
Quero dividir com os leitores de ((o))eco uma história, dessas que a natureza conta, que ocorreu em um dia de rotina de fiscalização no interior da floresta do Parque Nacional do Iguaçu.
Trabalho no ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza), no Parque Nacional do Iguaçu, localizado no extremo oeste paranaense e conhecido pelas majestosas cataratas e a densa floresta que cobre os seus 185 mil hectares.
Há quem imagine que trabalhar num Parque Nacional é ser “guardião do paraíso”.
Ouço expressões do tipo: “ah, mas você trabalha num lugar lindo, é o que eu queria para minha vida, deve ser muito legal trabalhar aqui…”. É verdade. Só que neste paraíso faz parte a luta dos animais pela sobrevivência. Nós estamos lá guardando e também aprendendo.
A surpresa
Percorrendo “picadas” abertas por caçadores e palmiteiros, que infelizmente ainda insistem em destruir o pouco que restou de Mata Atlântica do Paraná e do Brasil, os guarda-parques do ICMBio se depararam com um animal morto. Tratava-se de uma imensa anta (Tapirus terrestris) com aproximadamente 150 quilos.
Teria sido abatida por um tiro ou envenenada? Uma análise mais aprofundada pelos experientes fiscais evidenciou que o animal havia sido predado por um felino dos grandes, certamente uma onça pintada.
Desconfiados que o felino ainda se encontrava perto do local da predação, pelo evidente “bafo de onça” que pairava sobre o local da batalha mortal, os fiscais resolveram acionar via rádio os técnicos do projeto Carnívoros do Iguaçu.
Eles suspeitavam que o felino retornaria para terminar sua refeição, que, aliás, nem sequer havia iniciado. Os técnicos seguiram rapidamente as coordenadas indicadas pelos fiscais levando todo o arsenal necessário: espingarda, anestésicos, rádio colar, câmeras trap e, claro, coragem.
Montaram acampamento próximo ao local indicado e não restava outra coisa senão esperar pelo banquete tão esperado do felino. Afinal, uma grande quantidade de carne fresca esperava para ser devorada.
Armadilhas fotográficas instaladas estrategicamente para registrar o grande momento, tudo a espera da majestosa onça pintada. Seria mais um registro para a história destes animais no Parque. Quem sabe, esta onça seria um exemplar ainda não catalogado, um macho saudável ou uma fêmea grávida. A esperança dos biólogos do projeto é encontrar em cada expedição um novo exemplar no Parque, dada a diminuição destes felinos na Mata Atlântica.
O comensal

Porém, a anta foi totalmente devorada. Sobraram somente seus ossos. As fotografias tiradas automaticamente – sem autor – foram armazenadas no banco de dados do Parque.O animal chegou e as armadilhas fotográficas dispararam seguidamente. Tudo foi documentado. Mas não foi a onça, animal topo da cadeia alimentar, que apareceu.
Os registros mostraram cenas intrigantes no interior da floresta. No final, em vez de vorazes felinos fazendo uma farta refeição – como assistiríamos nos documentários da National Geographic –, os devoradores da anta foram vários indivíduos adultos da espécie Urubu-rei (Sarcoramphus papa), consumidores de plantão e responsáveis diretos pela limpeza do local.
O bichano desapareceu e não retornou ao local onde abateu a anta. Talvez esta onça tenha sentido o “cheiro dos homens” ou os ruídos advindos das atividades humanas no local. A desistência fez que com que outra espécie terminasse a história que ela havia começado.
Nada se perde na natureza, alguém já escreveu.
Ver essa máxima acontecer de perto faz parte das surpresas, ou de mais um dia na vida dos guardiões do paraíso.
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