Uma visão ampla sobre os perigos do porco monteiro
M. Noelia Barrios-Garcia e Daniel Simberloff* - 29/08/13

 porco-monteiroPorco monteiro (Sus scrofa). Foto: Richard Bartz/Wikimedia CommonsPorco monteiro (Sus scrofa). Foto: Richard Bartz/Wikimedia Commons

Espécies introduzidas são aquelas espécies que, com a ajuda dos humanos, colonizaram áreas remotas fora de sua área nativa. Nas novas áreas, algumas das espécies introduzidas são capazes de estabelecer populações e se disseminar para outras áreas, causando mudanças radicais em comunidades nativas. Estas espécies são identificadas como espécies exóticas invasoras e tornam-se mais comuns com o aumento do transporte humano e do comércio. As consequências das espécies invasoras para as comunidades nativas variam desde sutis mudanças nos ecossistemas até a extinção de espécies, e é por isso que as espécies exóticas invasoras são a segunda causa de perda de biodiversidade, atrás da destruição de habitats. As espécies invasoras não somente desafiam a conservação da biodiversidade , mas também ameaçam o bem-estar humano. Por exemplo, o caramujo gigante Africano (Achatina fulica) foi introduzido intencionalmente em 1988 e tornou-se uma praga em jardins, hortas e áreas agrícolas.

Os porcos

Um artigo recente publicado no ((o))eco, de autoria do professor Fernando Fernandez, destacou alguns aspectos positivos da introdução do porco monteiro no Pantanal ("O Sus que deu certo"), onde a carne de porco monteiro é preferida sobre a de queixada e cateto (Tayassu pecari e Pecari tajacu). Neste artigo, o autor sugere que a introdução do porco monteiro foi um feliz acidente histórico que resultou na proteção das espécies nativas. Embora este seja certamente um aspecto positivo da introdução do porco monteiro no Pantanal, o panorama mais amplo sobre porcos ferais deve ser considerado para avaliar com precisão o impacto dos porcos na região.

Os impactos negativos de porcos monteiros ainda não foram objeto de estudo no Pantanal, mas pesquisas em outras áreas do mundo oferecem uma extensa lista de consequências prejudiciais para as comunidades nativas de plantas, animais e para a economia. A fim de se alimentarem de raízes, insetos e fungos, os porcos derrubam extensas áreas de vegetação. Este comportamento alimentar perturba de forma significativa a estrutura do solo e altera processos como a ciclagem de nutrientes e as taxas de decomposição de matéria orgânica. Os porcos monteiros prejudicam comunidades de plantas, reduzindo a cobertura vegetal, alterando a composição das plantas, danificando as sementes de frutos consumidos e facilitando o estabelecimento de plantas introduzidas. Os porcos também afetam negativamente a fauna nativa, predando e destruindo ninhos. Por exemplo, Desbiez e colaboradores (2009) relataram que cascas de ovos de aves foram regularmente encontrados em amostras de fezes de porco monteiro no Pantanal.

Os impactos de porcos monteiros também afetam o bem-estar humano. Manadas de porcos foram relatados danificando pastos e impedindo a regeneração natural da palmeira Attalea phalerata no Pantanal. Pesquisas em outros locais mostraram que os porcos monteiros reduzem a produtividade das culturas e podem predar animais de criação. Mais importante ainda, os porcos monteiros podem servir como reservatórios para várias doenças, como a brucelose, triquinose e gripe suína, que podem infectar animais selvagens nativos, gado e seres humanos. Por causa de todos os efeitos negativos dos porcos monteiros em comunidades nativas e em seres humanos, vários programas de manejo ao redor do mundo visam controlar ou erradicar populações introduzidas de porcos ferais.

O papel das invasoras

Os impactos das espécies introduzidas não devem ser subestimados pela falta de informação local. Um estudo nosso publicado recentemente ("Natives are restless, but not often and mostly when disturbed") mostra que as espécies de plantas introduzidas são 40 vezes mais propensas a se tornarem invasoras do que as espécies nativas. Portanto, qualquer espécie que é problemática em outros lugares deve ser considerada problemática em qualquer nova área. Controlar ou erradicar uma espécie introduzida é mais fácil e mais barato nos estágios iniciais da invasão, do que depois de disseminada. Por fim, os impactos negativos de espécies introduzidas nunca devem ser negligenciados em função de um aspecto positivo isolado. Na verdade, a situação de espécies introduzidas pode mudar com o tempo ou a partir de interações com outros fatores. Uma planta introduzida, por exemplo, pode não ser capaz de se disseminar a partir do local de introdução inicial enquanto o dispersor de sementes apropriado não for introduzido.

  *M. Noelia Barrios-Garcia é pesquisadora da University of British Columbia, no Canadá, e Daniel Simberloff da University of Tennessee, EUA 

 

 

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