Rastro de Onça
Nas pegadas dos felinos brasileiros e, em especial, da onça-pintada, conheça as histórias, fotos e descobertas sobre esses animais.

Corumbá, a cidade que precisa se tornar amiga da onça

Walfrido Tomás
quarta-feira, 27 agosto 2014 22:39

Onça atualmente vivendo na área urbana de Corumbá, em um trecho de vegetação densa em encosta calcária no Forte Junqueira, junto à área central da cidade. Foto obtida com camera-trap. Foto: Walfrido Moraes Tomas
Onça atualmente vivendo na área urbana de Corumbá, em um trecho de vegetação densa em encosta calcária no Forte Junqueira, junto à área central da cidade. Foto obtida com camera-trap. Foto: Walfrido Moraes Tomas

Nesta semana, o pesquisador da Embrapa Pantanal, Walfrido Tomás, nos conta detalhes sobre uma situação inusitada que vem se repetindo já há vários anos, de onças-pintadas invadindo a cidade de Corumbá, no MS. Eu o conheço desde o tempo em que ele estudava o cervo-do-Pantanal nos campos da fazenda Jofre, ao longo da Transpantaneira, na década de 80, e já escrevemos juntos para ((o))eco. Desde então, ele tem desenvolvido estudos com várias espécies de mamíferos, em especial os cervídeos, além de estudos em gestão de biodiversidade, indicadores de sustentabilidade, impactos de atividades humanas e políticas públicas no Pantanal. Ele é colaborador do Comitê criado na cidade de Corumbá, MS, para atuar em situações de grandes felinos na área urbana. (Peter Crawshaw)

Corumbá, no Mato Grosso do Sul, tem estado em evidência na mídia por conta de uma propalada invasão por onças pintadas. Na verdade, essa é uma longa história, com vários antecedentes no passado recente, e constitui, provavelmente, caso único de uma cidade localizada bem no meio de uma das maiores e mais importantes populações de onças das Américas.

A área urbana de Corumbá está localizada sobre um platô calcário de cerca de 30 m de altura acima do nível do rio Paraguai. A cidade vai até praticamente a linha d’água da margem direita do rio. Na outra margem, a planície pantaneira se estende pelo Pantanal a perder de vista, em direção ao norte. São quase 300 quilômetros, em linha reta, até as proximidades de Cáceres, sem nenhuma cidade ou rodovia ou qualquer outra infraestrutura que não as sedes de uma ou outra fazenda. Esta vasta extensão de terrenos baixos e alagadiços corresponde ao cerne das populações de onças do Pantanal.

As onças foram muito caçadas na região até meados da década de 60, devido à predação do gado e, à época, ao comércio legal de peles. Depois de 1967, ano em que a caça foi proibida no Brasil, o abates de onças continuaram com propósitos punitivos, e se estendem até hoje, em menor intensidade. De 1974 a meados da década de 90, o Pantanal passou por uma sequência de anos de grandes cheias, o que fez a criação de gado se afastar das partes mais baixas, reduzindo muito o conflito entre onças e a atividade pecuária e, consequentemente, o abate de indivíduos da espécie.

Formou-se um conjunto de condições que favoreceu a um aumento substancial das populações deste felino em todo o Pantanal. Entre elas, daquele tempo para hoje, houve um aumento da consciência das pessoas e incremento na fiscalização. As populações de onças floresceram.

Atualmente, elas são facilmente avistadas em diversas áreas do Pantanal, principalmente ao longo de rios como o São Lourenço, o Cuiabá, o Piquiri, o Negro, o Aquidauana, o Miranda e, obviamente, o rio Paraguai. Ou seja, em praticamente todas as regiões do Pantanal, em suas partes mais baixas em especial.

A “invasão”

“(…) em 2006, três indivíduos se abrigaram num local abaixo do Forte Junqueira, praticamente na área central da cidade, às margens do rio Paraguai”

De 1995 aos dias atuais, o Pantanal entrou numa fase de anos relativamente secos, com um ou outro episódio de cheia acima da média, como foi em 2011 e como está sendo a cheia deste 2014. As onças, nesta situação, passam a maior parte do ano às margens dos rios, onde há presas em abundância, principalmente capivaras e jacarés. É neste contexto que nos deparamos com a propalada “invasão” de onças em Corumbá. Este não é um fato novo, e muito menos raro. Entretanto, alguns episódios se tornaram muito conhecidos em função da divulgação pela mídia local e nacional.

O primeiro ocorreu em 2006, quando 3 indivíduos se abrigaram num local abaixo do Forte Junqueira, praticamente na área central da cidade, às margens do rio Paraguai. Acionada, a Polícia Militar Ambiental foi ao local verificar a veracidade da informação. Na entrada de uma das pequenas cavernas calcárias que existem embaixo do Forte, uma fêmea ameaçou atacar e acabou abatida, em autodefesa pelas pessoas que estavam ali, o que é compreensível. Na tentativa de captura de outro indivíduo, já com colaboração com o CENAP, um macho foi ferido e levado para cirurgia em Campo Grande, onde morreu mais de um ano depois por dificuldade na recuperação de uma fratura. Finalmente, este episódio terminou com um indivíduo sub-adulto capturado com sucesso e levado para uma área ao norte da cidade, e liberado em segurança. Este fato gerou controvérsias de toda natureza, mas é preciso contextualizar as coisas, já que as 3 onças estavam vivendo entre 50 e 100 metros de residências da área urbana.

O segundo fato notório foi a entrada de uma onça parda na área urbana em maio de 2008. Apesar de ter causado certa comoção, o episódio teve causas diferentes. A cidade é cercada por morros de calcário cobertos de mata seca. Aparentemente, este macho sub-adulto estava dispersando e acabou entrando em área densamente povoada nas vizinhanças do aeroporto da cidade. Foi capturado com sucesso e liberado em área apropriada, a 60 km da cidade. No episódio, ficou evidente a necessidade de organizar as instituições locais para atuar nestes casos recorrentes.

Grupo especializado

Captura de uma das onças, um macho, em julho de 2006. Na foto, Fabiana Lopes Rocha (então pesquisadora associada à Embrapa Pantanal), Ronaldo Morato (chefe do Cenap), e Peter Crawshaw. Antes de ser anestesiado, o macho havia sido ferido por um soldado da Brigada. Passou por repetidas cirurgias e, infelizmente, morreu meses depois. Foto: Peter Crawshaw Jr.
Captura de uma das onças, um macho, em julho de 2006. Na foto, Fabiana Lopes Rocha (então pesquisadora associada à Embrapa Pantanal), Ronaldo Morato (chefe do Cenap), e Peter Crawshaw. Antes de ser anestesiado, o macho havia sido ferido por um soldado da Brigada. Passou por repetidas cirurgias e, infelizmente, morreu meses depois. Foto: Peter Crawshaw Jr.

“Provavelmente, este é o único caso de um município brasileiro ter organizado e mantido um comitê para cuidar de casos de grandes felinos em áreas urbanas”

Então, foi sugerido ao Conselho Municipal de Meio Ambiente, pelos pesquisadores Guilherme Mourão, Walfrido Tomas, Carlos André Zucco e Fabiana Lopes Rocha, que um treinamento e a elaboração de um protocolo, dentro de um plano de contingência, fosse apoiado pelas autoridades locais. E foi o que aconteceu, de 2010 para cá, com workshops, curso de capacitação e articulação de um Comitê incluindo a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, a Secretaria de Meio Ambiente, A Polícia Militar Ambiental, a Embrapa Pantanal, o Centro de Controle de Zoonoses e o Instituto Homem Pantaneiro, com apoio do Ministério Público Estadual do MS e o CENAP (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros). Provavelmente, este é o único caso de um município brasileiro ter organizado e mantido este tipo de Comitê para casos de grandes felinos em áreas urbanas. Este Comitê possui um grupo de veterinários e biólogos bastante experientes em capturas de animais silvestres, quase todos com doutorado e participantes de um grupo de excelência em animais silvestres.

Após a formação deste Comitê, foram raros os eventos de onças pintadas na área urbana, eventos efêmeros envolvendo onças pardas e pintadas, sem que capturas tenham sido necessárias ou indicadas. Até que veio a cheia de 2014. E em maio, os membros do Comitê já estavam preocupados com a volta dos casos de onças dentro da cidade. As previsões se confirmaram. No final de maio, uma onça adulta com dois filhotes foi encontrada no quintal de uma residência, ao lado do Porto Geral de Corumbá. A fêmea havia subido em uma árvore com seus filhotes, acima de uma parte inundada do terreno. O Comitê foi acionado, e todo o protocolo elaborado foi colocado em prática, funcionando muito bem, com isolamento da rua, remoção de curiosos, limitação de aceso da imprensa e de qualquer pessoa que pudesse atrapalhar o resgate. A onça sedada só poderia cair na água ou em rochas presentes no local. Caiu na água, e foi rapidamente removida para atendimento cuidadoso. Infelizmente, morreu duas horas depois de cuidados veterinários intensivos. Foi submetida a uma necropsia, que comprovou a morte por afogamento. Os filhotes foram capturados com sucesso e, por serem muito novos, foram levados ao CRAS, em Campo Grande, para posterior processo de reintrodução. Neste caso, a situação era crítica, pelo risco iminente à população, e a única opção era a captura imediata. A fatalidade, de qualquer forma, é sempre um risco inerente à captura de animais silvestres.

Como esta fêmea foi parar naquele local? Simples, atravessou o rio Paraguai, talvez buscando seus filhotes um a um, em função da rápida e extensiva inundação em toda a vasta região em frente à cidade, território de onças por natureza. E foi este motivo, absolutamente natural, que levou ao aparecimento de várias outras onças ao longo da orla da cidade às margens do rio Paraguai em junho, julho e agosto. Um fato inédito, obviamente, mas não resultante de ação humana ou destruição de habitat. Ele ocorre pela movimentação natural das onças em busca de terrenos mais secos. Além disso, tem um significado importante: as populações de onças no Pantanal estão bem, obrigado. O Comitê, nesta situação, está atuando de forma organizada, usando os recursos disponíveis, já que não há risco imediato à população urbana de Corumbá e da vizinha Ladário. Nestes 3 meses, nenhum caso de ataque foi registrado, apesar de onças perambularem por áreas mais povoadas, às vezes em quintais de residências, pátios de hotéis e avenidas. Elas têm se alimentado de jacarés e capivaras às margens do rio Paraguai e, eventualmente, abatem cães domésticos. Entretanto, como o Pantanal ainda deve estar alagado na região de Corumbá por cerca de dois meses, a população da cidade está exposta a um risco, embora relativamente baixo. É preciso considerar que uma exposição continuada a uma situação assim eleva as chances de algo mais grave acontecer, como um ataque a pessoas. Neste sentido, as capturas estão sendo tentadas pelo Comitê, com armadilhas, naqueles casos de maior contato com a área urbanizada. O ideal é capturar todas, mas esta não é uma tarefa fácil e rápida, uma vez que há pelo menos 6 indivíduos hoje na cidade.

A cidade está aprendendo a conviver com as onças, e não há outro caminho a seguir, já que fatos assim vão continuar acontecendo ano após ano, sempre que houver uma cheia acima da média. O caminho é esclarecer a população e transformar áreas da orla mais utilizadas pelas onças em refúgios de fauna, com alambrados na interface com a cidade, além do constante amadurecimento do Comitê. Essas são as peças fundamentais na minimização dos riscos de incidentes onças-pessoas, e na maximização da proteção destes animais. Afinal, Corumbá merece o título de Capital das Onças.

 

 

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