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Serra Grande, local próximo de onde será erguido o mega Porto Sul. Foto: Eduardo Paraíso.

Vista do Mirante de Serra Grande, região onde será implantado o Porto Sul (entre Ilhéus e Itacaré), Bahia. Foto: Eduardo Paraíso.

Recentemente, Emilio Gusmão defendeu Mestrado (ESCAS – IPÊ) sobre o “mito do progresso” e a “sedução” que leva a mídia a acreditar e alardear os benefícios de uma obra como o Porto Sul, projetado para a região de Ilhéus, Bahia. Um megaprojeto como esse traz dúvidas de toda sorte, desde as razões escusas que podem alimentar interesses financeiros de alguns, até o porquê de a maioria das pessoas acreditarem que uma grande obra representa muito mais ganhos do que perdas. O histórico de empreendimentos parecidos, cujos resultados foram nefastos para a própria região, mostra impactos socioambientais graves, sendo que alguns nunca nem saíram do papel.

O Porto Sul pode trazer danos irreversíveis para a sociedade local, que se ilude com a ideia de que a obra trará empregos e um desenvolvimento extraordinário, o que é muito mais imaginário do que real, segundo dados de especialistas que estudaram a questão a fundo. Em relação às perdas da natureza local, uma das mais ricas em biodiversidade do planeta, essas serão inimagináveis, tanto no mar quanto em terra, mas isso parece irrelevante para quem defende a obra.

Todavia, meu ponto não é o Porto Sul sobre o qual já escrevi duas matérias em ((o))eco, e sim a reflexão em relação ao que leva o ser humano a almejar algo grandioso como se fosse a melhor forma de se atingir felicidade, sem perceber que a verdadeira riqueza está na vida que nos rodeia.

É nítido o anseio de muitos quererem obter empregos ou enormes riquezas, mesmo que historicamente os bem-sucedidos tenham sido poucos e, em muitos casos, como consequência da exploração de outros seres humanos e da natureza. No caso do próprio sul da Bahia, o exemplo dos cacauicultores e mesmo de outras culturas mostra que o lucro pode ser significativo, mas ficou sempre concentrado em poucos donos de terras, ao mesmo tempo em que a maioria da população vivia indignamente. Alguns conhecedores dessa história, professores na região, como Rui Rocha ou Jorge Chiapetti, entre outros, relatam que a época áurea do cacau colapsou por conta da praga conhecida como “vassoura de bruxa”. Mas Chiapetti aponta que esse não foi o único motivo, pois a lavoura era subsidiada pelo crédito governamental que quando foi interrompido causou grandes impactos na região. Todavia, a memória de riqueza que predomina é dessa época, como se a fartura tivesse sido para todos. Outras atividades, como o turismo, se instalaram depois da baixa do cacau. Hoje, a economia da região se concentra principalmente no setor terciário, ou seja, comércio e serviços. Há pesquisas recentes que mostram aumento do PIB, e por mais que este não represente um indicador de diminuição das desigualdades, o fato é que a economia da região de 1999 a 2009 não esteve estagnada. Mas, a ilusão de que o apogeu foi com o cacau ficou no imaginário popular como um símbolo de um tempo para o qual muitos desejam retornar. A maioria não parece lembrar ou querer lembrar como era verdadeiramente a realidade, cultivando uma imagem fictícia, ao invés de prezarem o que têm hoje.

A maioria dos empreendimentos no Brasil e mesmo em outras partes do mundo, principalmente os de grande porte, são vendidos como fontes de benefícios para as populações locais, mesmo que nem sempre sejam pautados na verdade.

O que isso tem a ver com conservação? A maioria dos empreendimentos no Brasil e mesmo em outras partes do mundo, principalmente os de grande porte, são vendidos como fontes de benefícios para as populações locais, mesmo que nem sempre sejam pautados na verdade. E a mídia tem uma enorme parcela de responsabilidade de averiguar e divulgar os fatos. Porém, muitos meios de comunicação enxugaram seus quadros de profissionais, o que dificulta a divulgação da informação produzida por especialistas com conhecimentos específicos em determinados temas. Além disso, a velocidade com que as noticias se propagam, aumentam os desafios de informar com consistência o que ocorre e o que está por vir com projetos como o Porto Sul na Bahia, por exemplo. E, um fato novo nesse cenário é que o mercado e as redes sociais tiraram o monopólio da informação dos jornalistas. Hoje qualquer pessoa produz informação. Ou seja, a produção da notícia foi democratizada, o que pode soar como algo bom. Mas isso vem gerando crise nos veículos de comunicação, que reduziram a disponibilidade de reportagens investigativas, aquelas mais apuradas e aprofundadas. Além disso, o mercado atual exige velocidade e inserção nos meios de comunicação social. É necessário sair na frente, publicar primeiro. Esses fatores causam perda na qualidade da informação e o público acaba tendo acesso a quantidade, mas muitas vezes a conteúdos pouco confiáveis. E o que é surpreendente, como mostra o estudo do Emílio Gusmão, um grande número de comunicadores traz a mesma ilusão do seu leitor ou ouvinte, ao acreditar que obras faraônicas trarão emprego, renda e bem-estar para as pessoas locais, o que não é o que deve acontecer com o Porto Sul.

Essa linha de pensamento nos remete a Schumacher, que já em 1973, em seu livro Small is Beautiful (O Pequeno é Belo), defendia ideias que se tornaram em princípios da sustentabilidade. Por exemplo, consumir e valorizar o que é produzido localmente deve ser incentivado por reduzir o gasto de energia e estimular a economia regional.

Mas, o desafio tem sido o de apaziguar ou reprimir a ganância humana que, ao invés de almejar o que é bom para a coletividade, insiste em querer se beneficiar individualmente em todas as frentes do que faz ou almeja fazer. Gandhi expressou esse pensamento de uma outra maneira quando disse: “O mundo é grande o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas sempre será muito pequeno para a ganância de alguns”.

Recentemente, um cientista, advogado e defensor de causas ambientais, James Gustave (Gus) Speth (fundador do World Resource Institute), admitiu que não é por meio da ciência que o ser humano vai chegar a um outro estágio de existência. São necessários valores como empatia, cooperativismo e eu adicionaria um senso de celebração da vida que ajuste os ponteiros, passando do querer “ter” para o “ser” em sua grandiosa dimensão. O que disse Gus Speth e que rodou recentemente nas redes sociais:

Nós cientistas não sabemos fazer isso. Eu costumava pensar que os mais graves problemas ambientais eram a perda da biodiversidade, o colapso dos ecossistemas e as mudanças climáticas. Eu pensava que com 30 anos de boa ciência nós resolveríamos esses problemas. Mas, eu estava errado. Os problemas ambientais mais sérios são egoísmo, ganância e apatia... e para lidar com eles precisamos de uma transformação espiritual e cultural – e nós, cientistas, não sabemos fazer isso.  

Um senso de maravilhamento pela vida talvez ajudasse a reverter os processos de destruição do mundo natural, como foi poeticamente descrito por Rachel Carson em um pequeno livro Sense of Wonder (1965), bem menos conhecido que sua valiosa contribuição para o ambientalismo, Primavera Silenciosa. Carson mostra a uma criança que a natureza tem muito a ensinar e é uma fonte de inspiração infinita para aprendermos a valorizar o que existe no planeta e no cosmos.

Eu estou no rol dos que sonham com transformações dessa grandeza. Recentemente, em uma fala pública (TED X São Paulo), soei mais uma vez como utópica. Mas, para mim é da utopia que surgem as ideias que podem mudar o mundo. É da não concordância do que está estabelecido e do que consideramos injusto ou errado que emergem iniciativas diferentes e transformadoras. É preciso desenvolvermos valores com práticas condizentes a uma nova visão de mundo que seja inclusiva, sustentável e reflita esse novo pensar.

A educação continuada e a comunicação têm papeis importantíssimos ao abrirem portas rumo a caminhos mais promissores e reais. Por isso considero o alerta do agora Mestre Emílio Gusmão de grande relevância, quando chama a atenção para a sedução que exerce o “mito do progresso” nas escolhas do ser humano, que ainda quer ter mais e mais, muitas vezes trazendo desastres irreparáveis para si e para tudo ao seu redor. O comunicador tem uma responsabilidade ainda maior do que o público em geral pela sua influência no destino da sociedade, principalmente quando as questões que aborda estão relacionadas à sustentabilidade planetária.

Obs: este artigo reflete muitas ideias trocadas durante a defesa de Emílio Gusmão com sua banca, composta por Jorge Chiapetti, Claudio Padua e eu, Suzana Padua. Agradeço a todos!

 

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