Notícias

Império Maia entrou em colapso por causa do clima

Estudo publicado na Science reúne evidências de que longo período de secas derrotou civilização que se estendeu do México à América Central.

Vandré Fonseca ·
12 de novembro de 2012 · 13 anos atrás

O cruzamento de registros  com dados obtidos em cavernas permitiu reconstruir a história do impacto climático sobre os Maias. Ilustração Claire Ebert/ Penn State
O cruzamento de registros com dados obtidos em cavernas permitiu reconstruir a história do impacto climático sobre os Maias. Ilustração Claire Ebert/ Penn State

Já se suspeitava há décadas da relação entre clima e fim da civilização Maia, mas a questão ainda era motivo de controvérsias. Agora, uma equipe multicisciplinar de cientistas pôde descrever com precisão a relação entre o desenvolvimento e declínio dos maias e as mudanças climáticas ocorridas ao longo de 2 mil anos. Para chegar ao resultado, os pesquisadores compararam dados obtidos em estalagmites encontradas em uma caverna no Belize, a poucos quilômetros da grande cidade maia de Uxbenla, com registros deixados pelos pré-colombianos. Os resultados foram publicados na edição desta sexta-feira (9 de novembro ) da revista Science.

De acordo com o estudo, períodos de alta quantidade e aumento de chuvas coincidem com o crescimento da população e desenvolvimento dos centros políticos, entre os anos 300 e 600. “De maneira incomum, grandes quantidades de chuva favoreceram a produção de alimentos e uma explosão na população entre os anos de 450 e 660”, diz professor de Antropologia na Universidade Estadual da Pensilvânia, EUA, Douglas Kennett, líder da pesquisa. “Isto levou a proliferação de cidades como Tikal, Copan e Caracol nas terras baixas Maias.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Cidade Maia de Caracol, no Belize. Foto: Douglas Kennett/Penn State
Cidade Maia de Caracol, no Belize. Foto: Douglas Kennett/Penn State

O período favorável foi seguido por uma tendência de seca a partir de 660 D.C., que culminou em secas ainda mais graves, as quais reduziram a produtividade agrícola e contribuíram para a fragmentação da sociedade e o seu colapso político. A fase de seca mais severa deve ter sido entre 1020 e 1100 DC, após o colapso se espalhar pelos estados centrais Maias.

Para Kennett, “Mudanças abruptas [do clima] são apenas uma parte da história. As condições precedentes estimularam a complexidade social e a expansão populacional. Posteriormente, ajudaram a chegar a um estágido de estresse na sociedade e fragmentação das institutições políticas”.

Os Maias deixaram em monumentos datas importantes, como nascimentos, mortes e ascenções de líderes políticos. Eles fazem menção também a secas e tempestadas,  ou ao sucesso e fracasso nas colheitas. Estes registros esculpidos rarearam após o colapso.

Cavernas de Yok Balum, Belize. Dados obtidos a partir da análise de estalagmites serviram para reconstituir o clima.
Cavernas de Yok Balum, Belize. Dados obtidos a partir da análise de estalagmites serviram para reconstituir o clima.

“Aqui nós temos uma maravilhosa sociedade estratificada que pôde criar calendários, arte, uma arquitetura magnífica e se engajou no comércio através da América Central”, diz o antropólogo Bruce Winterhalder, co-autor do estudo e professor de antropologia da Universidade da Califórnia. “Existiam artesãos inacreditáveis, proficiência em agricultura, homens de estado e militares — e num intervalo de 80 anos, isto foi completamente desintegrado”.

Para Winterhalder, o colapso dos Maias é uma advertência sobre a fragilidade das institutições políticas atuais. “Suspeito que antes do rápido declínio e desaparecimento, suas elites políticas estavam bastante confiantes sobre suas conquistas. “Será que não estamos seguindo o mesmo e perigoso caminho?”

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
9 de abril de 2026

ATL: Indígenas tomam as ruas de Brasília pedido demarcação

Segunda marcha do Acampamento Terra Livre 2026 reuniu povos indígenas de todo o país nesta quinta-feira (09); Veja fotos

Colunas
9 de abril de 2026

O capitão Kirk e o papagaio engaiolado

A morte do cão Orelha causou indignação nacional. Estamos maduros para falar da morte e cativeiro de milhares de papagaios e outros bichos?

Salada Verde
9 de abril de 2026

Povos indígenas propõem plano global para eliminação dos combustíveis fósseis durante ATL

Documento apresentado durante mobilização em Brasília propõe zonas livres de exploração e coloca territórios tradicionais no centro da estratégia climática global

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.