a esculpir em tamanho natural a cabeça e as mãos do Cristo, além de fazer várias maquetes de gesso da estátua inteira.

Em 1926, iniciou-se a obra, sob a orientação de Heitor da Silva Costa, agora coadjuvado por um arquiteto judeu, Heitor Levy, dando desde o início o tom de ecumenismo que caracterizaria a estátua desde então.

Cinco anos depois, em 12 de outubro de 1931, com festividades que duraram uma semana inteira, foi entregue à população a estátua do Cristo Redentor. Pela manhã, houve cultos comemorativos: no topo do Corcovado, junto ao monumento em espaço exíguo, apenas as eminentes autoridades; ao mesmo tempo no estádio do Fluminense, nas Laranjeiras, campo amplo – e glorioso nunca é demais dizer –, uma missa campal para o grosso da população. Às quatro da tarde a estátua foi oficialmente inaugurada, sendo iluminada por um telégrafo sem fio, diretamente da Itália, pelo cientista italiano Marconi (na verdade o experimento falhou e acabou sendo substituído a contento pelo telegráfo de Jacarepaguá, mas pouca gente ficou sabendo).

Desde então, o Cristo tornou-se não só o símbolo do catolicismo, mas do Rio de Janeiro como um todo e o cartão postal mais conhecido do Brasil. Sua visibilidade e fama tornaram-se tão grandes a ponto de a estátua hoje ser uma das favoritas na eleição que se realiza ao redor do planeta para escolher as sete maravilhas do mundo moderno.

Talvez de olho nisso, o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eusébio Oscar Scheid, determinou em dezembro último a criação de um sistema de atendimento aos visitantes ao redor do monumento. Excelente idéia que, embora tardia, sempre é bem vinda. Ainda é pouco, todavia.

O monumento e os atrativos que o cercam permitiriam ao Parque e à cidade terem uma exposição ainda maior e uma renda diversas vezes superior à atual. Para ficarmos apenas na seara de D. Eusébio, cito o circuito sacro que poderia ser implantado no Parque Nacional da Floresta da Tijuca, onde o monumento está inserido.

Para citar apenas alguns templos e marcos religiosos, no seio e arredores do Parque podemos encontrar a Capela Mayrink, o Alto do Cruzeiro, a Capela do Silvestre, a Capela centenária de Nossa Senhora da Cabeça, a Igreja da Nossa Senhora da Luz, a Igreja de São Judas Tadeu no Cosme Velho, a Capela de São Conrado e a Capela profana do Parque da Cidade.

Todos esses marcos da religião e da cultura já são hoje interligados por estradas e por trilhas. No início do terceiro milênio da era cristã, não é demais sonhar com um Cristo Redentor que sirva de centro convergente para alguns circuitos da fé, a exemplo – em escala reduzida – de Santiago de Compostela.

Um trabalho sério de turismo poderia desenvolver um caminho, por trilha ou por estrada de ferro e de automóveis, que incorporasse esses e outros locais de fé. Não é necessário grande investimento. Uma boa sinalização, segurança e a dose certa de publicidade alçariam o circuito, cujo principal atrativo é o Cristo, à categoria de atração internacional.

Pelo menos seis roteiros curtos, sempre terminando no Cristo Redentor, são facilmente implantáveis, com benefícios imediatos para a indústria turística carioca. 1) Via bondinho de Santa Teresa, com visitação ao Mosteiro de Santo Antônio, à Catedral do Rio de Janeiro e à Capela do Silvestre, terminando no Cristo, após conexão com a ferrovia do Corocovado na estação Silvestre; 2) à partir do Cosme Velho, pela ferrovia, com visitação à Igreja de São Judas Tadeu; 3) de automóvel, à partir de São Conrado, com visitação à Capela de São Conrado e a igreja de Nossa Senhora da Luz; 4) a pé, desde o Alto da Boa Vista, com visitação ao Alto do Cruzeiro, onde no século XIX eram rezadas as missas para escravos, à capela Mayrink e à Igreja Nossa Senhora da Luz; e 5) por trilha, à partir do Jardim Botânico, com visitação à histórica e multi-centenária Capela de Nossa Senhora da Cabeça, 6) por trilha, à partir do Parque da Cidade, com visitação à Capela profana da antiga propriedade do Marquês de São Vicente.

Seja qual for o caminho adotado, parafraseando o poeta, a Cidade de cristãos e leigos seguirá com o maravilhoso privilégio de ser abençoada pelo Cristo Redentor de “Braços Abertos Sobre a Guanabara”…

Leia também

Notícias
11 de maio de 2021

Servidor que relatou ineficiência no Ibama denuncia ameaças feitas por assessor de Salles

Hugo Ferreira foi impedido de copiar documentos do computador onde trabalhava e sofreu ameaças após escrever um relatório para o TCU. Servidor denunciou o ato à corregedoria do Ibama

Salada Verde
11 de maio de 2021

Ministério revela dia e local de operação de fiscalização na Amazônia

Publicação assinada pelo ministro Ricardo Salles autoriza transferência temporária de gabinetes e revela datas e locais de operação conjunta com a Força Nacional

Notícias
10 de maio de 2021

Organizações são contra a votação da lei geral do licenciamento, chamada de ‘boiada das boiadas”

Ascema, ONGs ambientalistas e nove ex-ministros do Meio Ambiente publicaram cartas em repúdio à votação do projeto de lei do licenciamento, que sequer foi tema de audiência pública

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta