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Amazônia: Alteração de UCs pode deslocar garimpos

ICMBio aponta que garimpeiros poderão invadir áreas preservadas caso os seus atuais campos sejam alagados para dar lugar às hidrelétricas.

Daniele Bragança ·
11 de setembro de 2012 · 13 anos atrás
Foto aérea de garimpo na Floresta Nacional de Itaituba II. (Foto: ICMBio)
Foto aérea de garimpo na Floresta Nacional de Itaituba II. (Foto: ICMBio)

Em um relatório interno de 21 de agosto, ao qual ((o))eco teve acesso, o ICMBio alerta que as recentes mudanças feitas nos limites de Unidades de Conservação na Amazônia, para permitir a construção do complexo hidrelétrico de Tapajós, podem ter um efeito colateral: levar o garimpo da região a avançar sobre áreas ainda preservadas da floresta.

Em janeiro, para viabilizar as usinas do Tapajós, o governo alterou por medida provisória (mais tarde aprovada pelo Congresso) os limites de 5 UCs na região. Dentro dos antigos limites de 3 delas, o relatório do ICMBio analisa que serão alagadas dezenas de áreas tomadas pelo garimpo: a Floresta Nacional Itaituba I, com 16 garimpos de médio e pequeno porte;  a Floresta Nacional Itaituba II, com 5 garimpos; e a APA Tapajós, com 37. No total, 58 garimpos serão alagados.

O temor é que esses garimpos migrem para áreas bem conservadas. Diz o documento:

“(…) novas invasões poderão ocorrer nas Unidades de Conservação próximas. O que pode comprometer não apenas a integridade da biodiversidade, mas todo um trabalho de preservação desenvolvido há anos”.
 

Há ainda um outro complicador: a disparada do preço do ouro. A exploração do ouro ganhou força com a subida do preço da onça – medida igual a 31,10 gramas) de 445 para 1.643 dólares, um aumento de 3,6 vezes desde 2005. Em conjunto com o deslocamento dos garimpos inundados, isso pode multiplicar o problema. “Se houver uma explosão de garimpos, o ICMBio sozinho não tem como controlar a invasão de Unidades de Conservação ainda livres de mineração, como a Parque Nacional da Amazônia”, afirma Leonardo Messias, coordenador de fiscalização do Instituto Chico Mendes.

O Parque Nacional da Amazônia parece um alvo fácil para invasões. Ele ainda não tem histórico de garimpo dentro de seus limites, mas só conta com dois servidores do ICMBio na administração local.

Balsa utilizada na mineração, atracada no rio Tapajós. (Foto: ICMBio)
Balsa utilizada na mineração, atracada no rio Tapajós. (Foto: ICMBio)

A mineração por garimpo é a principal força econômica da região. No município de Itaituba, a mineração existe desde a década de 50 e responde, hoje, por 60% do PIB local. Até o secretário de meio ambiente do município é garimpeiro.

O relatório do ICMBio afirma que  existem na região 3 mil garimpos, entre licenciados e ilegais.

No ano de 2011, apenas em Itaituba/PA, foram extraídos 171,32 toneladas de ouro, com valor acumulado de R$113.022.699,87. Ainda no ano passado, o total de títulos de lavra de ouro em Itaituba e Jacareacanga junto ao DNPM, somaram 465 solicitações.
 
Também aponta para a chegada de mais garimpeiros à  região:
 
No norte do Mato Grosso e em Porto Velho já comentam sobre a quantidade de minerais que estão extraindo ali [no rio Tapajós]. Uma das denúncias remete há uma migração de famílias vindas do Mato Grosso para se estabelecerem no garimpo que hoje abriga 400 garimpeiros, aumentando esse número a cada dia.
 
Finalmente, o relatório também conclui que o provável aumento do garimpo assoreará o rio e prejudicará as próprias usinas hidrelétrícas:
 
“O aporte de sedimentos [causado pelos garimpos] em um rio principal cuja bacia existam três mil garimpos é algo a ter uma atenção considerada (…) a longo prazo pode comprometer não apenas as UHEs pela perda de volume de água na bacia de drenagem, mas principalmente aspectos hidrológicos, hidroquímicos e hidrobiológicos do meio”.
 

O Complexo Hidrelétrico do Tapajós ainda está no seu estágio inicial. Os estudos de impacto ambiental da usina São Luiz do Tapajós − a maior do complexo, cujo lago ocupará uma área de 722 km² − 43% maior que o reservatório de Belo Monte — e da usina hidrelétrica de Jatobá deverão terminar em 2013. Essas duas usinas são prioritárias para o Programa de Aceleração do Crescimento. Segundo o Plano Decenal de Energia, a previsão é que as duas usinas já estejam prontas em 2016.

 
  • Daniele Bragança

    Repórter e editora do site ((o))eco, especializada na cobertura de legislação e política ambiental.

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