Árvores bebem nuvens, líderes devem estar bêbados

terça-feira, 17 março 2015 22:58
Especial: Olhar Naturalista

A Serra da Mantiqueira vista das proximidades do Pico do Capim Amarelo, onde deveria ter sido criado um parque nacional. Nuvens abastecem as florestas nas encostas e nascentes das bacias do Paraíba do Sul e do rio Grande.  A destruição causada pelo fogo e pela pecuária é evidente nas encostas e no vale abaixo. Foto: Fabio Olmos
A Serra da Mantiqueira vista das proximidades do Pico do Capim Amarelo, onde deveria ter sido criado um parque nacional. Nuvens abastecem as florestas nas encostas e nascentes das bacias do Paraíba do Sul e do rio Grande. A destruição causada pelo fogo e pela pecuária é evidente nas encostas e no vale abaixo. Foto: Fabio Olmos

É o óbvio que preferimos ignorar: apesar de 75% da superfície do planeta ser recoberta por água, menos de 3% desse total é água doce e, destes, apenas 0,5% é acessível.

Árvores existem há pelo menos 385 milhões de anos, uma época em que nossos ancestrais ainda eram meio peixes e viviam em brejos rasos. Houve um longo período de inter-relação entre árvores e clima – pense na bomba biológica que retira carbono da atmosfera e o coloca em depósitos de carvão. É tentador pensar na evolução de adaptações para que árvores não apenas sobrevivam ao clima, mas também o manipulem.

Em 19 de julho de 1836, o HMS Beagle ancorou na ilha de Ascension. Um dos passageiros era Charles Darwin e esta foi uma das paradas da reta final de uma viagem ao redor do mundo que mudaria a forma como compreendemos a história da vida.

Darwin explorou por alguns dias a ilha, um bloco de cinza e rochas vulcânicas a 1.600 km da África e uns 2.300 km de Recife. Lá fica Ascension, uma base naval britânica que apoiava as patrulhas contra o tráfico de escravos (atividade em que os brasileiros estavam muito engajados), e que foi descrita como desolada e árida, com poucas plantas “amigas do deserto”.

Em 1843, o botânico Joseph Hooker, membro da expedição antártica do Erebus e Terror, também fez uma escala em Ascension. Amigo de longa data de Darwin, com o qual trocou muitas ideias, em 1847 Hooker propôs um plano de engenharia ambiental para aumentar a disponibilidade de água naquele deserto.

Uma ex-ilha árida

“Desde 1850, décadas de envio de mudas por navio e trabalho duro transformaram o topo de Ascension em uma floresta onde há fontes perenes de água”

Hooker convenceu o Almirantado a plantar diferentes árvores, bambus e arbustos nas partes mais elevadas da ilha. Ali os ventos carregados de umidade vindos do mar colidem com a ilha e sobem a alturas mais frias, o que faz a umidade condensar e formar nevoeiros.

Na ausência de vegetação a água que condensa é rapidamente perdida para a evaporação e escoamento superficial. Com árvores, a água pode se infiltrar no solo. E fontes podem jorrar.

Desde 1850, décadas de envio de mudas por navio e trabalho duro transformaram o topo da Green Mountain (Montanha Verde) de Ascension em uma floresta onde há fontes perenes de água. E onde vivem até mesmo sapos, também introduzidos.

O experimento em Ascension tira proveito do fato de árvores serem superfícies de condensação perfeitas para coletar a água disponível em neblinas e nevoeiros. Na verdade, a forma de algumas espécies deve ter evoluído exatamente para isto.

Estudos mostram que a captura de neblina por árvores pode aumentar a precipitação no solo em 40 a 70%. Isto permite que florestas cresçam em partes do Chile onde praticamente não chove e sustenta as sequoias da Califórnia, cujo porte gigantesco também facilita colher a água que chega com a neblina.

Cristas florestadas

“Boa parte da água que nutre a vegetação é obtida da “precipitação fantasma” colhida pelas árvores – e não registrada por pluviômetros.”

No Brasil temos as “florestas nebulares” que crescem no alto de montanhas como os “brejos” nordestinos – ilhas verdes cercadas de Caatinga –, os tepui do norte da Amazônia, e a Cadeia do Espinhaço entre Minas Gerais e Bahia. Estas florestas e os riachos que brotam delas dependem em maior ou menor grau da umidade coletada diretamente das nuvens e das chuvas resultantes da interação entre massas de ar, relevo e árvores.

Mais próximas do epicentro da atual crise hídrica, serras como a do Mar, da Mantiqueira e de Paranapiacaba têm suas cristas cobertas por florestas que bebem das nuvens. Boa parte da água que nutre a vegetação é obtida da “precipitação fantasma” colhida pelas árvores – e não registrada por pluviômetros.

Esta região abriga cabeceiras de rios como Tietê, Paraíba do Sul, Paranapanema, Grande, etc. Não é preciso pensar muito para perceber o impacto destas florestas serranas naqueles rios.
Como visto em Ascension, as árvores – outras plantas e a fauna que vive no solo – permitem que a água que seria perdida por escoamento e evaporação se infiltre no solo, formando e recarregando os reservatórios subterrâneos que alimentam fontes e nascentes. Esse processo também acontece no Cerrado.

E sempre vale lembrar que árvores têm raízes e estas retém o solo e impedem o assoreamento de rios e reservatórios. Todo mundo sabe disso, mas é impressionante como é ignorado. Uma rápida olhada via Google Earth nas margens da maior parte dos reservatórios brasileiros mostra isso.

Árvores bombadas

A transpiração das árvores se condensa na copa da floresta em Alta Floresta (MT). Foto: Fabio Olmos
A transpiração das árvores se condensa na copa da floresta em Alta Floresta (MT). Foto: Fabio Olmos

“Plantas produzem compostos orgânicos voláteis que são liberados na atmosfera. É bem conhecido que estes são núcleos de formação de gotas de chuva no ar limpo”

Há outras formas das árvores fabricarem água além da simples interação da sua arquitetura com nuvens, gotas de chuva e solos.

Plantas produzem compostos orgânicos voláteis que são liberados na atmosfera. É bem conhecido que estes são núcleos de formação de gotas de chuva no ar limpo, mas carregado de umidade, que sopra do mar para o interior da Amazônia. As árvores, literalmente, semeiam a chuva que colhem.

Plantas também transpiram. De fato, árvores de grande porte são poderosas bombas que lançam água na baixa atmosfera e 80-90% da umidade sobre os continentes é resultado da transpiração das plantas. No planeta, a quantidade de água lançada na atmosfera necessária para isso é da ordem de dezenas de milhares de quilômetros cúbicos, combinada com a energia solar de muitos e muitos terawatts.

Pouco reconhecido em modelos climáticos, isso tem várias consequências.

Aterrisagem dos rios voadores

“Florestas como a amazônica, congolesa e siberiana “sugam” massas de ar carregadas de umidade para o interior do continente”

Imagine uma floresta que transpira quilômetros cúbicos de água que cai como chuva apenas para ser lançada de novo na atmosfera. Então, adicione ventos que sopram para o interior. O resultado é uma correia transportadora de água que, mostram as pesquisas, leva pelo menos o dobro de umidade para o interior do que veríamos se os ventos soprassem sobre áreas sem florestas. Aqui na América do Sul o resultado são rios voadores, que transportam quilômetros cúbicos para o interior do continente e são responsáveis por parte da chuva no sul-sudeste do Brasil e Cone Sul.
Retire as árvores e os rios voadores não decolam. Ou desaguam no lugar errado.

De onde vêm os ventos que trazem o ar carregado de umidade? Uma pista é que a umidade atmosférica sobre aquelas florestas é alta mesmo em áreas distantes do litoral, enquanto áreas desmatadas têm menos umidade conforme mais distantes do oceano.

Este paradoxo sugere um papel ativo das árvores em trazer a umidade para o interior e que a transpiração não é apenas uma reação das árvores à necessidade de realizar fotossíntese. Ela também é uma ferramenta de manipulação do clima através da chamada “bomba biológica de umidade atmosférica”.

A transpiração das árvores reduz a pressão atmosférica local e afeta o padrão dos ventos. O resultado é que florestas como a amazônica, congolesa e siberiana “sugam” massas de ar carregadas de umidade para o interior do continente, enquanto geram e estabilizam os ventos que trazem as chuvas. Destruir as florestas próximas à costa – o primeiro elo na correia transportadora – pode causar secas no interior.

O aumento da transpiração das grandes árvores (que bombeiam água de reservatórios subterrâneos) durante as secas apoia o conceito da interação ativa entre árvores e clima. Isso é exatamente o contrário do esperado, e uma indicação de que as árvores estão suando vapor para colher chuvas.

Os atentos à matéria notarão que percorri o mesmo caminho aberto por Antonio Nobre, pesquisador do INPA, que detalha melhor o que tentei explicar.

Seca de água

“A perda de florestas parece estar associada a chuvas decrescentes e pior distribuídas. Não é só a cidade de São Paulo que há muito não tem garoas”

Meu ponto é que embora muito tenha se falado sobre as chuvas e a Amazônia, não se pensa muito na relação entre o clima e nosso outro grande bloco de florestas, a Mata Atlântica e a Floresta com Araucária, que ocupava o litoral e praticamente todo o sul de Goiás, o interior de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul.

Ali existiam florestas com árvores gigantescas como jequitibás e perobas-rosa que nada deixavam a desejar com relação a suas parentes amazônicas. E que certamente deveriam ser um elo na cadeia transportadora de umidade vinda do norte do continente.

A causa principal da falta de chuvas que compromete cidades e hidrelétricas nos estados de Goiás, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo é a formação de uma zona de alta pressão que forma uma redoma de ar seco. Essa zona de alta pressão desvia as frentes frias vindas da Antártica e os rios voadores e massas de ar carregados de umidade vindos da Amazônia e do Atlântico.

Será que um dos problemas não é a falta de florestas que baixariam a pressão atmosférica e semeariam nuvens para trazer as chuvas?

A perda de florestas parece estar associada a chuvas decrescentes e pior distribuídas. Não é só a cidade de São Paulo que há muito não tem garoas (e a precipitação fantasma associada).

Trocamos árvores por asfalto e concreto, pastagens e eucaliptos e elegemos administrações que acham que áreas verdes servem para populismo barato.

Campinas costumava estar no cinturão de florestas de jequitibás que cresciam sobre terra roxa. Ela e outras mostram uma nítida tendência de diminuição nas precipitações.

Não são só as mudanças climáticas, para as quais o Brasil colaborou muito queimando suas florestas. A perda de mecanismos de feedback entre o clima e as florestas provavelmente tem seu papel em tendências como a redução de chuvas e no aumento da frequência de eventos extremos.

Velhos e “novos” líderes

“A tradição consagrada de proteger florestas para ter água se perdeu e os iluminados que decidem nosso futuro hídrico parecem obcecados com soluções que envolvem mais concreto, canos, bombas e barragens.”

A relação entre árvores e abastecimento de água é uma notícia velha. Imperadores moguls e chineses já proibiam o corte de florestas para preservar fontes de água e, hoje, cidades como Quito, Caracas e Nova Iorque garantem a segurança e qualidade de seus mananciais de abastecimento protegendo-os com unidades de conservação ou acordos com proprietários privados que tem o mesmo efeito prático.

Isso não só garante água limpa, mas também reduz em muito os custos com o tratamento, coisa importante para gestores responsáveis, incluindo os que desejam lucro. Mas mero detalhe quando a gestão é política. Afinal, por aqui gerações de prefeitos e governadores permitiram a ocupação de mananciais em troca de votos.

Quando o Rio de Janeiro imperial se viu às voltas com uma crise de abastecimento, D. Pedro II ordenou um projeto de restauração ambiental que produziu a Floresta da Tijuca. Aqui em São Paulo uma das áreas protegidas mais antigas é o Parque Estadual da Cantareira, originalmente conservado por ser um manancial de abastecimento. E o Parque Nacional de Brasília foi criado para conservar a primeira captação de água da cidade.

Até a Sabesp, de triste figura nesta história toda, antigamente tinha a política de proteger o entorno de reservatórios como os de Morro Grande e Ribeirão Grande, até hoje cercados de florestas, ao contrário de seus irmãos mais novos.

Itaipu, para reduzir o assoreamento de seu reservatório, tem um dos maiores programas de reflorestamento do mundo. Outras empresas como Furnas, CESP e CHESF também têm programas similares, mas o Google Earth não deixa mentir, elas estão longe de atingir um mínimo necessário. O tal “programa de recuperação” do São Francisco que o diga.

Infelizmente, a tradição consagrada de proteger florestas para ter água se perdeu e os iluminados que decidem nosso futuro hídrico parecem obcecados com soluções que envolvem mais concreto, canos, bombas e barragens. E só. Além de não ser garantia de sucesso porquê o cobertor da disponibilidade hídrica é curto, esta abordagem é limitada.

Canos não bastam. Podemos manipular os ecossistemas onde estão as bacias das quais dependem as grandes regiões metropolitanas brasileiras para aumentar nossa segurança hídrica. Podemos construir bombas biológicas, semeadores naturais de nuvens, captadores d água de neblina, infiltradores de água no solo, redutores de evaporação, amortecedores climáticos. Podemos usar ferramentas de verdadeira engenharia ambiental: é uma questão de plantar árvores.

Degradação vista de cima

“Bacias importantíssimas, como a dos formadores do Paraíba do Sul e do sistema Cantareira foram desmatadas de forma irresponsável e nas barbas de governos omissos”

Qualquer um que já voou do Rio para São Paulo ou de lá para Belo Horizonte percebeu uma região enorme coberta em boa parte por pastagens ridículas e áreas degradadas. No Vale do Paraíba e nas vertentes das serras do Mar, Mantiqueira e Espinhaço, em áreas muito destruídas, estão as cabeceiras e afluentes de alguns dos rios economicamente mais importantes do Brasil.

Bacias importantíssimas, como a dos formadores do Paraíba do Sul (olá amigos fluminenses) e do sistema Cantareira foram desmatadas de forma irresponsável e nas barbas de governos omissos. Comitês de bacias não foram eficientes (estou sendo gentil) para evitar a perda de florestas e para recuperá-las em extensão que faça diferença. Percorrer o Paraíba do Sul entre São Paulo e o Rio de Janeiro é a prova cabal.

A equação é simples. Devemos pesar se os benefícios de manter as coisas como estão, premiando quem destruiu o que não deveria, suplantam os riscos de deixar as maiores populações e economias do país sem água.

Seca de líderes

“O brasileiro tem dificuldades em aceitar a realidade mesmo quando ela dá uma bofetada na sua cara.”

Já passou da hora de iniciarmos um projeto de restauração florestal em larga escala para transformar pastos, sapezais e plantações do Vale do Paraíba, Mantiqueira e Serra do Mar – e além – em florestas de verdade, com árvores de grande porte. É preciso reconstruir o que foi perdido para o ciclo do café, para o ciclo do gado, para abastecer a Companhia Siderúrgica Nacional e guseiras mineiras com carvão e, ironia, para a construção de reservatórios e ocupação de suas margens.

Para algumas bacias já sabemos o que fazer e quanto custa e há projetos iniciados. Mas ainda é pouco e desalentador ver como em São Paulo se fala mais em obras discutíveis do ponto de vista econômico e de engenharia do que em plantar chuva. Digo, árvores. Apesar de São Paulo dispor de alguns dos melhores grupos de pesquisa em restauração florestal.

A gestão da água e, por consequência, da energia, precisa mudar. O brasileiro tem dificuldades em aceitar a realidade mesmo quando ela dá uma bofetada na sua cara. Como o famoso corno apaixonado, continuamos ignorando o óbvio. Temos um desperdício inaceitável durante a distribuição, o reuso ainda é incipiente e há o freio de mão puxado quando se trata de despoluir rios e reservatórios usados como latrina por uma espécie que parece ter prazer em beber suas próprias fezes.

As demonstrações de ignorância desinibida durante a discussão do Código Florestal e, aqui em São Paulo, na votação da Lei do Desmatamento, mostram que para políticos e uma banda do agronegócio o problema não importa, nem se inviabilizar seus negócios. Os velhos hábitos falam mais alto.

Para isso, e o que me preocupa em uma situação de conflito de interesses, é preciso haver habilidade política e bom senso. Não adianta ter um coração valente e ser uma porta trancada. Também não adianta ter uma mente privilegiada e a bravura de um legume. Menos ainda ser O Cara quando seu legado é uma cleptocracia que afundou a economia e rachou o país.

A guerra civil na Síria é o resultado da crise climática caindo sobre um regime político não representativo e inepto somado a uma população jovem sem perspectivas em meio a uma crise econômica.

Um país com democracia forte e economia saudável cuida bem dos seus recursos essenciais; água e democracia são importantes.

 

*matéria editada em 18/03/15

 

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3 comentários em “Árvores bebem nuvens, líderes devem estar bêbados”

  1. Excelente artigo. Não sou brasileiro, mas não deixo de encontrar paralelo com a realidade do meu país; a dependência do sul da Ilha da Madeira da floresta da Laurissilva, o papel da mata do Buçaco e Luso na manutenção de importantes termas e marcas de água, ou o perda da nossa floresta com maior secura e incêndios florestais.
    Estamos longe de ter uma gestão florestal ideal, pelo contrário, muitos errs foram cometidos fruto de políticas que visaram puramente a economia e negligenciaram impactos ambientais e sociais. Recentemente, o governo limitou o cultivo de eucalipto, passou a ser possível em locais onde já existiam no interior do país a substituição de plantações antigas por outras espécies.
    Veremos se vamos a tempo de atenuar o previsto para este pequeno rectãngulo na Europa.

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