
A história da ocupação da Mata Atlântica nordestina, em especial nos estados de Pernambuco e Alagoas, começa na sua colonização no século XVI e se estende até os dias atuais. A prática do desmatamento para dar lugar a plantações de cana-de-açúcar é antiga na região, contemporânea à da caça de animais silvestres de maior porte. A partir da década de 70, um novo ciclo de desmatamento – até então estagnado – surge, desta vez mais intenso e veloz, incentivado pelo advento do programa Proálcool: fragmentos de floresta de tabuleiro e o planalto adjacente foram dizimados, eliminando enormes porções de floresta à revelia do Código Florestal Brasileiro e sem qualquer intervenção dos órgãos do governo responsáveis pela proteção dos recursos naturais.
Muitas foram as espécies prejudicadas, dentre elas, o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), também conhecido como mutum-de-alagoas. Um dia a maior ave terrestre da Mata Atlântica nordestina, ocupando grandes territórios de floresta virgem de baixas densidades. Apreciado como peça de caça, foi dizimado junto com a floresta onde vivia. Hoje encontra-se extinto na natureza.
A espécie foi descrita pela primeira vez no século XVII pelo naturalista alemão George Marcgraf e redescoberta em 1951 pelo ornitólogo Olivério Pinto. O mutum-do-nordeste possui aproximadamente 90 cm de comprimento e apresenta uma plumagem uniformemente negra com reflexos azulados. As penas da região ventral e da parte inferior da cauda são marrons. As penas da cauda são também negras, com o seu ápice branco-sujo ou amarronzado e o bico é bicolor, vermelho na base e tornando-se róseo-esbranquiçado em direção à ponta.
O Pauxi mitu é uma ave terrícola que se alimenta de frutos caídos no solo. Em cativeiro, as fêmeas realizam duas posturas por ano, sendo a primeira nos meses de agosto/setembro e a segunda em janeiro/fevereiro. Em média, dois ovos são postos em cada ocasião. A incubação dura cerca de 29 dias.
A espécie sobrevive atualmente em cativeiro, com cerca de 121 espécimes. Graças a um trabalho de reprodução e conservação desenvolvido pela zoobotânica Mário Nardelli, no Rio de Janeiro, o número de indivíduos da espécie, que estava à beira da total extinção com apenas 12, passou para 44. Em 1999, o criatório de Nardelli fechou por dificuldades financeiras e 24 de seus exemplares foram enviados, com a autorização do Ibama, à Crax – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, em Contagem, e ao Criadouro Científico e Cultural Poços de Caldas, em Poços de Caldas, ambos em Minas Gerais.
Os esforços das organizações acima foram responsáveis pela perpetuação da espécie. Hoje, a chance de evitar a definitiva extinção é através da reprodução em cativeiro e a reintrodução na natureza, em áreas protegidas. Neste sentido, a espécie também é foco de um Plano de Ação Nacional para Conservação, conduzido pelo ICMBio.
A triste história do mutum-do-nordeste é um dos primeiros casos de extinção de uma espécie no Brasil em razão da intervenção humana e também reflexo da falta de compromisso que os órgãos ambientais e a sociedade em geral tiveram com os últimos remanescentes de floresta dos estados de Alagoas e de Pernambuco, onde restam menos de 2% de cobertura vegetal nativa.
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