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Durante dois dias, empresários, representantes de órgãos governamentais e de instituições da sociedade civil debateram a integração dos diversos interesses em torno do objetivo comum da sustentabilidade. Foto: Suzana Padua.

Durante dois dias, empresários, representantes de órgãos governamentais e de instituições da sociedade civil debateram a integração dos diversos interesses em torno do objetivo comum da sustentabilidade. Foto: Suzana Padua.

 

“Oportunidades Econômicas no Contexto das Mudanças Climáticas” foi o nome dado ao encontro realizado dias 1 e 2 de junho no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro, local mais apropriado impossível para o grupo que propõe algo inovador e promissor: a Coalizão Clima, Floresta e Agricultura. E por que esses temas juntos inspiram esperança? A razão é simples. A reunião de Paris sobre clima, que ocorreu em dezembro de 2015, fomentou uma integração de interesses de diversos segmentos da sociedade civil, governos e setor privado. Com isso, agora sentam-se à mesa profissionais e CEOs do agrobusiness, pecuária, empresas de diversas áreas, representantes de órgãos governamentais e de instituições da sociedade civil de interesses variados. Nesses anos todos em que trabalho pela conservação e sustentabilidade no Brasil, nunca presenciei e nem pensei ser possível tal feito.

A estimativa é que umas 600 pessoas tenham participado de seminários, cujos temas sinérgicos foram o clima e a necessidade de produção de alimentos e outros produtos, ao mesmo tempo em que se pense em estratégias efetivas de proteção das florestas naturais. É uma busca por caminhos para uma nova economia de baixo carbono em que todos possam ganhar – sociedade e natureza.

Segundo Roberto Waack (AMATA/WWF), a economia de baixo carbono tem importância inquestionável, como proposto na reunião de Paris quando foi apontado que o sinal está acima dos ruídos. Os ruídos existem, mas a Coalizão visa lidar com eles, as incertezas e diversidades de anseios, buscando meios para que o sinal se consolide. Com isso, a Coalizão tem sido capaz de juntar mais de 130 organizações que vislumbram algo novo; um aprendizado na compreensão de como integrar a complexidade que inclui a interdependência entre setores, gente e natureza.

No que se refere ao território brasileiro, a aplicação das leis florestais e do Cadastro Ambiental Rural (CAR) é fundamental, pois evidencia como a terra está sendo usada e a quem pertence. Com isso, os proprietários de matas nativas podem ser identificados e assim se desenhar meios de recompensar e criar vantagens para que mantenham o que se têm e recuperarem o que está degradado. Por exemplo, os serviços ambientais que as matas nativas proporcionam precisam ser valorizadas, pois trazem benefícios para todos. Para Waack, nesse sistema a biodiversidade também será melhor protegida. Isso porque esses mecanismos propiciam transparência, gestão multi-stakeholder e rastreamento das ilegalidades, já que práticas que infringem as leis competem com o que é correto, prejudicando e até as inviabilizando. Uma das maneiras mais significativas utilizadas por Waack para explicar a Coalizão é a troca da preposição “ou” por “e”. Não é mais agricultura “ou” criação de gado “ou” plantio de florestas “ou” conservação. São todos juntos buscando objetivos comuns, o que leva ao “e”. Mesmo com todos os desafios que podem não ser pequenos, essa é uma tentativa digna de ser testada. Segundo Waack, o Brasil tem total perfil para aderir a um mercado de baixo carbono: "Talvez seja um dos países em que essa oportunidade se consolide de maneira mais clara. Mas, a gente precisa ter alguns elementos de política industrial, alguns elementos de conscientização para que isso seja efetivamente implementado".

Bruno Mariani (Symbiosis) chamou a atenção para o fato de que a exploração da Amazônia brasileira continua atrasada como ocorreu no século XVI em outras partes do país, por expropriar gente e natureza de forma indigna e insustentável. Esse cenário se contrasta com o plantio de florestas exóticas para a produção de celulose, por exemplo, conhecida por ser uma atividade de ponta ao utilizar ciência e tecnologia das mais avançadas do mundo. A falta de valor atribuída às florestas nativas tem levado à perda de mais de 20 milhões de hectares de florestas nos últimos 20 anos. Existem muitas áreas em recuperação, mas estamos longe do objetivo, que é o de plantar e recuperar 12 milhões de hectares até 2030, como lembrou Ana Cristina Barros (TNC), referindo-se ao documento iNDC.

Adriana Moreira (Banco Mundial) expressou que o Brasil precisa de escala. Pode, por exemplo, se inspirar no princípio de poluidor/pagador adotado na Costa Rica, por garantir financiamentos de longo prazo para recuperação de áreas degradadas, reflorestamento e conservação. Assim, as atividades poluidoras passam a apoiar conservação de maneira contínua. Outro ponto importante é transformar o reflorestamento em negócio rentável. Adriana citou o caso do México, detalhado pela Diana Nacibe Salas (Conafor), onde foi criado um fundo que também assegura financiamentos contínuos. Ou seja, o importante é contar com aportes que sejam atemporais para garantir continuidade de apoio, o que ajudará a despertar interesse por parte de potenciais investidores nesse setor.

Há uma mobilização de jovens nesse processo capitaneado pela organização Engajamundo. A militância nacional e internacional de centenas de jovens tem os levado a nos representar dentro e fora do Brasil, inclusive na ONU. Foi assim que alguns desses jovens foram a Paris e se manifestaram de forma lúdica, mas com mensagens sérias e bem embasadas a favor de uma economia de baixo carbono e da sustentabilidade em todas as áreas. O bom é que hoje o Engajamundo está em muitas cidades e municípios brasileiros, espalhando sementes dessa nova forma de pensar.

A inovação no contexto atual é fundamental. Como afirma Sergio Besserman (Jardim Botânico do Rio de Janeiro): “se formos o que sempre fomos, não somos”. Isso porque há a necessidade de nos adaptarmos a cada instante às mudanças que ocorrem em velocidades acentuadas. Besserman comparou o momento atual ao Renascimento, pois vivemos uma era de transformações profundas. A natureza de nossas escolhas é diametralmente diferente, já que temos conhecimentos do que se passa em todo o mundo instantaneamente, o que não ocorria em épocas anteriores. Todavia, conhecimento nem sempre leva a comportamentos condizentes, pois há informações suficientes sobre as consequências das ações humanas, mas nossos atos não acompanham o que sabemos que temos que fazer para protegermos o planeta como deveríamos. Com isso, os gases de efeito estufa aumentam a cada ano, assim como a concentração de renda e a desigualdade social, para darmos apenas alguns exemplos do que sabemos e poderia ser evitado.

Interligações

Besserman aponta para um fator que agrava a situação do que vivemos agora por não haver uma governança mundial, sendo que muitas questões precisam ser regidas por sistemas regulatórios além das fronteiras regionais. Isso porque as leis regem o que ocorre dentro de uma localidade ou país, mas a economia passou a ser universal e ninguém é responsável pelo seu monitoramento. Sendo assim, tudo pode desde que seja lucrativo e não há limites para os ganhos que se estabelecem. E, claro, uns ganham bem mais do que outros, além de muita gente e regiões passarem a ser exploradas indiscriminadamente. Seria necessário que as decisões tomadas previssem 50 anos adiante, o que não faz parte da métrica da mente humana. Nosso tempo é de escolhas que definirão o que vai ocorrer em nosso futuro próximo.

Na mesma linha de pensamento, Ricardo Abramovay enfatiza a necessidade de se pensar em mudanças que não repitam o padrão em curso. A Coalizão, para ele, representa uma nova oportunidade por ser composta de organizações de diversos setores que agora trabalham por um ideal comum.

Os princípios da Coalizão refletem esse novo pensar, ao defenderem cooperação e integração multisetorial, economia aberta, na busca de convergências sempre que possível, e aprendizados com as divergências que levem a avanços, com transparência na divulgação das informações sobre clima, floresta e agropecuária, para que possa se propor algo que seja de interesse comum e factível de ser aplicado, além de intercambiar iniciativas bem sucedidas no Brasil e exterior.

Um cuidado que se deve ter é de não apenas focar nos benefícios econômicos, pois as florestas nativas, muito mais ricas em diversidade biológica do que as plantadas, ainda não valem tanto economicamente. Daí a importância de se pensar em formas concretas de valorizar e recompensar quem ainda tem matas originais dos muitos biomas brasileiros, cuja diversidade biológica é inquestionável, além de se buscar incentivos para a recuperação de áreas degradadas.

A presença da IUCN como um dos promotores do evento contribui para dar à Coalizão um alcance internacional por ser a maior organização ambiental, com inúmeras instituições associadas espalhadas em todos os continentes, além de ser a única com representação formal na ONU. Isso ajuda a espalhar ideias que possam inspirar outros a adaptarem aos seus contextos o que tem potencial de beneficiar o planeta.

A Coalizão com suas propostas inovadoras serve de alento em meio a tanta crise que enfrentamos no Brasil e no mundo. A busca por caminhos promissores condiz com o local onde se realizou o evento, o Museu do Amanhã, cujo conteúdo levanta questões sobre o planeta, nosso papel no desenvolvimento da história e como podemos mudar para vislumbrarmos esperanças. A beleza arquitetônica e ousadia da linguagem visual criada por Santiago Calatrava, juntamente com os conteúdos repassados de forma criativa e grandiosa, nos leva a um outro patamar do que somos e do que é possível. Como sempre, é imprescindível que a gente aprenda a querer o que é digno, justo e belo, pois é isso que a vida em nosso planeta merece.  

 

 

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