| Conservação atolada na estrada |
| Andreia Fanzeres | ||||
| 04/09/2008, 16:03 | ||||
![]() Quem ainda duvida que a retirada da floresta pode transformar parte da Amazônia num areião precisa conhecer a estrada Vilhena-Juína, que liga o sul de Rondônia ao noroeste de Mato Grosso. Mas nem adianta pensar num passeio de ônibus. Desde o ano passado, eles pararam de circular por este trecho da BR-174 de apenas 240 quilômetros. Para evitar os atoleiros, acham melhor fazer um desvio de mais de 500 quilômetros para chegar ao destino em cerca de 12 horas. A solução é partir em veículos 4x4, mesmo assim equipados com ferramentas para desatolagem. Em caso de imprevistos é muito improvável que algum outro carro cruze com você, faça sol ou faça chuva. No início do mês de agosto O Eco encarou este programa, mas para não colocar ninguém em risco, só foi até a metade do caminho. As empresas e os veículos de passeio desistiram de circular por esta estrada simplesmente porque não conseguem mais passar. A areia é tão fina e fofa que encrava a maioria dos automóveis que tentam superá-la. Os ônibus costumavam levantar os chassis o quanto podiam para evitar os atoleiros, mas não raro obrigavam os passageiros a sair duas ou três vezes por viagem para ajudar a desatolar o veículo, numa penosa travessia que superava 10 horas. Mas nem sempre foi assim. Antigos moradores de Juína dizem que nos anos 80 um carro baixo atravessava o percurso, que nunca recebeu asfalto, em três ou quatro horas. Hoje, em muitos trechos, a estrada é uma picada.
Quando foi aberta, as árvores amazônicas escondiam um terreno frágil e extremamente arenoso, intransitável após três décadas sem manutenção. Quando, em 2005, o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT) resolveu autorizar obras de recuperação da estrada, elas não duraram dois anos. Em dezembro do ano passado, o Tribunal de Contas da União (TCU) mandou suspender o repasse de recursos através da prefeitura de Juína por indícios de superfaturamento de 2,9 milhões de reais. Além de irregularidades contratuais, suspeita-se que a empreiteira estivesse retirando cascalho de forma ilegal nas imediações da unidade de conservação federal. Com a interrupção das obras, boa parte da areia que havia sido revolvida para a reforma da estrada foi carreada para dentro de rios e córregos que formam a bacia do Aripuanã, assoreando leitos e buritizais. Há trechos da estrada em que a areia está tão espalhada que os poucos veículos que tentam passar foram obrigados a abrir desvios em fazendas ou dentro da floresta. Em algumas partes, o leito original simplesmente não existe mais, foi totalmente erodido.
Impactos das rodovias Por mais que as falhas na execução e na continuidade das obras causem prejuízos como os que se vêem na estrada Vilhena-Juína, eles não se comparam aos danos que a construção da estrada em si traz ao ambiente. E apesar dos incentivos para a construção das vias na ditadura militar, o governo subestima esses impactos. Conforme uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente na Amazônia (IMAZON), a Amazônia brasileira tem cerca de 95 mil quilômetros de estradas abertas clandestinamente, uma malha viária dez vezes maior do que a legalizada. “Os colonos se instalam ao longo das BRs, desmatam, tocam fogo e às vezes não sobra nem madeira para ser extraída. Neste ano, por exemplo, a maioria dos focos de calor migrou para o trecho da BR-364, a partir de Sena Madureira (AC), onde o governo estadual concentrou as empreiteiras para enfrentar um dos trechos de solo mais complicados da rodovia", conta o jornalista acreano Altino Machado, que conhece as estradas do Acre como a palma da mão. Assim, por falta de planejamento e manutenção, o objetivo de interligar cidades na Amazônia fica perdido. “A BR-364, de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, só opera três meses no ano”. “Tem um trecho da BR-163 chamado Caracol, que fica entre Moraes de Almeida e Trairão, no Pará. Na época da chuva fica abaixo do nível do rio Jamanxim. É um atoleiro só”, conta Nilo D’Ávila, consultor do Instituto Socioambiental (ISA). E por aí vão incontáveis relatos de quem um dia já tentou percorrer as estradas da Amazônia.
Veja mais: Caminhos da devastação – Manoel Francisco Brito e Andreia Fanzeres Pesquisa feita pelo Imazon descobre mais de 95 mil quilômetros de estradas clandestinas em região da Amazônia onde a malha viária oficial é quase dez vezes menor.
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