Fabio Pellegrini
08 de Novembro de 2012
Sinop (MT) – Era o último dia em Sinop e o espírito jornalístico pedia mais. Gostaria de conhecer de perto os problemas de outros municípios e assentamentos mais ao norte que estão passando, hoje, por o que Sinop passou há 20 anos. O processo se repete lá pra cima, a noroeste e a nordeste, adentrando a Amazônia.
Aproveitei o tempo restante para conhecer as propostas de quem estuda o desenvolvimento sustentável, a partir do seu tripé: conservação das florestas e da biodiversidade, exploração racional dos recursos renováveis e distribuição de renda socialmente justa.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Agrossilvipastoril fica a 3 km da área urbana de Sinop e foi inaugurada em julho de 2012. O termo soa estranho, mas faz alusão à integração entre lavoura, pecuária e floresta (iLPF). A sede dessa unidade da Embrapa tem um projeto arquitetônico arrojado, construído com madeira apreendida que lhe foi doada pelo Ibama. Até o correntão confiscado foi reaproveitado.
A assessoria de comunicação do órgão indicou para a entrevista dois jovens pesquisadores: Júlio César dos Reis, economista e pesquisador de desenvolvimento regional, e Ingo Isernhagen, biólogo. Conversei primeiro com Júlio.
- A região de Sinop passou por um processo de ocupação há 30, 40 anos e de consolidação do sistema econômico, inicialmente baseado na exploração da madeira. No inicio da década de 2000, o Ibama apertou a fiscalização, até culminar em uma grande operação [Curupira], em 2005, quando fechou-se muitas madeireiras. Isso fez com que a cidade entrasse em forte retração econômica. Depois disso, abriu-se o espaço para a agricultura chegar. Hoje em dia Sinop tem uma economia mais diversificada, com a agricultura de carro chefe. A madeira continua, em menor escala. Porém, ainda não temos esse dado quantificado.
Ouvi do prefeito eleito de Feliz Natal que a terra desmatada e limpa vale mais do que a terra intocada. Perguntei o por quê ao pesquisador Júlio.
- O processo de ocupação, derrubada e extração vem atrelado a essa ideia de valorização dos terrenos. Hoje, observa-se preços muito altos e em alguns casos totalmente desconectados da realidade. Não só aqui em Sinop, mas também em Sorriso e Lucas do Rio Verde, que despontam na atividade agrícola”.
Qual a responsabilidade e como a Embrapa tenta transformar a cultura do desmatamento?
- Um dos grandes desafios da nossa unidade é tentar ajudar a sociedade a entender essa transformação e a mudança de perspectiva com relação à exploração da floresta e dos recursos naturais. O que pretendemos é buscar alternativas para compatibilizar desenvolvimento e conservação. Temos clara a ideia de que não é correto apontar o dedo para o madeireiro e para o pecuarista pioneiros e dizer que eles são os únicos responsáveis pela degradação ambiental. A gente precisa dar alternativas para que se adequem.
Ingo Isernhagen relata sobre a linha de frente de projetos e das parcerias com o poder público, iniciativa privada e terceiro setor.
- Na parte de manejo, estamos começando, agregando conhecimento através de parcerias com pesquisadores de outras instituições. Há boas expectativas não só para o setor madeireiro, mas também para produtos derivados da biodiversidade da floresta, como sementes, frutos, resinas, fármacos.
- Desde 2010, participo de um time de pesquisadores que pesquisa de restauração florestal. Ele tenta mudar a percepção de área de reserva legal como área improdutiva. O projeto vai testar diferentes métodos de restauração, desde o plantio de mudas nativas, semeadura direta e condução de regeneração natural. O nosso grande desafio é mudar a perspectiva, provar que manter a reserva legal, por exemplo, é um investimento e provar que o produtor pode até ganhar mais dinheiro do que se desmatasse e plantasse, ou transformasse a área em pastagem. Aquilo que o agricultor veria como a saída de dinheiro pode, na verdade, ser entrada de dinheiro.
E como isso é possível?
- A intenção é mostrar ao produtor, desde o início, como planejar a floresta ou cerrado para produzir frutos, sementes, madeira, formar uma apicultura ou turismo rural. Enfim, alternativas para complementar a renda. O projeto piloto será implantando em 5 localidades, e já começou.
O que especificamente será estudado?
- Em cada uma dessas áreas vamos avaliar o solo, o desenvolvimento da estrutura da comunidade florestal, o microclima, os recursos hídricos... Investigaremos qual modelo é mais interessante, a parte de carbono, tanto no solo, quanto a emissão, toda a parte técnica, insumos, maquinário, qual o mais adequado... E permeando todos esses modelos está o trabalho dos economistas que vão avaliar quanto custou e quanto cada área gerará de renda. Em alguns lugares já vislumbramos resultados positivos e a baixo custo para um investimento de longo prazo. Não queremos substituir a soja nem a pecuária, mas queremos reverter a percepção da reserva legal como área improdutiva.
Segundo a Empaer (Empresa Matogrossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural), 74% das propriedades rurais de Mato Grosso são de pequenos produtores. A maior parte dos projetos de pesquisa estão voltados para esse grupo.
E chegou a hora de voltar. Ao longo de uma semana acompanhei a fiscalização
in loco do Ibama, sobrevoei a floresta, presenciei focos de degradação e áreas de lavoura, me surpreendi com fiscais do meio ambiente jogando bitucas de cigarro no chão, conheci uma cidade onde outrora fora floresta, conversei com um madeireiro adepto à legalidade, entrevistei o prefeito eleito de um dos municípios campeões de desmatamento, ouvi taxistas e garçons, comerciantes que estão na região desde o início da colonização, e conheci jovens pesquisadores em busca de soluções efetivas para o dilema do “Nortão de Mato Grosso”: desenvolver sem degradar.
Do avião, voltando para casa, em Campo Grande, vejo a teia de retalhos da terra antropizada em contraste com faixas verde-escuras, irregulares, de reservas legais e matas ciliares. A floresta original recua.
Batizado pelos intrépidos bandeirantes, nos idos do século XVII em busca de riquezas (como os colonos contemporâneos), o velho Mato Grosso vai deixando de ser inóspito e desconhecido ao mesmo tempo em que se esvai seu coração de natureza.