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From their control centre in Oxfordshire, analysts from Satellite Application Catapult can track vessels around the world and watch for abnormal or illegal behaviour. Photograph: Satellite Applications Catapult

Do centro de controle em Oxfordshire, Reino Unido, analistas rastreiam embarcações em qualquer lugar do globo para detectar ilegalidades. Foto: Satellite Applications Catapult

Navios de pesca piratas saqueando peixe de reservas marinhas do mundo, tais como a área protegida ao redor da Ilha Ascensão anunciada no fim de semana, agora podem ser vistos, rastreados e levados à justiça utilizando tecnologia de satélite.

Apesar da proliferação de enormes reservas marinhas, elogiadas publicamente, impedir a pesca em muitas áreas remotas do mundo tem sido quase impossível.

Os navios de pesca são obrigados a ter um transponder que acompanha seus movimentos e permite às autoridades monitorar seu comportamento. Mas os pescadores ilegais simplesmente desligam o dispositivo, e se tornam invisíveis ao sistema.

Uma iniciativa financiada pelo Reino Unido, desenvolvida pela Satellite Applications Catapult (SAC) e a Pew Charitable Trusts, utiliza radares de satélite para monitorar esses “alvos escuros”. Agora, em vez de cegamente patrulhar vastas áreas de oceano, navios de guarda costeira usam informações do satélite para direcionar sua busca.

"Nós não colocamos um policial em cada esquina 24 horas por dia. Então, vamos, pelo menos, saber qual é a situação na água [antes de enviar barcos para investigar]", disse Bradley Soule, analista sênior de pesca da SAC. Radar de satélite é uma tecnologia tradicionalmente usada pelas agências militares e policiais. Mas o custo caiu dramaticamente, abrindo os dados para as empresas privadas usarem.

"É definitivamente uma grande questão", disse Soule. "[O rastreamento global por satélite] te dá uma noção do escopo.... É um problema comum". Cerca de um em cada cinco peixes capturados em todo o mundo é ilegal.

Segundo ele, no passado, o problema não era compartilhado por governos vizinhos. Isto significava que "havia oportunidades para oportunistas se moverem rapidamente através das fronteiras e usar isso contra nós".

Mas apesar do sistema estar em teste, em desenvolvimento há dois anos, já foi usado durante as investigações. Mas os detalhes ainda não são públicos.

"As desculpas de que são muito grandes, remotas, que é caro demais, são velhas desculpas. A realidade é que nós temos a tecnologia para policiar esses locais"

"Nós identificamos comportamentos anormais e estamos trabalhando com as autoridades competentes", disse Soule.

Apenas cinco anos após Dan Laffoley, responsável pelo programa de oceanos da IUCN, co-escrever um relatório em que diz que a maioria das áreas marinhas protegidas "são ineficazes ou apenas parcialmente eficazes", ele agora acredita que as reservas podem oferecer um verdadeiro santuário.

"As desculpas de que são muito grandes, remotas, que é caro demais, são velhas desculpas. A realidade é que nós temos a tecnologia para policiar esses locais ", disse Laffoley.

"Houve um pulo no sensoriamento remoto", disse Charles Clover, presidente da Fundação Blue Marine, que pressionou o governo do Reino Unido para a criação da área marinha protegida de Ascensão. No entanto, ele acrescentou que "a viabilidade de realmente levar infratores aos tribunais com base em sensoriamento remoto [sozinho] ainda é questionada pelo Ministério de Relações Exteriores”, e a tecnologia ainda continuaria a exigir barcos no local.

O Guardian entende que a tecnologia por satélite será parte do patrulhamento dos 234,3 mil km2 da reserva marinha da ilha de Ascensão. Um estudo inicial daquelas águas, feito por meio de satélites, encontrou pelo menos oito barcos com seus transponders desligados, possivelmente pescando ilegalmente.

A Satellite Applications Catapult já trabalha com o governo do Reino Unido para monitorar navios na maior reserva marinha do mundo, localizada ao redor das Ilhas Pitcairn.

O anúncio de que o governo do Reino Unido proibiria a pesca em mais da metade das imensas águas territoriais da ilha de Ascensão (que são de domínio britânico) foi saudado como um "passo gigante" por Laffoley.

O solitário pico vulcânico de Ascensão se projeta a partir do coração do Oceano Atlântico, quase a meio caminho entre a América do Sul e África. Laffoley disse que as águas em torno de Ascensão foram um dos poucos lugares restantes onde o ambiente marinho não foi danificado de maneira irreversível pelo excesso de pesca. Mas mesmo aqui os últimos anos foram de rápido declínio.

"Há uma zona de pesca asiática, que usa linha longa, bastante desastrosa nas águas de Ascensão, obtida com pagamento ao governo da Ilha para compensar o déficit [de financiamento] de Londres", disse ele.

Quando visitou o local no ano passado, Laffoley conversou com os habitantes locais que lhe contaram sobre grandes eventos e criaturas naturais, tais como "grandes atuns caçando peixes miúdos em frente às praias, vistos através de gerações de habitantes locais, coisa que está se tornando mais lembrança do que a realidade".

"Quando estávamos mergulhando, vimos apenas um tubarão e deveríamos ter visto muitos", disse ele.

Em 2015, um ótimo ano para a conservação marinha, grandes reservas foram designadas nas águas de Palau, Ilha de Páscoa, Ilhas Pitcairn e as ilhas Kermadec, na Nova Zelândia. A criação da reserva de Ascensão levou a 2% o percentual de águas oceânicas protegidas no mundo. Em 2002, a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável e a Convenção sobre a Diversidade Biológica levaram a um acordo entre países para atingir 10% até 2012.

Quase metade das águas de Ascensão permanecerão abertos para barcos de pesca de atum (principalmente de Taiwan), que causaram tantos danos no passado. No entanto, uma doação de 300 mil dólares da fundação filantrópica do gestor de fundos hedge Louis Bacon financiará o policiamento do local nas próximas duas temporadas de pesca, a fim de "garantir que as melhores práticas são seguidas".

"A criação da reserva de Ascensão levou a 2% o percentual de águas oceânicas protegidas no mundo"

Mas Laffoley disse que essa situação deixou o trabalho de proteção pela metade. "Eu acho que nós precisamos fechar a zona de pesca ainda em funcionamento. Afinal, o marlim, as tartarugas, os tubarões e outros não sabem qual área está aberta e qual está fechada para exploração".

"A realidade é que se você quer ter lugares no oceano onde há impressionantes espetáculos da vida selvagem, ecossistemas intactos, onde se encontram indivíduos grandes e velhos, que sabemos serem mais resistentes e terem melhor qualidade de ovos para repovoar áreas [então você precisa de áreas fechadas para pesca]. Quando há uma zona de pesca, você os perde", disse Laffoley.

Clover disse que a pesca se manteve aberta por necessidade, a fim de financiar o governo Ilha de Ascensão. O financiamento do Reino Unido de serviços públicos na ilha é bastante limitado e a comunidade foi obrigada a vender licenças aos operadores de pesca.

"A questão toda é o Ministério das Relações Exteriores [do Reino Unido] não pagar por este esquema", disse Clover.

Laffoley concorda com o apelo de Clover para aumentar o orçamento e tornar a comunidade de Ascensão viável sem a pesca. "Nós temos que nos perguntar por que estamos usando e explorando a biodiversidade, para, em seguida, protegê-la", disse. "Será que explorá-la é uma boa estratégia quando estamos diante de declínios catastróficos onde já tivemos pesca?"

 

*Esse artigo é publicado em parceria com a Guardian Environment Network, da qual ((o))eco faz parte. A versão original (em inglês) foi publicada no site do Guardian. Tradução de Eduardo Pegurier

 

 

 

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