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Abaixo a invasão dos latifúndios!

No Centro-oeste, as terras públicas foram invadidas por fazendeiros que querem garantir mais terra para o agronegócio. A ocupação pode ser constatada em uma viagem de carro.

27 de outubro de 2006 · 15 anos atrás
  • José Truda Palazzo, Jr.

    José Truda é jardineiro, escritor, consultor em meio ambiente especializado em conservação marinha e tratados internacionais, e indignado.

Não, não é bem o que leitor pensou à primeira. Apesar das minhas poucas simpatias pelo MST em função do seu patente descaso pela Natureza, invadindo “terras improdutivas” em que promove a destruição de matas e a caça indiscriminada de fauna, não quero aqui criticar as invasões dos latifúndios. Meu tema é mais grave e mais premente: a invasão das áreas públicas pelos latifúndios, que alargam assim seu poder de depredação do nosso patrimônio natural nas barbas das “otoridades” criminosamente coniventes.

Com efeito qualquer um que viaje pelos estados do Paraná, Mato Grosso (MS e MT) e Goiás por terra como acabei de fazer (aí uns 7.000 Km de estrada com minha família), pode constatar que os donos do agribusiness – nome pomposo inventado para dar estatura social a uma das piores bandalheiras de concentração de renda e destruição ambiental subsidiada pelo nosso imposto – não se contentam com os milhares e milhares de hectares que possuem e destroem – eles avançam, sem o menor pudor, sobre as faixas de domínio das rodovias estaduais e federais, não deixando uma bendita árvore de pé. Isso se repete por centenas, milhares de quilômetros, poupando, quando muito, os jardins dos postos da polícia rodoviária que nada faz pra acabar com esse esbulho do patrimônio público.

As faixas de domínio das estradas, inventadas para dar espaço à manutenção e ampliação destas e manter construções afastadas o suficiente para dar segurança ao trânsito, são também verdadeiros corredores de biodiversidade. Contendo uma diversidade de espécies da flora regional, ainda que de caráter secundário, muitas vezes são os únicos eixos de ligação entre áreas naturais, oferecendo à fauna oportunidades de alimento e abrigo que a permitem sobreviver no deserto das monoculturas medonhas e envenenadas do agribusiness caboclo. Ao eliminar completamente a vegetação nativa das faixas de domínio, os latifundiários e seus cúmplices, o DNIT e a Polícia Rodoviária Federal, além dos departamentos de estradas e polícias militares estaduais, eliminam também a possibilidade de sobrar qualquer resquício de Natureza no entorno de suas plantações de imundícies destinadas a alimentar com luxo as vacas européias.

Esse avanço descarado dos donos de terras não se limita a danificar as faixas de domínio. Botei o olho em cada baixada que passei nessa longa viagem, examinando os rios e cursos d´água menores que cortam os latifúndios. 99% estão desnudados, a mata ciliar, protegida “severamente” por legislação federal, arrancada pelos ricos criminosos e suas corporações para dar lugar a mais uma ou duas toneladas de grãos no lucro da empresa, para prejuízo, mais uma vez – surpresa, oh surpresa! – da sociedade como um todo. A canalha rural que administra os latifúndios não tem o menor escrúpulo em se atracar nesses últimos resquícios de Natureza para aumentar seu lucro e uma fração percentual para além do que já rendem seus milhares de hectares plantados com subsídio federal.

O agribusiness brasileiro não passa de uma imensa safadeza. A concentração de terras e renda, a destruição absoluta da Natureza em seu interior e entorno, não apenas são insustentáveis ambientalmente, mas representam um imenso dreno nas finanças do país. Roberto Smeraldi, ambientalista que estudou o tema, estima em cerca de 30 bilhões líquidos o que a União deu de presente aos latifundiários para agradecer seu empenho em escangalhar o país. Que droga de agribusiness é esse que reclama dos subsídios europeus à agricultura mas vive de parasitar o estado e roubar as áreas públicas e de preservação por um caminhão a mais de grãos??

Qual o produto do agribusiness tupiniquim que justifica sua existência, então? Ora, são muitos e diversos. O foco absoluto na exportação ajuda a mascarar os resultados econômicos “tradicionais” do Brasil, que fingem ser lucro o superávit da balança comercial enquanto exporta, junto com a soja, minérios e madeira, o que resta de sustentabilidade futura do país. A ascensão política dos representantes do latifúndio predatório gera gângsteres políticos como Blairo Maggi, que dos grotões destroçados do Mato Grosso sai de quando em vez para apoiar Lula à reeleição, para gáudio da Primeira-Ministra Dilma Roussef, que imprimiu ao reinado do Desinformado-Mor um caráter eminentemente pseudo-desenvolvimentista a qualquer custo. Essa união de interesses espúrios assegura que o fluxo de dinheiro público para financiar a quadrilha dos latifúndios depredadores vai se manter em alta num segundo mandato de Sua Ignorescência.

Uma outra característica que ajuda os latifúndios invasores do oeste a seguir impunes é justamente a burrice dos ambientalistas do leste. Historicamente, o “movimento” tem se concentrado em atacar, combater e apontar o dedo para a plantação de eucaliptos. Ora, a monocultura de árvores sofre fiscalização muito mais intensa dos órgãos ambientais que a monocultura da soja. Vá o leitor voar sobre o sul da Bahia, e o que vai ver é, sim, uma imensa monocultura de eucalipto, mas entremeada das matas ciliares preservadas, áreas de preservação permanente asseguradas, enfim, oportunidades de sobrevivência da fauna através da conectividade de ambientes. Ao nos esquecermos coletivamente dos crimes dos latifúndios do agribusiness, condenamos os ambientes e a fauna do centro, oeste e noroeste do Brasil à desaparição acelerada.

Não devemos esperar um segundo governo Lula para metermos a boca nessa bandalheira. Ainda que o Planalto esteja contaminado pelo fascínio dos dólares e cabos eleitorais da bandidagem rural, sempre podemos achar aliados. Talvez seja hora de se rever a lei e permitir, sim, a ocupação, pelo MST, quilombolas e movimentos indígenas, dos latifúndios ditos “produtivos” que ocuparem áreas públicas e destruírem as matas ciliares – crimes tão hediondos como tráfico de drogas, e de dano social muitíssimo mais grave, disseminado e permanente. Tenhamos cojones para encarar essa quadrilha e seus embaixadores, a “bancada ruralista” naquela penitenciária de regime aberto que é o atual Congresso Nacional, e legaremos um Brasil melhor, ambiental e socialmente aos nossos sucessores.

* José Truda, entre outras barbaridades, é Presidente da Coalizão Internacional da Vida Silvestre – IWC/Brasil, fundador do Projeto Baleia Franca e jardineiro.

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