O País onde alimentar passarinhos é crime
Olhar Naturalista
Por aí com Darwin e uma câmera na mão

O País onde alimentar passarinhos é crime

Fabio Olmos
segunda-feira, 27 março 2017 14:51
O famoso comedouro de aves da Trilha dos Tucanos. Crianças de todas as idades, como a da foto, saem deste passeio com um sorriso de orelha a orelha. Fotos: Fabio Olmos
O famoso comedouro de aves da Trilha dos Tucanos. Crianças de qualquer idade, como a da foto, saem deste passeio com um sorrisão. Foto: Fabio Olmos

Vivemos uma era onde experiências são mais valiosas que compras. E o turismo de vida selvagem, aquele que te oferece momentos Animal Planet, BBC, National Geographic ou Discovery Channel, vende experiências supremas.

Estar próximo e interagir com bichos vivos proporciona aqueles momentos PQP que atraem visitantes a UCs das ilhas Antípodes ao Zimbabwe, gerando cadeias de negócios, integrando comunidades isoladas à economia global e criando empregos.

Na pior das hipóteses, bichos são conservados porque são mais valiosos vivos do que mortos. Na melhor, há o salto civilizatório e eles passam a ser companheiros de nossa jornada neste planeta, com os mesmos direitos à existência.

A necessidade humana de proximidade e interação gerou negócios antes improváveis como visitar gorilas em Uganda, passar o dia com onças no Pantanal, observar baleias, caminhar com pinguins e mergulhar com tubarões.

Os tubarões chamam a atenção porque um dos padrões da indústria são excursões onde os simpáticos bichinhos são alimentados pelos dive-masters e fazem a alegria dos turistas. Um resultado é que os tubas são totalmente protegidos em países como as Bahamas pois são um motor da economia.

Existem outros empresários de bichos que criaram negócios similares, que beneficiam todos os envolvidos. Aqui em São Paulo, um dos locais mais agradáveis para observar aves é a Trilha dos Tucanos, em Tapiraí. Além de uma bela floresta, sistema de trilhas, hospedagem e restaurante, o que atrai birders e fotógrafos ao lugar são os comedouros que atraem montes de aves silvestres que se tornaram habituadas às pessoas.

Tucanos também é um dos melhores lugares que conheço para, como diz o povo da educação ambiental, sensibilizar as pessoas. Ter um grupo de saíras e catirumbavas comendo banana na mão de uma criança por cinco minutos vale mais que seis meses catando latas para reciclagem ou fazendo papel na escola.

Comedouros sim, gaiolas não. Unidades de conservação poderiam dar o exemplo.
Comedouros sim, gaiolas não. Unidades de conservação poderiam dar o exemplo. Foto: Fabio Olmos

Tucanos não é única a ter comedouros para aves, que são comuns em reservas e propriedades privadas em todo o Brasil e fazem a alegria de passarinhos e seus amigos. O que chama a atenção é que, com pouquíssimas exceções, comedouros de aves são explicitamente banidos das unidades de conservação manejadas pelo Estado.

Sempre que pergunto a razão, ouço que é “é proibido pela lei” e explicações do tipo “altera o comportamento”, o que não explica coisa alguma. Construir um centro de visitantes, ter veículos nas estradas de serviço, iluminação noturna ou abrir um aceiro também altera o comportamento da fauna, mas fazemos isso em uma UC porque os benefícios são entendidos como maiores do que os malefícios.

Qualquer um que já gastou algum tempo olhando a reação das pessoas – especialmente crianças – visitando um comedouro de aves decente já percebeu como estes podem ser uma ferramenta poderosa para conquistar corações e mentes contra atividades que são as verdadeiras desgraças, como a caça e a tradição de ter aves em gaiola.

Os que turistam em UCs pelo mundo também já descobriram que somos uma Coréia do Norte com relação a práticas comuns e correntes. Para não ir longe, nos Estados Unidos – onde parques nacionais são considerados “America’s Best Idea” – todo centro de visitantes de qualquer UC tem comedouros para que todos, inclusive aqueles com limitação de mobilidade, possam ter um gostinho da fauna alada.

Dá trabalho? Claro, a higiene é fundamental. Altera o comportamento? Lógico. Isso é ruim? Não. O importante é que altera o comportamento das pessoas. Ninguém é convencido de algo por conta de sua racionalidade. Somos convencidos pelas nossas emoções, e aí está a chave da razão de as experiências que oferecem contato próximo com o mundo natural serem transformadoras.

Além disso, há toda uma série de programas de monitoramento pelo mundo afora que utilizam comedouros e plataformas de Ciência Cidadã para acompanhar as tendências populacionais das aves e relacioná-las a coisas como o uso da terra e mudanças climáticas. Programas que, por sinal, incluem comedouros instalados em escolas. Alguém captou a ideia?

Proibir comedouros de aves em UCs brasileiras faz muito mais mal do que bem. Cada parque sem comedouros é uma oportunidade perdida de educar e sensibilizar, e de mostrar algo que pode ser feito em casa e ser parte do processo de erradicar a tradição das gaiolas.

Albatrozes-de-coroa-branca Thalassarche steadi acompanham o barco onde fiz uma saída pelágica em Stewart Island, no sul da Nova Zelândia, esperando um lanchinho. Este momento será inesquecível para quem estava ali.
Albatrozes-de-coroa-branca Thalassarche steadi acompanham o barco onde fiz uma saída pelágica em Stewart Island, no sul da Nova Zelândia, esperando um lanchinho. Momento inesquecível para quem estava lá. Foto: Fabio Olmos

O que aconteceria se alguém propusesse que cada UC brasileira tenha comedouros de aves? Na minha experiência irá esbarrar no “é ilegal”, “altera comportamento” e outras desculpas que não são desculpas. Se há alguma lei que proíbe oferecer bananas a passarinhos, ela merece uma banana.

Indo além, e voltando ao começo. Alimentar tubarões é comum em UCs marinhas do mundo todo, com pilhas de pesquisas sobre o assunto que vão do monitoramento de populações, passam pela economia e chegam à ausência de impactos significativos no seu comportamento.

Um dos exemplos de como o Brasil é torto é que em Fernando de Noronha ninguém está autorizado a fazer um shark diving como nas Bahamas, ao mesmo tempo que os mesmos tubarões são mortos no entorno do parque para fazer o famigerado tubalhau.

Aliás, lembre-se de que quem compra produtos feitos com carne, dentes e outras partes de tubarões e cações está ajudando estas espécies a desaparecer.

Ainda no mar, outra atividade que envolve oferecer alimento a animais para proporcionar momentos PQP é a observação de aves marinhas. No Brasil essa atividade ainda é incipiente mas em outros países é uma indústria consolidada, com operadores e excursões regulares saindo de portos na África do Sul, Chile, Peru, Nova Zelândia, Estados Unidos, Portugal, entre muitos mais.

Como observador de aves, tenho um fraco pelos albatrozes e petréis que são as grandes estrelas da maioria dos pelágicos pelo mundo afora e já participei em várias excursões nestes países. Um dos mais interessantes é a Nova Zelândia.

A nação-ilhas é o hotspot da diversidade de albatrozes e petréis do mundo e um dos campeões de sua conservação. Aves marinhas formam um dos grupos de aves mais ameaçados, com 15 das 22 espécies de albatrozes sob ameaça de extinção porque muitas aves são mortas por barcos espinheleiros (os que pescam tubarões, atuns e mecas. Peixes que você não deveria consumir) e porque cães, gatos, ratos e camundongos introduzidos – e vândalos – dizimam suas colônias reprodutivas.

A Nova Zelândia é uma campeã nos esforços de conservação dessas aves, com projetos que incluem a erradicação de predadores introduzidos, criação de UCs marinhas, desenvolvimento de técnicas de pesca que minimizam a mortalidade, monitoramento das embarcações de pesca e promoção de acordos internacionais como o Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis – ACAP, do qual o Brasil é signatário.

Albatrozes-neozelandeses Diomedea antipodensis e petréis-gigantes Macronectes hallii atraídos pelo purê de fígado de peixe oferecido durante um pelágico em Kaikoura, Nova Zelândia. O país é referência em ecoturismo e conservação marinha, combinando ambas.
Albatrozes-neozelandeses e petréis-gigantes atraídos pelo purê de fígado de peixe oferecido durante um pelágico em Kaikoura, Nova Zelândia, país referência em ecoturismo e conservação marinha. Foto: Fabio Olmos

Outra coisa na qual a Nova Zelândia é campeã é o ecoturismo. Ali há diversos operadores que levam as pessoas para ver, ao vivo e a cores, a diversidade de albatrozes, petréis e aves marinhas que o país tem.

Se minha experiência vale algo, ver um albatroz-real com três metros de envergadura ao alcance da mão, um grupo com dezenas de albatrozes de quatro espécies diferentes acompanhando seu barco ou petréis-gigantes lutando sumô causam aquela sensação que faz você se perguntar por que há quem use drogas ao invés de observar aves.

Estas excursões permitem o contato próximo com essas aves quase lendárias, que normalmente ninguém vê nem sabe que existem. Quando o pessoal do Projeto Albatroz começou a trabalhar para que o governo brasileiro participasse das negociações do ACAP descobriu que poucos em Brasília sabiam o que era um albatroz…

Também são a única oportunidade que mortais comuns têm para ver espécies raríssimas, como o New Zealand Storm Petrel. Considerado extinto em 1850, foi redescoberto em 2003 por observadores de aves numa saída pelágica. Hoje há todo um programa de pesquisa e monitoramento da espécie — uma das aves mais raras do mundo –, enquanto as excursões comerciais para observá-la continuam.

Falar em excursões comerciais para observar espécies criticamente em perigo causa urticária em algumas pessoas por aqui. Que aumentará se eu disser que alguns destes tours, como em Kaikoura (assista o vídeo!), são feitos em unidades de conservação marinhas.

Para “piorar”, todas as excursões para observar aves marinhas na Nova Zelândia adotam a prática (padrão no mundo todo, por sinal) de lançar alimento na água para atrair as aves. Sim, leitores e leitoras, lá eles alimentam os passarinhos para que os visitantes possam vê-los de perto. E ainda ganham dinheiro com isso.

E não é qualquer comida que é usada. A preferência é por um purê feito com restos de salmão, criado nas muitas fazendas marinhas do país. Proteína com óleo de peixe é irresistível para as aves.

Estes dois parágrafos devem conter uns quatro ou cinco pecados se seguirmos o padrão do planejador ambiental brasileiro. Para os neozelandeses, que devem ter o melhor histórico de manejo de aves marinhas e de conservação marinha, é usual.

O New Zealand Storm Petrel (Fregetta maoriana) foi considerado extinto em 1850 e redescoberto por observadores de aves em 2003. Você pode observar esta espécie em saídas organizadas por diversos operadores turísticos no Gulf of Hauraki Marine Park, que usam restos de salmão moído para atrair as aves.
O New Zealand Storm Petrel (Fregetta maoriana) foi considerado extinto em 1850 e redescoberto por observadores de aves em 2003. Você pode observar esta espécie em saídas organizadas por operadores turísticos no Gulf of Hauraki Marine Park, que usam restos de salmão moído para atrair as aves. Foto: Fabio Olmos

O mar brasileiro é utilizado por 45 espécies de albatrozes e petréis, além de dezenas de gaivotas, fragatas, atobás, trinta-réis, etc. Continuamos sabendo muito pouco sobre a maioria destas aves além de muitas estão ameaçadas. Ao mesmo tempo há uma crescente comunidade de observadores de aves que está engajada em Ciência Cidadã usando plataformas como o Wikiaves e o eBird.

O que aconteceria se alguém aqui no Brasil quiser fazer excursões em UCs marinhas como Alcatrazes, Noronha ou Abrolhos para observar aves usando as mesmas práticas que os neozelandeses? E se alguém quiser começar um negócio de mergulho com tubarões como é feito nas Bahamas?

Falando por experiência, bateria na desculpa do “altera comportamento”, “cria impacto” e outras explicações que não explicam nada.

Regras discutíveis que restringem a visitação de UCs e proíbem atividades que são rotineiras em outros países pioram a situação. Inibem o uso das UCs por um público interessado pela sua conservação, matam oportunidades de monitoramento e abortam negócios baseados no turismo de vida selvagem.

O que é mesmo que causa impacto?

 

 

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54 comentários em “O País onde alimentar passarinhos é crime”

  1. Boa reflexão Fabio! Confesso que durante minhas passarinhadas sempre vejo esse tipo de comentário sobre comedouros etc… Mas como não manter um comedouro em minha casa sabendo que para que ela esteja ali foram destruidas árvores que ofereciam N recurso as aves e outros seres.. de certa forma me sinto responsável por elas ! por isso mantenho meu comedouro e sou defensor deste!

  2. Parabéns pelo excelente texto, para nossa reflexão do melhor uso das UCs, com práticas adotadas mundo afora e que não exigem necessariamente grande investimento financeiro.

    É até comum, e estranho, que muitos observadores de aves prefiram estar fora das UCs do que dentro delas, alguma coisa não está legal no modelo adotado.

  3. Belo texto, Meus parabéns,

    Importante ressaltar que em outros países existem instituições sérias que representam as classes, por este motivo, hoje existem conquistas, infelizmente aqui no Brasil a Sociedade Brasileira de Ornitologia, há duas décadas serve apenas aos interesses da diretoria.

    Não existe publicação impressa, não existe conteúdo exclusivo ao sócios, não existem prêmios ou apoio a pesquisadores, não existem bolsas de pesquisa para estudantes, cursos promovidos, workshops gratuitos, nada.

    O que existe sim, é captação de recursos e, dados, para exportação, verba captada no país é direcionada em benefício dos projetos da própria diretoria, ou melhor, da Birdlife, enquanto instituições internacionais recebem cada vez mais verba em resposta a expansão da coleta de dados e projetos por aqui, o Brasil não recebe nada em troca, continuamos trocando ouro por espelhos e, só quem se beneficiam são alguns poucos.

    Birdlife, Cornell, American Conservancy, todos beneficiados pelo tráfico de influência através de Sociedade de Ornitologia, enquanto apresentam relatórios sobre os nossos dados, enquanto conseguem a cada ano mais verba, não oferecem nenhuma contrapartida substancial a quem realmente protege as aves brasileiras, os cientistas que ainda lutam por aqui para desempenhar seu papel, com pouca verba, sem bolsas, sem tempo, encalhados na burocracia.

    • Helmut, acho que você não conhece coisa alguma sobre o trabalho da BirdLife, desenvolvido no Brasil através da SAVE, e está dando um bom exemplo de como pessoas não se inibem de expor sua ignorância ou suas más intenções..
      A SAVE atua em projetos de extrema importância, como a conservação das aves endêmicas da Mata Atlântica do nordeste, na reserva da Serra do Urubu e a reintrodução de jacutingas na Mata Atlântica, e foi fundamental em reverter a situação em Boa Nova. Por sinal, questões onde o governo teve que ser empurrado para atuar.
      American Bird Conservancy está colocando dinheiro em projetos efetivos enquanto Cornell criou um sistema de Ciência Cidadã que se tornou padrão devido à sua qualidade. Para inveja mortal de alguns pesquisadores tupiniquins. Se isso não é oferecer contrapartidas às aves, então não sei o que é.
      Mas é lógico que sempre vai haver os que ficam mordidos com quem trabalha.

    • Os pontos levantados são tão sem sentido que não tem nem como rebater, mas vale ressaltar que hoje, no Brasil, mais da metade dos projetos de conservação que saem do papel (não os que produzem papel) são mantidos por fundações privadas nacionais e internacionais e muitos deles são capitaneados pela ou parceiros da BirdLife. Criticar dessa forma covarde algumas das organizações que mais trabalham em prol da conservação de aves no Brasil é uma fantasia tão ridícula quanto o nome fantasia que foi inventado.

  4. Fabio alem de excelente reportagem, este artigo pode dar um start em uma mudança nos gestores. O grande problema no Brasil é que sempre quem esteve a frente da legislação e da gestão do meio ambiente nunca foi especialista. Acho que esta chegando o momento de especialistas em cada area iniciar uma discussão para reverter a legislação absurda do meio ambiente no Brasil.

  5. Excelente artigo! Por que não se discute isso nas faculdades? Essencial para formação de biólogos (e quem trabalha com natureza).
    Devemos lembrar a alimentação do Lobo Guará no Caraça. Não conheço como é feita nem se contribui de alguma maneira a projetos com o lobo, e creio que se mantém apenas por ser de uma instituição religiosa. Porém é certo que cada um que conheço e já foi lá conta da experiência como algo único, e muda completamente a visão do lobo e sua natureza. Torna-se um potencial contribuinte nas questões conservacionistas.
    Enquanto a educação ambiental crítica ganha destaque e mostra o real problema em relação ao meio ambiente (político, econômico e social) e a educação ambiental tradicional bate na tecla "faça sua parte", acredito que a educação ambiental por meio do contato direto com a natureza, uma vertente pouquíssimo explorada e estudada, seja uma das mais importantes para que se crie, de fato, uma consciência.
    O meu projeto, Projeto Mantis, estuda os louva-a-deus e buscamos exatamente esse contato. Posso dizer, com certeza, que se precisarmos de contribuições para salvar um louva-a-deus em extinção, teremos pessoas dispostas a isso. Porque mudamos nelas a percepção de mundo ao abrir as portas para os louvas, os insetos e a própria natureza. Ao mostrar um pouco da riqueza que está nas nossas matas e, pasmen! também nas cidades, tão próximas. O maior orgulho é ver pessoas que chegam com nojo e repulsa por insetos e saem completamente mudados, pedindo para que soltemos nossos louva-a-deus de volta à natureza (são criados para pesquisa com devida licença) ou perguntando como poderiam ter um de pet em casa.
    E como Fábio diz no artigo, estamos em uma era de experiências. Justamente o que, economicamente, a natureza pode oferecer! Faço disso minha missão diária com os insetos e não é difícil! Ao contrário, as pessoas querem essa experiência, mesmo que não saibam. O ser humano deseja esse contato. Tão fortemente que rapidamente muda sua perspectiva, do "estranho selvagem" para um "ser magnífico". O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo e não usufrui, no bom sentido, dela. A lei não permite comedouro de passarinho mas deixa o desmatamento correr solto por aí… Falta também engajamento das pessoas. Nossos cientistas, em sua maioria, estão presos em seus laboratórios, com seus dados, publicando seus artigos, indo a seus congressos, fazendo seu próprio ego enquanto lá fora ninguém sabe o que está acontecendo nem entende o que vale um trabalho desses, porque não conhece. Em parte, culpa nossa que pesquisa e não diz por aí. Mas há como mudar.

    • Você e o Fabio estão certos, Leonardo.

      O recurso natural TEM QUE TER VALOR ECONÔMICO PARA SER PRESERVADO, senão será fatalmente destruído, questão apenas de tempo.

      Por que no Brasil a floresta vale mais deitada do que em pé?

  6. Este é o o ponto de vista de uma pessoa, que tem que ser respeitado, até porque o mesmo tem escrito belíssimos texto sobre a necessidade de incrementarmos a visitação nas UCs.

    Mas tem muitas outras pessoas que tem opiniões contrárias a alimentar animais, com embasamento científico. Um trabalho (ORAMS, M. B. Feeding wildlife as a tourism attraction: Issues and impacts. Tourism Management, v. 23, n. 3, p. 281-293, 2002) afirma que "a alimentação artificial de animais selvagens implica uma variedade de consequências negativas, incluindo alteração de padrões comportamentais e populacionais, dependência e habituação, agressividade e problemas de saúde, como doenças e injúrias; portanto, com exceção da alimentação deliberada no auxílio da reabilitação de animais doentes ou machucados e da alimentação suplementar na recuperação de uma espécie ameaçada, é difícil encontrar qualquer justificativa biológica para a alimentação artificial da vida silvestre. Outro trabalho (OLIVEIRA, D. G. R. Impactos da visitação turística sobre animais em áreas naturais. 2009), afirma que "a alimentação artificial de animais em vida livre também pode aumentar a susceptibilidade dos animais a outros impactos antrópicos".

    Peixes que comem pão, arroz, etc.. tem MUITAS vezes mais câncer de duodeno que peixes que se alimentam naturalmente.

    Nas Bahamas, a situação de alimentação de tubarões é bem diferente e mesmo assim já ocorreram vários acidentes por lá.

    A maior dificuldade para manter animais marinhos em cativeiro vivos, como aves e mamíferos, é a qualidade e sanidade dos peixes. Será que no Brasil, onde até as carnes para consumo humano tem sanidade duvidosa, teremos alimentadores de animais que cuidem da qualidade do alimento?

    Mas em algumas situações alimentadores de pássaros em UCs não de proteção integral com sementes e frutas nativas da região são uma ótima opção de aproximar animais e pessoas.

    Em situações onde o animal corre grande risco de morte e o turismo para valorização do animal vivo só é possível com alimentação, como é o caso do boto-cor-de-rosa na Amazônia, também acredito que a alimentação possa ser permitida com normas, controle e fiscalização.

    Além disto, não sei o quanto conhecem de UCs marinha no Brasil e no mundo, mas eu conheço mais de 50, como Kaikoura (Nova Zelândia), e já li trabalhos científicos sobre turismo de fauna em umas 100. Em nenhuma delas é tão fácil ver a fauna marinha no ambiente natural como em FN.

    Em Fernando de Noronha, os peixes sargentinhos (Abudefduf sacatilis) estão mordendo as pessoas que mergulham. Pedindo comida para um ser parecido com aquele outro ser que os alimentam. Sabiam disto? Será que os tubarões, quando ver uma pessoa, não vai morde-la para também ganhar comida. Eu já vi golfinho em cativeiro atacar adestrador a mordida para ganhar mais comida.

    Acredito que é o turismo que deve ser estimulada em Fernando de Noronha e na maioria das UCs e proteção integral do Brasil é o turismo de observação de fauna marinha em comportamento natural na natureza.

    É o que eu acho. Mas, este é só o ponto de vista de 1 pessoa.

    José Martins

    • José, alimentação suplementar de fauna silvestre terá consequências dependentes das espécies envolvidas. Para tubarões sabemos que o resultado é, no cômputo, positivo. E definitivamente desconheço caso de tubarões mordiscando gente pedindo comida.
      Fazer o mesmo com onças-pintadas não seria uma boa ideia já que a probabilidade dos bichos engajarem em interações negativas com as pessoas se torna alta. E o mesmo vale para primatas, de babuínos a macacos-prego.
      Para aves há sim um enorme corpo de literatura científica sobre os impactos, que vão variar entre lugares e espécies envolvidas. Há desde resultados que falam de aumento nas colisões com janelas, passando pelo aumento da sobrevivência das aves durante o inverno e como populações reintroduzidas se beneficiaram deste subsídio. No geral, é seguro afirmar que os benefícios superam bastante os malefícios. E, como eu disse, há montes de países onde os comedouros são padrão não só em UCs mas também nas reservas manejadas por instituições especializadas na conservação de aves, como a RSPB e a Audubon. Que entendem um pouco do assunto.

      • Fábio.
        Admiro seu empenho em divulgar a natureza e a conservação por meio do turismo de observação de fauna. Vivo e trabalho nisto há 30 anos. Sou um defensor desta ferramenta de conscientização ambiental. Sei que tem casos e casos. Mas em geral, em Unidades de Conservação de Proteção Integral, para locais em que não é necessário alimentar para ver os animais e para animais que não correm risco de caça, não vejo o menor sentido em estes serem alimentados artificialmente.
        Quanto a acidentes com tubarões, em uma rápida busca no Google de "shark feeding" "accident", achei vários links de discussões e imagens de tubarões em ataque durante processos de alimentação. Como: http://forums.scubadiving.com/archive/index.php/thttps://www.youtube.com/watch?v=HbdTROt14G8 http://www.petethomasoutdoors.com/2012/04/video-rhttp://www.scuba-forum.com/forums/shark/shark.htm
        Então tem acidente e tem morte.
        Nos dois últimos anos, teve um ataque de tubarão por ano em Fernando de Noronha . Acho que instituir alimentação de tubarão em Noronha é cutucar a onça do mar com vara curta.
        José Martins

  7. Este ano vi um tubarão na praia, totalmente por acaso, e foi uma das melhores experiências da minha vida. Desde então não paro de pensar em mergulhar com eles, quero ver estes caras de novo. Uma pena saber que será mais fácil fazer isso nas Bahamas que no meu país.

  8. Vou apenas contar um fato: eu só me tornei birdwatching graças a um comedouro de um hotel em Ubatuba. Até então só fotografava automobilismo e pessoas. As aves coloridas se alimentando perto de mim me fascinaram, quase pirei. Não conseguia sequer comer nem parar de fotografar. Foi paixão imediata. Isso foi em 2010. De lá pra cá, a maioria dos meus amigos conhece minha história e meu bloguinho. Eu já fotografei mais de 1500 espécies de aves (todas na América do Sul). Sou uma defensora da natureza, praticamente só fotografo aves, seja no comedouro ou indo aos cafundós do mundo atrás delas. Os empresários do Equador e do Peru já descobriram como os Lodges podem ganhar muito dinheiro com a observação de aves. Qualquer café ou hospedaria nesses países (pelo menos por onde passei) possui comedouros e bebedouros bem cuidados para atrair turistas. Deixo aqui a pergunta: quantos como eu não foram "atingidos" dessa forma e se tornaram amantes e defensores da natureza como eu?

    • Você está certíssima, Silvia.

      O artigo do Fabio está ótimo, em primeiro lugar porque pela primeira vez nas ultimas cinco matérias que escreveu para O ECO não cometeu nenhuma frase destilando ódio ideológico e preconceituoso contra ruralistas e agronegócio.

      Tudo o que foi escrito é a mais pura verdade, inclusive quanto a "cevar" onças (que sabemos acontece em alguns lugares do pantanal) e outros mamíferos.

      Carlos Leôncio – Pousada Bacury.

      • Carlos, quando os proprietários rurais forem os primeiros a agir contra seus pares que, em um ano bom, desmatam 5 mil km2 da Amazônia e a retirar o apoio aos que dizem ser seus representantes no Congresso que cometem coisas como os projetos sobre eliminação de UCs e caça, aí vou começar a acreditar que meu pós-conceito sobre o pensamento majoritário do grupo está equivocado.

  9. Fabio Olmos já conversamos sobre implementar algo assim no Parque Nacional das Araucárias, mas esbarramos no Plano de Manejo. Adoraria ver seu texto transformado em ações pelo ICMBio e outros órgãos ambientais que podem de fato permitir o uso de comedouros, de forma controlada e responsável. Obrigada pelo excelente artigo!

    • Não é esse o único parque onde o plano de manejo barrou a iniciativa. E isso causa muito mais mal que bem.
      Um parque onde comedouros e bebedouros, junto com proteção efetiva, produziram resultados espetaculares foi a Serra da Capivara (pelo menos até acabar o dinheiro). Que deveria ser uma prova do conceito

  10. Parabéns pelo artigo Fábio! Não fazemos gestão dos recursos faunisticos no nosso país, principalmente pelo desconhecimentos e falta de vivência dos gestores.
    Ainda temos muito o que aprender com países como EUA, Nova Zelândia e até com o nosso vizinho Peru.
    Mais uma vez parabéns pelo artigo.

  11. Levantou um tema que leva a um debate forte. Concordo contigo: não há mal nenhum em por uma vasilha com quirera pra alimentar uns passarinhos. O problema é que existem "puristas", aqueles que acham que se deveria proibir visitação em UC porque o clic da máquina fotográfica impede a borboleta-azul de se reproduzir. Enquanto isso, os palmiteiros entram na UC e matam onças, queixadas e etc.
    Aos poucos, esse "purismo" está sendo ignorado.
    Mas um excesso de interação também não é legal. Existe o melhor caminho, normalmente é o do meio.

  12. Concordo inteiramente com o Fabio Olmos. Artigo lúcido, baseado na experiência e olhando para todos os matizes da conservação. Parabéns, por promover o debate e pela posição corajosa.

  13. Ótima idéia, mas esbarra na precariedade das unidades de conservação do país que amargam uma fase assombrosa em termos de recursos e material humano. Para esse trabalho ser bem desempenhado necessitamos de "monitores" capacitados para educar ambientalmente pessoas para que não saiam alimentando animais em áreas de centros urbanos. Estes centros vêm sofrendo problemas com espécies antrópicas como maritacas, gambás, micos e até mesmo ouriços caixeiros. Trabalho em um CETAS e tem aumentado o número desses animais que entram em conflito com seres humanos, ou seria nós que entramos em conflito com eles? O Rio de Janeiro, no ano passado, em 2016 registrou uma mortandade alta de primatas não humanos vitimados por herpes vírus, que provavelmente entraram em contato com o micro-organismo através do alimento ofertado por alguém apresentando viremia.

  14. Excelente artigo Fábio Olmos. Sem dúvidas os comedouros são uma ótima ferramenta de divulgação, conscientização e consequentemente de conservação da nossa fauna e flora. Concordo que os benefícios superam de longe, os possíveis e pequenos impactos. Se as UC's que permitem visitação, como os Parque Nacionais, adotassem isso, seria ótimo. É uma ótima alternativa para ver espécies que raramente seriam vistas ao acaso no meio da floresta, ou para aquelas pessoas com dificuldade em locomoção, para crianças, etc. Claro que topar com elas no meio da mata, ao acaso, é legal, mas nem sempre é possível, e nessas horas os comedouros tornam-se uma opção de recreação/contemplação a mais nas UC's. Nós humanos precisamos ver, ter tal experiência de contemplação, para conservar.

  15. Desculpe minha ignorância, mas a questão dos comedouros são apenas em UC's proteção integral?
    Ou no caso das RPPN issó também se aplica?
    Gratidão
    Ótimo texto.

    • Essa é uma proibição em todos os planos de manejo de UC, que parecem repeti-la por conta do corta-cola que é padrão dessas coisas.
      Mas não está nem no SNUC nem na Lei de Proteção à Fauna. Acho que proibem porque algum iluminado achou que tem que ser assim e foram copiando

  16. Texto genial! E como se expressou bem o Fábio Olmos, quero conseguir escrever assim quando eu crescer, hehe. Um dos pontos que ele destaca muito são as "desculpas" insistentes para não colocar comedouros nas UCs (que realmente são usadas com frequência), mas acredito que não haver respostas para esses argumentos é um pouco culpa nossa também, como biólogos. Seria relativamente fácil provar por A mais B, com um projeto de pesquisa bem delineado, que o fato de alguns indivíduos visitarem comedouros não altera a dinâmica da frugivoria na floresta (sim, já ouvi esse argumento), ou que a presença de um comedouro atrai muito mais turistas, movimenta mais dinheiro e aumenta a sensibilidade dos visitantes. Porém, infelizmente acredito que não tenha ninguém aqui no Brasil engajado nesse tipo de pesquisa.

  17. Fico meio constrangido em ficar teclando contra muitos que, certamente também tem apreço pela natureza e a querem conservada. Mas como sou leitor e admirador do "OECO" há muitos anos, acho importante mostrar pontos de vistas mais científicos sobre a interação turística com fauna. "Achismo" é bom para trazer discussões a toda, mas não pode ser utilizado para se fazer legislação ambiental, ou criminal, ou educacional.
    O Projeto Golfinho Rotador faz pesquisa sobre interação de fauna no turismo em Fernando de Noronha há 27 anos e nossos resultados, assim como de outras pesquisas (por exemplo: BACH, L.; BURTON, M. Proximity and animal welfare in the context of tourist interactions with habituated dolphins. Journal of Sustainable Tourism, p. 1-17, 2016) indicam que visitantes estão dispostos a abrir mão da proximidade e previsibilidade do encontro com golfinhos em prol do bem-estar desses animais. No processo de conscientização ambiental, relacionar restrições de interação humana com observação da vida natural é construtivo.
    Pesquisas mostram que, em função da quantidade de variáveis e das emoções envolvidas, a percepção dos visitantes sobre os impactos do turismo de observação de cetáceos não são bem compreendidos (FINKLER, W.; HIGHAM, J. The human dimensions of whale watching: An analysis based on viewing platforms. Human Dimensions of Wildlife, v. 9, n. 2, p. 103-117, 2004), talvez porque, ainda não compreendemos para a maioria dos animais, quais são os sinais comportamentais de perturbação (FRID, A.; DILL, L. M. Human-caused disturbance stimuli as a form of predation risk. Conservation Ecology, v. 6, n. 1, p. 11, 2002).
    Uma abordagem interessante sobre o turismo de observação de natureza, é sobre a sequência do filme "Jurassic World". Analise (NEWSOME, D.; HUGHES, M. Jurassic World as a contemporary wildlife tourism theme park allegory. Current Issues in Tourism, p. 1-9, 2016) afirma que estes filmes fornecem "insights" sobre atuais e potenciais futuras atividades turísticas em parques naturais e as expectativas do visitante associado. Destacam-se temas como: necessidade de grande infra-estrutura de apoio e acesso turístico; desejo humano para interagir com animais selvagens por meio de alimentação; observação de animais raros, grandes e perigosos como experiências emocionantes. Nota-se que o desejo de emoção e excitação pode incentivar desconsideração pelo bem-estar dos animais selvagens e pelo ambiente natural.

    • Jose, o perfil de observadores de golfinhos não é necessariamente igual ao dos observadores de aves. Assim como a reação das diferentes espécies de golfinhos e baleias a embarcações e pessoas na água não é igual.
      Vc está absolutamente certo quanto ao risco que as pessoas oferecem aos animais (e vice versa) e esse é o grande cuidado que deve ser tomado. Na verdade é por isso que práticas que eram sancionadas, como alimentar os ursos em Yellowstone, foram eliminadas.
      A questão de comedouros de aves, central ao artigo, e a de oferecer alimento a elas em tours de observação pelágica (imitando o que barcos pesqueiros fazem), é distinta. Há um bom corpo de pesquisa lá fora que é resultado exatamente do tipo de questionamento que vc faz. Para resumir, se você for a UCs em países como USA, UK, Nova Zelândia, etc os comedouros estão lá pq quem as maneja acha que são uma boa coisa.
      Um ponto que acho interessante notar é que enquanto na maioria dos tours de observação de cetáceos há uma busca ativa, comedouros são fixos e as aves é que decidem se virão ou não. Por isso há espécies que não visitam, outras só quando não há pessoas e é comum que o movimento seja bem reduzido em parte do ano porquê há bastante alimento na natureza.

  18. Como discutimos isso, não é Fábio? Acredito que tenha sido o principal malogro do projeto que participou conosco. Abração e venha para essas paragens novamente!

  19. Excelente artigo, Fabio. Mesmo. E não creio que seja "achismo", nem de longe. Como você diz, é claro que "alimentar passarinhos" causa algum impacto, na verdade TUDO causa impacto: construir estradas na UC, fazer pesquisa, caminhar pelas trilhas… A questão não é essa, e sim o fato de que, como fica mais do que claro no texto, a proibição causa mais mal do que bem.

    Me lembra um pouco a questão da reintrodução de espécies ameaçadas. É preciso fazer pesquisas, analisar durante 200 anos, ver todos os impactos, blá blá blá. Enquanto isso, os bichos desaparecem, aguardando que a ciência tenha 1000% de certeza de que "não causará maiores impactos" (sic).

    Está mais do que na hora de fazermos as coisas andarem, não? Olharmos para os exemplos da Nova Zelândia, Inglaterra, Costa Rica, Peru, Equador, etc et etc e avançarmos um pouquinho em direção a um processo (do qual os comedouros fazem parte) de trazer as pessoas para a natureza, criando nelas exatamente a emoção necessária para mudar as coisas.

    Valeu, então. Belíssimo artigo e mais do que fundamental discussão.

  20. CONCORDO plenamente com o Fábio. Sou biólogo-ornitólogo e guia profissional de observação de aves e sei pelos mais de 10 anos nessa área que comedouros e bebedouros de beija-flor não oferecem risco algum às aves!
    Precisamos urgentemente de atrativos nas nossas UCs, como comedouros, torres, mirantes, etc… Quanto mais gente interessada em visitar melhor! São enormes os benefícios de tais atrativos NÃO SÓ PARA AS AVES MAS PARA A CONSERVAÇÃO DAS ÁREAS ONDE ELAS OCORREM!
    Um monte de gente dá opinião neste assunto e nem são profissionais da área. Vamos escutar quem conhece POR FAVOR!

  21. Os tubarões da Africa do Sul não tem qualquer alteração de comportamento quando se joga cabeça de atum ao mar para ele comer e ao mesmo tempo, ser visto pelos turistas mergulhadores. Vimos sua ferocidade ao comer o atum e se afastar em seguida. Não são cevados. Estão no seu habitat, comendo o que estão habituados e ainda causando PQP intenso de cada um que o vê. Melhor que nos aquários. Com pássaros é a mesma coisa!!!!
    Bravo, Fábio !!!

    • Mergulhei lá e achei aqueles tubarões-brancos totalmente domesticados pelos mais de 10 barcos que estavam cevando a água para nos turistas mergulharmos em gaiolas. Pesquisas mostram que, em função da quantidade de variáveis e das emoções envolvidas, a percepção dos visitantes sobre os impactos do turismo de observação de cetáceos não são bem compreendidos, talvez porque, ainda não compreendemos para a maioria dos animais, quais são os sinais comportamentais de perturbação.

  22. Fábio, o que me levou a escrever nesta discussão foram duas frases suas na matéria que discordo totalmente.
    1) "Um dos exemplos de como o Brasil é torto é que em Fernando de Noronha ninguém está autorizado a fazer um shark diving como nas Bahamas, ao mesmo tempo que os mesmos tubarões são mortos no entorno do parque para fazer o famigerado tubalhau".
    2) "O que aconteceria se alguém aqui no Brasil quiser fazer excursões em UCs marinhas como Alcatrazes, Noronha ou Abrolhos para observar aves usando as mesmas práticas que os neozelandeses"?
    Quanto a primeira frase, com o novo Plano de Manejo da APA-FN a pesca de tubarões será proibida nos Arquipélagos de FN e São Pedro e São Paulo. Quanto a comercialização de "tubalhau" em FN nosso amigo José Truda Palazzo esta a frente de uma campanha que temos apoiado. E tenho certeza que não é preciso alimentar tubarões para vê-los em mergulho ou caminhando pela areia das praias de FN. E acredito que possa ser perigo acostumar tubarões a comer artificialmente em um local onde há tanto surfista, mergulhador livre e criança na arrebentação.
    Quanto a segunda frase, caminhando nas trilhas abertas a visitação pública em FN de fácil deslocamento, até para cadeirantes, é fica-se há menos de 50 metros de ninhais de atobas, noivinhas e viuvinhas. Alem de se ver no caminho as aves terrestres como o endêmico sebito. De barco, no passeio normal que 90% dos turistas fazem em FN, observa-se de perto ninhais de atoba e fragata. Não precisa alimentar.
    Não posso deixar dúvidas quanto ao erro que seria alimentar animais em FN.

  23. Artigo excepcionalmente bem escrito e tema relevante para ser discutido.
    O que me parece curioso e que apos inumeras pesquisa e consultas, nao consegui encontrar e talvez nao exista nenhuma lei, codigo, ou portaria que defina que e proibido comedouros em Parques ou atrair aves pelagicas (albatrozes, petreis, etc)para registro e fotos foto usando alimentacao como atrator. Onde , em que codigo, em que lei, em que artigo ou paragrafo isso esta definido? Se nao ha uma lei especifica proibindo isso, entao a proibicao e ilegal ou no minimo e um abudo de poder por parte de quem a estabeleceu!!!
    Sigo no aguardo de resposta!! Em que lei esta definida esta proibicao??? Alguem sabe? Aguardo ansiosamente por resposta !!!!

  24. Mais um capítulo do clássico 'Mito da natureza intocada' x 'mito do bom selvagem'. Uma pena que nossas autarquias estejam repletas de idealistas de ambas as correntes, discípulos de Odum e Levi Strauss engalfinhando-se dos corredores de diretórios acadêmicos aos corredores das autarquias. Uma pena. Os órgãos deveriam oxigenar-se com quem tem experiência de campo e sabe o que é fazer conservação na prática.

    Parabéns pelo texto, grande Fábio!

  25. Não concordo…acredito ser uma prática errada, alimentar em demasia os animais irão torná-los preguiçosos, sem a necessidade de procurar alimentos, há uma variedade muito grande de alimentos que os pássaros comem, alguns comem insetos e ajudam a fazer o controle biológico, um pássaro que se alimenta em um comedouro será que vai sentir necessidade de procurar um inseto? É como nós humanos, acabamos por querer tudo fácil, ao nosso redor, é mais natural e saudável para humanos e animais, que caminhemos em meio a natureza para ver os pássaros, mesmo que por um breve instante, ao invés de querer que eles veem até nós e acabem por se alimentarem de forma errada.

  26. Acho um tema muito interessante, mas complexo. Não pode ser visto como 8 ou 80. Há situações e situações. Acho que UC tem uma função específica, fundamentalmente a de preservação do habitat e das espécies. Não podemos vê-las como um jardim zoológico. Por outro lado acho um exagero não se permitir a colocação de comedouros para aves junto às áreas antropizadas da UC. O impacto maior já foi feito. Não serão os comedouros que impactarão a avifauna (considero aqui um aumento populacional artificialmente obtido também como um impacto negativo). Então os planos de manejo deveriam avaliar melhor isto. Como foi amplamente dito, é uma ótima oportunidade para visitantes da UC, não acostumados como como outros a adentrarem trilhas e muitas vezes até fora delas, para verem as aves, poderem vê-las de uma forma fácil. É um aspecto educativo a ser valorizado. Mas há limites: quantidades de comedouros, quantidade e qualidade de alimentos oferecidos, isto tem que ser avaliado caso a caso. Bebedouro de beija-flor fazer mal para eles é coisa já dita que não tem base científica, a ampla divulgação disto na internet para mim é sem dúvida artifício usado pela indústria daquela fórmula que substitui o açúcar, esta sim que precisa ser melhor avaliada sobre o mal que pode causar a longo prazo aos bf. Quanto a atrair mamíferos, não sei de nada,a princípio acho muito perigoso, pelo risco de contatos com zoonoses.

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