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Entardecer na RPPN SESC Pantanal. Foto: Haroldo Palo Jr./SESC Pantanal

Leopoldo Garcia Brandao era uma personalidade respeitada no setor florestal que conheci quando eu era novata. Ele trabalhava com reflorestamento e se tornou famoso no setor pelo que fez na gestão da área de desenvolvimento da então Aracruz Florestal. Eu trabalhava em área de certo modo oposta à dele, cuidando das matas, no Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (precursor do IBAMA) e confesso que não lhe era simpática. Anos mais tarde, com civilidade, nos enfrentamos nas reuniões do CONAMA, do qual ambos éramos membros.

Qual não foi minha enorme surpresa quando, tempos depois, prestes a deixar o IBAMA, ele me ofereceu uma consultoria. Por telefone, explicou que o assunto era “ver o que fazer com as enormes fazendas que o SESC Mato Grosso comprara” no Pantanal de Barão do Melgaço.

Tenho título de cidadã pantaneira e amo aquele espetacular bioma. Assim, embora apreensiva, aceitei a oferta tentadora. E lá fomos, Leopoldo e eu, visitar e sobrevoar as áreas das tais fazendas. Ele me dizia: “tome fotos, registre tudo”. Não tenho dúvida, já antevia o que eu iria propor.

Ousadia

"Pela importância e tamanho, a RPPN foi reconhecida como um Sitio RAMSAR pela convenção de zonas úmidas e ficou conhecida como a área melhor manejada entre as unidades de conservação do Brasil"

Depois de várias reuniões com o SESC local e nacional, Leopoldo apresentou a seus superiores -- leia-se Antônio de Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comercio (CNC) -- a proposta de criação de uma enorme reserva particular do patrimônio natural (RPPN). A direção do SESC foi pega de surpresa, mas Leopoldo era respeitado e expôs a ideia com convicção. Ademais, soube se assessorar de grandes cientistas das Universidades Federais de Mato Grosso, Rio de Janeiro e Brasília. Era incansável.

A cerimônia de reconhecimento oficial da RPPN SESC Pantanal contou com a presença do então Presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas criar esta área protegida não foi o fim da história. Leopoldo foi muito além. Passou a visitar universidades e instituições de pesquisas, e com assessoria do ornitólogo Dr. Paulo Zuquim Antas e da Dra Eimiko, da EMBRAPA, e do doutor Flamarion, da UFRJ, dentre outros, fez um plano para a realização de 40 pesquisas na RPPN, começando com as araras azuis e vermelhas, proposta de Zuquim.

Urgia preparar o plano de manejo da reserva, e Leopoldo escolheu outra vez Paulo Zuquim para liderar a preparação do documento. Tive a honra de participar da excelente equipe multidisciplinar que produziu o plano de manejo.

Leopoldo não era um especialista no assunto, mas lia cuidadosamente tudo que lhe entregavam, fazia reuniões de pesquisadores. Com o apoio do Valdir e Maron, contribuiu para desenvolver toda a magnifica infraestrutura de visitantes que o SESC implementou na RPPN, bem como para medidas sociais inéditas ali. Por exemplo, O SESC de Poconé vende ao hotel do SESC toda a produção de mel, de pupas de borboletas, que se produz pelas comunidades locais, além de empregar guardas e o pessoal do combate aos incêndios, também das pequenas cidades ou vilas do entorno.

Sucesso merecido

O SESC por lá é benquisto e com total razão: mantém uma área protegida de cem mil hectares bem manejada e com toda a infraestrutura necessária. É mesmo surreal. Tem um lindo Centro de visitantes, postos de fiscalização, borboletário, abrigos para pesquisadores, trilhas interpretativas e publicações com fotos do excelente Haroldo Palo Jr.

Pela importância e tamanho, a RPPN foi reconhecida como um Sitio RAMSAR pela convenção de zonas úmidas e ficou conhecida como a área melhor manejada entre as unidades de conservação do Brasil, onde não faltam recursos financeiros e humanos.

Quem conseguiu fazer o SESC chegar lá? Leopoldo. O mesmo homem que após três dias de UTI ia visitar a sua magnifica e incomum obra, passando toda série de apertos como estradas ruins, pontes caindo e clima insuportável na época das queimadas. Mas ele era incansável.

Ganhou o Brasil, o Pantanal Matogrossense, as Universidades, a Confederação Nacional do Comércio, todos nós.

Infelizmente Leopoldo morreu sem um reconhecimento oficial de seu enorme e significativo trabalho para a conservação da natureza.

Sua falta já se faz sentir ao constatar que talvez o manejo da RPPN não seja mais tão criterioso como o que ele impôs, ou da falta das pesquisas que estimulou na região, como a das araras azuis, que, hoje, apresentam hoje um grau de mortalidade assustador e pouco estudado.

Homens únicos como ele fazem falta. Fui testemunha de sua obra e quero deixar o meu muito obrigada, querido amigo. Ao mesmo tempo, também rezo para que as regras não sejam mudadas, mas que evoluam para melhor. O nome e a credibilidade do SESC assim o merecem.

 

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