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Filho de Kátia Abreu quer “reflorestar” o Cerrado

Multado por desmatar APP, o candidato eleito a deputado federal Irajá Abreu (DEM) será braço direito da senadora e presidente do CNA.

Leilane Marinho ·
15 de novembro de 2010 · 15 anos atrás

Palmas – No telão, cenas mostram plantações de eucalipto a perder de vista, motosserras cortando árvores, centenas de madeiras derrubadas e uma fabricação acelerada de carvão. A produção cinematográfica acompanhou o Hino Nacional, entoada por mais de 500 pessoas entre empresários, investidores, produtores rurais e políticos na abertura do 1º Congresso Florestal do Tocantins, realizado em Palmas, nos dias 9 e 10.

O clipe arrancou aplausos da platéia e só foi abafado com a subida ao palco da senadora Kátia Abreu (DEM), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que conforme previa a programação, ministraria a palestra “magna” sobre o Novo Código Florestal.

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Floresta no Cerrado

Segundo informações da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Tocantins (Seagro) a silvicultura no estado está em crescente expansão. Em 2008 foram plantados 36,6 mil hectares de “reflorestamento”, expandindo para 49,6 mil hectares plantados em 2009. A expectativa é ultrapassar 208 mil hectares em 2011. O eucalipto, a teca, o neem, a seringueira e o pinus são as principais espécies cultivadas.
Área plantada         Hectares
2006                        16.656,00
2007                        25.994,60
2008                        36.590,10
2009                        49.583,60
2011 (projeção)    208.536,00

O convite para falar sobre a mudança na legislação ambiental veio de casa. Seu filho, Irajá Silvestre (DEM) – que agora responde pelo sobrenome Abreu após ganhar na justiça eleitoral o direito de usa-lo – é o vice-presidente da recém criada Associação dos Reflorestadores do Tocantins (Aretins), que promoveu o congresso.

Seguindo os passos da mãe, na solenidade de criação da Aretins Irajá entregou ao coordenador da equipe de transição do governo estadual, Eduardo Siqueira Campos (PSDB), uma relação de reivindicações ao governador eleito, Siqueira Campos (PSDB). No documento ele pede “a desburocratização das licenças ambientais hoje concedidas pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins)”. Eduardo garantiu ao vice-presidente que “faria de tudo para atender as solicitações da associação”.

Devedor

Poucas horas depois da abertura do congresso, uma nota de repúdio do Naturatins rebateu as críticas: “a insistência do Dep. Irajá em dizer que o órgão é burocrático, atrapalha o produtor rural e não libera as licenças é por que ele esta se referindo a licença ambiental da propriedade dele, no município de Aliança e de Ponte Alta do Tocantins, na qual o mesmo foi multado por derramar resíduos tóxicos que contaminam o solo e desmatar em Áreas de Proteção Permanente (APP)”.

Segundo a mesma nota, em vistoria realizada pelo Naturatins nas terras do futuro deputado federal, descobriu-se que Irajá tentou esconder a derrubada de árvores imunes de corte, como pés de pequi e de buriti. Para tentar burlar a lei, cavou valas no solo e enterrou a madeira cortada. “Esta presidência faz apenas o que a lei manda e pode ser filho de quem for. Neste caso, o Naturatins autuou e embargou a propriedade com multa no valor superior a R$ 60.000,00 a qual não foi paga ainda”, finalizava a nota redigida pelo presidente Stalin Bucar.

Tal mãe, tal filho


Irajá com a mãe, Karia Abreu. Totalmente a favor de mudanças no código florestal (fotos: Leilane Marinhho)
Irajá com a mãe, Karia Abreu. Totalmente a favor de mudanças no código florestal (fotos: Leilane Marinhho)

Nome desconhecido no meio político até agosto deste ano, Irajá Abreu – 27 anos, publicitário – foi praticamente “empurrado” na calada da noite para a vida pública, conforme declarações dos irmãos partidários que sentiram a candidatura do filho da Kátia Abreu como um “banho de água fria”.

Isso porque o registro de sua candidatura aconteceu praticamente debaixo dos panos dentro do próprio partido. O nome foi levado adiante com a desculpa de que pretendia cumprir apenas uma “formalidade”, caso houvesse alguma desistência Irajá seria um “tapa buraco”.

De “candidato de prontidão”, Irajá entrou oficialmente no pleito derrubando a candidatura do deputado federal Júnior Marzola. Nome atuante na vida pública e conhecido em todo o estado, Marzola saiu das eleições após sentir-se constrangido com a imposição da senadora.

Mesmo com o descontentamento de alguns, Irajá entrou com a força da mãe na disputa e se elegeu a deputado federal com mais de 39 mil votos. Se a votação do Novo Código Florestal ficar para 2011, o filho da Kátia Abreu já tem o seu voto: “Sou totalmente a favor da atualização”.

“Isso é maluquice”

A representante da bancada ruralista no Senado defendeu a votação ainda este ano do projeto de lei do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e declarou que “dizer que os cientistas são contra o Novo Código Florestal é maluquice”. “Todos os projetos da CNA são apoiados pelos cientistas da Embrapa. Não existe cientista no Brasil que não apóia o Novo Código Florestal”, declarou Kátia Abreu.

Defendendo a mudança urgente da lei ambiental, a senadora argumentou que o “código não é uma bíblia que não pode ser atualizada” e que a nova lei irá regulamentar a produção de alimentos do País, transformando-o na “grande fazenda do Mundo”. “Enquanto a China é a grande indústria do mundo, enquanto Índia é o grande serviço do mundo, o Brasil é a grande fazenda produtiva: produz alimento, produz energia e produz papel e celulose. Nós temos que nos orgulhar disso”.

“Fundamentalismo” atrapalhou Dilma

Kátia Abreu disse ainda, que o mapa das eleições deste ano demonstra a insatisfação dos produtores rurais com o atual governo, que financia a insegurança no setor através do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ela lembrou que a presidenta eleita sabe o que sofreu com o radicalismo e o “fundamentalismo ideológico” quando esteve à frente do Ministério de Minas e energia e Casa Civil. “Ela sabe o quanto é importante resolvermos as pendências legais pelo que passou quando queria construir hidrelétricas ou dar vazão ás obras do PAC”, completou.

Vídeo – Discurso de Kátia Abreu 

*Leilane Marinho é repórter em Palmas

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