Análises

Grandes felinos são animais selvagens e merecem respeito à sua natureza

O exército ajuda a preservação quando acolhe onças-pintadas, mas presta um desserviço perigoso e potencialmente trágico quando desfila com esses animais

Peter G. Crawshaw Jr. ·
24 de junho de 2016 · 5 anos atrás
Onças-pintada ataca repórter enquanto, que é salvo por militares. Felizmente, não houve ferimentos nem o animal foi abatido. Foto: Captura de vídeo YouTube
Onças-pintada ataca repórter enquanto, que é salvo por militares. Felizmente, não houve ferimentos nem o animal foi abatido. Foto: Captura de vídeo YouTube

Tendo em vista o clamor nacional e internacional levantado pela morte da onça Juma por militares, depois da participação da mesma no evento de troca da tocha olímpica em Manaus, me vejo compelido a também expressar a minha opinião sobre os motivos que ocasionaram o sacrifício do animal. O fato de ter passado uma boa parte da minha vida estudando a onça-pintada no Pantanal e em outros biomas no Brasil, e também com alguma experiência em cativeiro, acho que me qualifica a externar minha opinião. Em que pese o fato de o Exército Brasileiro estar contribuindo na preservação dessa espécie ameaçada, através do trabalho que desenvolvem no Comando Militar da Amazônia (CMA), com a manutenção de exemplares encaminhados pelo IBAMA e por outras instituições, provindos de situações irregulares, é também claro que nem sempre são utilizados os métodos mais indicados para a sua manutenção adequada.

Com a justificativa de sua bravura e ferocidade, a espécie é usada como símbolo do CMA, e as onças são expostas como mascotes do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS). Segundo o coronel Luiz Gustavo Evelyn, chefe da 5º Seção de Comunicação Social do CMA, esses mascotes são usados para participar “em formaturas, trocas de comando e visitas de autoridades, e tudo se dá por ser um animal símbolo do CMA, então essa participação é corriqueira e efetiva”. Ainda segundo o coronel, “há um procedimento padrão com a presença de veterinários e tratadores, que prendem a onça por coleiras e correntes, além dos dardos tranquilizantes que são usados em caso de necessidade”.

“…se não houve ainda acidentes mais sérios (pelo menos conhecidos), é um caso de “mais sorte do que juízo” e certamente mais por mérito das onças do que do Homem.”

É justamente aqui que reside o problema. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de experiência com anestesia de onças pintadas ou de qualquer outro grande felino sabe que um anestésico, principalmente quando injetado por meio intramuscular, através de um dardo, levará, forçosamente, de três a quinze minutos para conter o animal, dependendo do anestésico usado. A isso deve-se somar ainda o efeito que o estresse causado pela exposição do animal aos barulhos de uma multidão ou de público em geral possa ter no organismo do animal, ao metabolizar a droga. E, dada a força desproporcional que uma onça-pintada tem, não serão coleiras e correntes que irão segurar um animal assustado e estressado, e o estrago que ele poderá causar, mesmo depois de atingido por um dardo, vai ser considerável, até que o anestésico possa agir, mesmo considerando o intervalo mínimo de três minutos.

Isso fica dolorosamente claro no exemplo citado pelo próprio coronel, no caso de Juma: “…dentro do Zoológico do CIGS, num procedimento corriqueiro, na transferência do animal de um ambiente para o outro, ele (a onça) veio a se evadir. Neste momento estavam presentes dois veterinários e três tratadores, como de costume. Foi feito todo o procedimento protocolar de captura, com a utilização de dardo tranquilizante, mas foi ineficaz. Para preservar a integridade física do veterinário o animal foi detido. Ela avançou no veterinário e aí o animalzinho foi detido [morto]”. Onde julgado “ineficaz”, entenda-se que não havia como, não existe um anestésico que tenha efeito imediato como uma bala de pistola – e então, o “animalzinho” teve que ser sacrificado.

Em uma outra situação envolvendo uma onça do CIGS, um repórter se viu “em palpos de onça”, quando ao fazer uma reportagem, teve que ser resgatado por quatro soldados, que ajudaram a conter o animal, em um recinto telado

Embora de menor gravidade, fica claro que se o animal, por algum motivo, se tivesse tornado agressivo e realmente quisesse machucar o repórter, os soldados de apoio não teriam sido suficientes para contê-lo – e, mais uma vez, ele provavelmente teria que ser sacrificado – não sem ferimentos potencialmente sérios em uma ou mais das pessoas envolvidas. Portanto, pela minha experiência com esses animais – e pela forma de manipulação que vejo na exposição das onças do CIGS em paradas militares e em eventos públicos – minha reação é que se não houve ainda acidentes mais sérios (pelo menos conhecidos), é um caso de “mais sorte do que juízo” e certamente mais por mérito das onças do que do Homem.

Onças pintadas, como qualquer outro grande felino, não são animais domésticos e nunca deveriam ser tratados como tal. Em uma fração de segundos, um animal que sempre teve um comportamento dócil pode se assustar por um motivo banal, e reagir instintivamente, atacando e às vezes ferindo mortalmente uma ou mais pessoas. Em alguns casos, nem mesmo uma bala poderá ser rápida o suficiente para evitar uma tragédia bem maior do que a ocorrida com Juma. E como um dos saldos positivos desse evento, fica ao menos a satisfação de ver a reação popular gerada em defesa da perda tão inútil da vida desse animal. Espero que essa reação se mantenha ativa e tão efetiva no combate às outras formas de mortalidade, como o desmatamento, a caça clandestina, e, principalmente, o conflito com a pecuária, que tem levado a onça-pintada à beira da extinção na Mata Atlântica, no Cerrado, na Caatinga, e mesmo em algumas áreas do Pantanal e Amazônia. Infelizmente, ainda há muitas Jumas morrendo todos os dias…

 
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  • Peter G. Crawshaw Jr.

    Peter G. Crawshaw Jr.

    Formado em Ciências Biológicas em 1977 pela Unisinos, RS, com mestrado e doutorado pela Universidade da Florida. Trabalhou no...

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