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Margem do rio Paraguai, em frente a Porto Murtinho. Foto: Eduardo Pegurier

Margem do rio Paraguai, em frente a Porto Murtinho. Foto: Eduardo Pegurier

Volto de uma viagem ao belo e orgulhoso estado do Mato Grosso do Sul para participar da segunda oficina do projeto ParaTudo - Rede de Comunicadores, realizado pela Fundação Neotrópica em parceria com ((o))eco.

O projeto selecionou grupos de 20 participantes em cinco municípios do Mato Grosso do Sul: Miranda, Corumbá, Bodoquena, Bonito e Porto Murtinho. A ideia é formar uma rede jornalistas cidadãos, que possam ativamente produzir notícias sobre os problemas ambientais e sociais de suas cidades e da região.

A primeira parada foi em Miranda, 25 mil habitantes, considerada uma das portas de entrada para o Pantanal. Minha apresentação era sobre princípios do jornalismo. Citei uma máxima da profissão: "Jornalismo é mostrar o que os poderosos querem esconder". Fui confrontado por Creonimo Soares dos Santos, que viajou 70 km do Passo do Lontra até Miranda para participar junto com a filha adolescente do encontro. Ele me perguntou como fazer isso onde morava, pois o risco seria alto.

Minha primeira lição: é fácil falar da missão do jornalismo na relativa segurança do Rio de Janeiro ou São Paulo. Num estado de fronteira e rural, como o Mato Grosso do Sul, a história é diferente. Quando a denúncia é feita na cara do infrator, a chance de retaliação ou mesmo de constrangimento com um vizinho é óbvia. Mas Creonimo estava lá e provavelmente só chegou em casa de madrugada, pois a oficina terminou às 22h15.

Nos trajetos de carro entre uma cidade e outra, debaixo do horizonte largo e do sol de maçarico da região, ou de céus incrivelmente estrelados, os debates com minhas companheiras de viagem Anne Galvão e Cecília Brosig eram animados. As duas são da Neotrópica, moram em Bonito, sede da ONG, e coordenam o projeto ParaTudo.

Anne apontou que a minha apresentação à la PUC-Rio precisava ser adaptada às necessidades locais. Uma das soluções para dar partida a uma rede de comunicadores de locais seria enfatizar as chamadas pautas positivas, os bons exemplos com os quais se pode aprender e replicar. Bom ponto.

Oficina de Bodoquena. Foto: Anne Galvão

Oficina de Bodoquena. Foto: Anne Galvão

A segunda parada foi em Corumbá, porto tradicional, à beira do rio Paraguai. Lá, durante a oficina, surgiu a pauta do transporte público na cidade, que conta com um total de 16 ônibus para uma população de 110 mil pessoas. Para melhorar a situação, a prefeitura havia acabado de alugar, veja só, dois ônibus extras. O grupo estruturou a pauta, listou as entrevistas e perguntas a serem feitas e os documentos que poderiam embasar essa reportagem. Assim como em Miranda, muita animação e iniciativa.

Do meu lado, o sentimento de que estava presenciando o verdadeiro jornalismo. Estamos acostumados a pensar no jornalismo industrial, produzido por grande empresas, impessoal, com centenas de milhares de exemplares de jornal impresso, telejornais nacionais ou grandes portais de internet.

Mas o jornalismo nasceu local e feito em pequena escala. Na Inglaterra do século 17, um dos seus berços, começou em encontros nos pubs, onde um convidado ou alguém ilustre na comunidade fazia um relato dos últimos acontecimentos de viva voz.

A internet permite que o jornalismo volte às suas origens. Em vez de impresso, redes como o ParaTudo podem usar recursos online, simples e gratuitos como um blog, para produzir notícias de baixo para cima. O jornalismo comunitário do século 21 tem outra grande vantagem: a voz local, publicada em um site, pode ser ouvida em qualquer lugar do país ou do mundo para audiências de qualquer tamanho. Acabou o problema de calcular a quantidade de material impresso e de distribui-lo.

Os encontros de Bodoquena, Bonito e Porto Murtinho foram igualmente animados e povoados por participantes que variavam de estudantes, moradores engajados, funcionários da prefeitura e até policiais.

Em Bodoquena, a pauta levantada pela oficina foi a epidemia de dengue, recorrente nos verões, com a prefeitura sempre tomando medidas atrasadas e, portanto, ineficazes. Em Bonito, o bochicho era a sucuri que havia aparecido no balneário público da cidade, no rio Formoso. Movê-la ou não movê-la, eis a questão.

O circuito da oficina fechou em Porto Murtinho, cidade de 15.500 habitantes, também na beira do rio Paraguai, com o detalhe que lá o rio é a fronteira. Do outro lado, fica o país Paraguai.

Ao chegar na cidade, a primeira coisa que notei foram as ciclofaixas pintadas em várias ruas e avenidas da cidade. O carioca aqui ficou impressionado e com uma ponta de inveja. A pauta discutida nesta oficina foi respeitar o período de defeso da pesca. Como fazer isso se o defeso brasileiro não pode ser imposto aos paraguaios, que continuam pescando? E a reciclagem do lixo? Um dos participantes do ParaTudo estava engajado em promovê-la em Porto Murtinho.

Voltamos a Bonito, sede da Neotrópica, e recentemente premiada como melhor destino de ecoturismo do mundo. Meu sentimento era de ter aprendido muito mais do que pude ensinar. Se projetos como o ParaTudo decolarem e se multiplicarem...Se essa moda de jornalismo cidadão pega e se espalha por nosso país continental, o Brasil muda.

P.S. Paratudo é como os pantaneiros chamam uma árvore da região (Tabebuia aurea). Ela se chama assim porque mascar sua casca é usado como remédio popular para males diversos, que vão do estômago a febres e inflamações. Tomara que ajude também o jornalismo ambiental.

 

 

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