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O Peru é o segundo produtor mundial de cacau orgânico, e no país existe 60% das variedades da espécie do mundo. Fotos: Thomas Mueller / SPDA

O Peru é o segundo produtor mundial de cacau orgânico, e no país existe 60% das variedades da espécie do mundo. Fotos: Thomas Mueller / SPDA

Pouca gente sabe em Lima o que é o huicungo (Astrocaryum huicungo), a não ser o José ‘Pepe’ Álvarez, um biólogo espanhol que agora trabalha na capital, mas que reside há mais de 30 anos em Iquitos, a cidade mais importante da Amazônia peruana. De acordo com ele, esta palma da floresta, abundante na região de Loreto, é rica em ácidos láurico e oleico, duas substâncias vitais para o homem.

O primeiro tem efeito antimicrobiano, tornando-o ideal para a fabricação de sabão, e o segundo, protege os vasos sanguíneos, prevenindo ataques do coração. O azeite desta planta, pode também dar mais brilho e mais elasticidade à pele. No entanto, em Huicungo, uma vila da também amazônica região de San Martín, é bem mais fácil encontrar óleo para carros do que o desta planta.

O possível e o impossível

Álvarez e outros especialistas notam isto com uma mistura de esperança e frustração, que parece vir de uma constatação inegável: o Peru, considerado na lista dos 17 países megadiversos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), tem recursos valiosos, que podem ser aproveitados de forma sustentável, especialmente na Amazônia, mas não são prioritários.

O caso do huicungo é um exemplo, apesar de ser só um elo de uma cadeia de possibilidades desperdiçadas ou subaproveitadas. O camu-camu (Myrciaria dubia-Myrtaceae) é outra fruta amazônica atraente, que tem 20 vezes mais vitamina C do que a laranja. Em algum momento teve seu boom, perto de 1994, quando começou a ser promovido. Entretanto, hoje, sua exportação caminha a passos lentos.

Em 2007 atingiu um recorde de mais de 4 milhões de dólares em exportações, quando foi popular no exterior e no próprio Peru, inclusive em Lima (onde ainda é possível encontrá-la). Mas nos anos seguintes as exportações foram caindo, até que em 2011 as vendas fora do país não chegaram a 1 milhão de dólares.

A castanha-do-pará gera um movimento de 5 milhões de dólares por ano no Peru, em sua maioria por exportações à Europa e Estados Unidos.

A castanha-do-pará gera um movimento de 5 milhões de dólares por ano no Peru, em sua maioria por exportações à Europa e Estados Unidos.

Mario Pinedo, funcionário do Instituto de Investigações da Amazônia Peruana (IIAP), tenta explicar. “A organização de produtores não está fortalecida”, diz, além de apontar para a baixa transferência de tecnologia. Ele explica que são apenas nove mil famílias dedicadas à produção do camu-camu, e cada uma só consegue produzir um hectare, o que é pouco para a demanda de países como o Japão, um dos generosos compradores da fruta. Além disso, destaca dois gargalos para a produção: o preço da energia e a falta de transporte. O último é o fator fundamental. Como lembra o economista ambiental Manuel Glave, “não existem redes de transporte eficazes na Amazônia”. Na imensa região de Loreto, por exemplo, só há uma estrada que une Iquitos e a vizinha cidade de Nauta, através de 115 quilômetros. O resto do transporte é fluvial e demora horas ou até dias 2 dias desde Pucallpa, outra cidade amazônica, até Iquitos.

O paradoxo é que, se optasse por construir estradas massivamente, o país cometeria suicídio ambiental, já que não existe rota terrestre que não facilite outros impactos.

De acordo com o agrônomo e ecólogo Marc Dourojeanni, uma estrada “provoca o distúrbio dos ecossistemas naturais”, porque necessariamente tem que se derrubar a floresta e porque atrai, ao redor dela, migrações que terminam alterando ainda mais o entorno. O dilema não é fácil de resolver, já que uma das condições para que os econegócios amazônicos funcionem é, como diz o empresário ecoturístico Kurt Holle, “manter a floresta de pé”.

O ritmo do ecoturismo

O ecoturismo é uma dos grandes potenciais do país, precisamente por sua altíssima biodiversidade, suas paisagens espetaculares e ecossistemas deslumbrantes. A parcela de floresta dedicada a esta atividade, no entanto, é pequena. Segundo Álvarez, apenas 3 ou 4% da Amazônia peruana, que tem 760 mil quilômetros quadrados, que ocupam 60% do território peruano.

Mas há casos de sucesso. A empresa Rainforest Expedition, por exemplo, tem 3 albergues: Pousada Amazonas, Refúgio Amazonas e Tambopata Research Center. Eles estão na zona de Tambopata. O Pousada Amazonas é manejado junto com uma comunidade da etnia Ese’ejja, através de um convênio que deixa aos índios 60% dos lucros.

Dessa forma, cumpre um dos 7 princípios estabelecidos pelo Programa Nacional de Promoção do Biocomércio do Estado Peruano: “distribuição justa e equitativa dos benefícios derivados do uso da biodiversidade”. Os outros 6 princípios apontam à conservação dos recurso naturais, seu uso sustentável, cumprimento da legislação nacional e internacional, a sustentabilidade socioeconômica e também à questão da propriedade da terra e o respeito a grupos e pessoas envolvidos em biocomércio.

A empresa Muyuna Lodge, que administra um albergue com o mesmo nome em Yanayacu, a 140 quilômetros de Iquitos, tem um acordo similar, beneficiando a comunidade de San Juan de Yanayacu.

A Rainforest Expedition oferece ver, de madrugada, a chegada de centenas de araras para comer argila, enquanto enchem o ecossistema de barulho e cores. Nos cursos d´água próximos ao Muyuna Lodge existe uma abaundância de espécies variadas de peixes. Lá, é possível admirar essa enorme riqueza dos rios amazônicos.

Infelizmente, nem todas as empresas que intitulam “ecoturísticas” cumprem os mencionados princípios. O Ministério de Comércio Exterior e Turismo promove os negócios ecológicos através de campanhas que os impulsionem e lhe agreguem valor. Em 2011, o Peru recebeu 2,6 milhões de turistas, dos quase 1 bilhão que andam pelo mundo anualmente, de acordo com os números da Organização Mundial de Turismo. Uma boa parte daqueles que escolhem o Peru é seduzida pela sua biodiversidade.

Peixes e árvores

Outra grande atração amazônica é a riqueza pesqueira, uma área que como muitas outras, tem suas sombras. De acordo com o documento GEO Amazônia, publicado pela Universidade do Pacífico, do Peru, o PNUMA e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, o consumo de peixes amazônicos no Peru chega a 40 mil toneladas por ano. Segundo o IIAP, o consumo per capita é de 9,5 quilos por ano.

Não é uma situação ideal, levando-se em conta que o pescado é a principal fonte de proteína da região amazônica. E que há zonas, como Madre de Dios, onde o consumo é baixo, devido aos altos níveis de contaminação dos rios por mercúrio, provocados pela mineração informal de ouro. O outro problema é novamente o transporte: é difícil que estes peixes cheguem a outras mercados consumidores do país.

Em Lima, por exemplo, encontrar pescado amazônico é difícil, até estranho. Ocasionalmente se acha em alguns mercados, mas não é um produto de consumo habitual. Entretanto, segundo o IIAP, estima-se que, na Amazônia, são produzidos 15 milhões de peixes por ano, uma grande parte deles em projetos de aquicultura. Um deles fica na Área de Conservação Ambiental da Bacia do rio Huamanpata.

Legenda: Uma das maiores dificuldades para a exploração do café na zona andina amazônica é a falta de estradas para o escoamento do produto.

Legenda: Uma das maiores dificuldades para a exploração do café na zona andina amazônica é a falta de estradas para o escoamento do produto.

Nessa parte alta da floresta (1.600 metros acima do nível do mar), a criação de um delicioso peixe chamado tambaqui (Colossoma macropomum), que é nativo das partes baixas da Amazônia, está dando certo. Projetos similares existem em outras zonas, embora seja como diz o Instituto do Bem Comum, uma atividade que precisa de “investimento e dedicação”.

A abundância de peixes amazônicos (cerca de 2.500 espécies, mais do que em todo o Oceano Atlântico, das quais se exploram 200) oferece não só alimento. O aruanã-prateado (Osteoglossum bicirrhosum), um belo peixe ornamental que possui algo como antenas na frente da boca, é muito buscado nos mercados asiáticos, e de acordo com o IIAP, a venda de seus alevinos representa uma receita de quase 3 milhões de dólares por ano.

Os habitantes de San Juan de Yanayacu sabem disso, e por isso eles têm uma cocha (palavra quíchua usada na região, que significa lagoa) destinada somente para a reprodução desta espécie. Os grandes problemas são a pesca furtiva, falta de respeito à proibição da pesca e a falta de incentivo para este econegócio.

Situação similar é a da riqueza madeireira, que caminha entre a legalidade e a ilegalidade. As 71,8 milhões de hectares de florestas peruanas teriam um grande potencial se fossem explorados de maneira sustentável. Atualmente, no entanto, representam apenas 1% do PIB, mas o mais preocupante é que existe uma grande quantidade de atividade madeireira ilegal, que funciona clandestinamente ou na base da corrupção.

A Environmental Investigation Agency, organização independente que faz pesquisas ambientais no mundo inteiro, denunciou no ano passado que, entre 2008 e 2010, mais de 100 embarques com madeira de origem ilegal foram enviados do Peru aos Estados Unidos. Durante o processo, com certeza, não foram respeitados os planos de manejo que tornariam esta atividade sustentável. Ao mesmo tempo os direitos de comunidades nativas foram violados.

Futuro (e o presente) sustentável

Miguel Tang, diretor do Programa de Economias Verdes da Associação Amazônicos pela Amazônia, ensina mais um princípio para que os econegócios amazônicos funcionem: “para manter a produção natural/recuperação das espécies de interesse comercial, é necessário intervir sobre o ecossistema que estas espécies requerem, garantindo ao mesmo tempo a conservação deste ecossistema”.

Isso deveria funcionar para o huicungo, para a criação de peixes ou para a conservação dos ecossistemas naturais onde vivem, para manter a floresta em pé, para que o ecoturismo seja possível. Seja como for, um assunto central é a atuação do Estado para impulsionar, com mais força, estes econegócios.

No Ministério do Ambiente, que participa do Programa Nacional de Promoção de Biocomércio, afirma-se que existe a disposição para fazê-lo, e que está sendo debatido como seria um “crescimento verde”.

Para aqueles que acreditam que a economia e ecologia são dois ventos da mesma viagem, na Amazônia, o grande empório da biodiversidade do Peru, as políticas políticas públicas deveriam chegar aos seus esforçados eco-empreendedores.

*Texto publicado originamente em www.valorandonaturaleza.org

*Traducción por Ramiro Escobar