Análises

Para não precisar importar o Pantanal

Que inveja daquela área do Pantanal brasileiro do Zoológico de Zurique, na Suíça, onde os animais seguiam vivos, sem queimaduras, as plantas permaneciam verdes e a viatura da polícia ambiental demonstrava prontidão

Sofia Vámos · Carlos Frederico Duarte Rocha ·
5 de janeiro de 2021
Bem vindo ao Pantanal que não queima. Foto: Sofia Vámos.

Os turistas estavam extasiados ao entrar na área do Pantanal brasileiro. A placa no início do passeio avisava: “Transpantaneira: aqui começa o Pantanal Mato-grossense”. Os adultos vibravam e os olhos das crianças brilhavam ao ver cada animal pantaneiro circular entre a vegetação verde e exuberante. À frente deles passou um tamanduá, antas, algumas capivaras e um mundo de flamingos rosados, todos animais que eles nunca tinham visto na vida. Uma exuberância de vida! Chamou a atenção a placa educativa que advertia: “Não esqueça: é expressamente proibido o uso do fogo nas Unidades de Conservação”. Felizmente não se via fogo em parte alguma dali. Um pouco mais adiante, a presença da viatura da polícia ambiental, tendo na sua caçamba gaiolas, arapucas e armadilhas, transmitia a noção de que ali tudo seguia sendo cuidado e protegido. No interior da pequena base de controle ambiental, os cartazes presos nas paredes traziam informações sobre como aquele bioma era frágil e sensível e alertavam como a ganância por dólares estimulava o tráfico de animais, a segunda maior causa da perda da biodiversidade no mundo, patrocinada por aqueles que compravam fauna silvestre. Naquela área, parecia que tudo funcionava quase que perfeitamente e, por onde transitavam, os turistas se maravilhavam em ver e aprender sobre o Pantanal brasileiro.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o nosso Pantanal ardia, queimando a nossa biodiversidade, de valor incalculável, mesmo para aqueles que só pensam economicamente. Que inveja daquela área do Pantanal brasileiro do Zoológico de Zurique, na Suíça, onde os animais seguiam vivos, sem queimaduras, as plantas permaneciam verdes e a viatura da polícia ambiental demonstrava prontidão. Trata-se de uma área de cerca de um hectare que reproduz uma pequena porção do Pantanal brasileiro, construído ao custo de aproximadamente 11 milhões de dólares, e que mostra aos seus visitantes o valor deste bioma. Aqui, assistimos nosso Pantanal ser destruído com quase nada sendo feito, a não ser pelos esforços incansáveis de civis, ONGs e dos poucos funcionários públicos de nossos órgãos ambientais que lutam no combate aos incêndios e no resgate e tratamento da fauna silvestre ferida e debilitada. 

Placa informa que é proibido o uso do fogo nas Unidades de Conservação. Foto: Sofia Vámos.

Em 2020 assistimos à enorme destruição do que 200 anos atrás começava a ser desvendada: uma boa parte da biodiversidade do Brasil. Entre 1817 e 1820, os naturalistas alemães Carl von Martius e Johann von Spix, em uma das maiores expedições científicas do século XIX, percorreram o Brasil desde o Sudeste até o Centro-Oeste, cruzaram a Caatinga e, depois, a Amazônia de ponta a ponta. Eles  quase morreram em várias ocasiões em busca de desvendar a nossa biodiversidade. Anos após ter concluído essa longa expedição, von Martius elaborou o que seria o primeiro mapa com os biomas brasileiros, e só não incluiu o Pantanal porque não teve oportunidade de transitar por aquelas áreas e, também, porque praticamente inexistia informação sobre este ambiente na época. Hoje conhecemos o Pantanal como nosso sexto bioma, e o nosso mais atual mapa dos biomas mantém, em grande parte, o que von Martius elaborou em seu mapa. 

No século seguinte, o XX, intensificou-se a destruição do que mal conhecíamos de nossos biomas, com grande velocidade e alto nível de agressão, sem sequer dimensionarmos sobre o quanto dependíamos dessa biodiversidade e do equilíbrio dos sistemas naturais. O excelente filme do naturalista britânico David Attenborough, “David Attenborough e nosso planeta”, mostra em pouco mais de uma hora, de forma constrangedora e preocupante, o testemunho do que destruímos no planeta durante 93 anos dos seus de vida. Nos nossos biomas, especialmente no Pantanal, Amazônia e Cerrado, o fogo arde em níveis muito acima da média. Apenas duzentos anos após começarmos a desvendar a biodiversidade dos nossos biomas, assistimos sua destruição em larga escala. As causas são várias, que vão da falta de investimento, de um maior grau de proteção, do mau uso do solo e do desmonte dos sistemas de fiscalização promovidos pelas recentes governanças, até aquelas de mais longo termo, como as mudanças climáticas globais, que trouxeram as incertezas, as imprevisibilidades e a maior frequência dos eventos extremos que se tornaram comuns nesse novo cenário. Os incêndios são apenas uma das várias faces dessas mudanças climáticas. A destruição ambiental não compromete apenas a biodiversidade, mas a própria cadeia produtiva da agricultura e da pecuária. 

Flamingos rosados dentro da área reservada ao Pantanal no Zoológico de Zurique. Foto: Sofia Vámos.
No Pantanal verdadeiro, cenas como essa dominaram o noticiário em 2020. Foto: Iberê Perissé/Projeto Solos.

Precisamos não do abandono das políticas públicas em relação ao meio ambiente, mas, mais do que nunca, do exercício da ampla rede de proteção prevista em nossa constituição. Necessitamos da compreensão por parte das governanças, empresários, agricultores, pecuaristas e de toda a população brasileira, da riqueza inestimável que representa a biodiversidade que o Brasil possui e que qualquer país sonharia em ter. Riqueza que promove o equilíbrio de ecossistemas, riqueza com valor econômico, riqueza da beleza cênica e de formas de vida, e riqueza ética. Afinal, somos apenas uma das milhões de espécies a ocupar esse planeta. Como ocorre em vários de nossos biomas, o Pantanal arde e sua biodiversidade está sendo incinerada. É prioritário e urgente protegermos o Pantanal e demais biomas e sua biodiversidade usando todos os esforços possíveis. Será que, depois de tudo destruído, precisaremos importar o Pantanal do Zoológico de Zurique?

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