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O Papaio-charão chega nos municípios de Urupema, ou Painel ou São Joaquim quando da época dos pinhões. (foto Jaime Martinez)

O Papaio-charão chega nos municípios de Urupema, ou Painel ou São Joaquim quando da época dos pinhões. (foto Jaime Martinez)

Todo ano, o estado de Santa Catarina recebe, sem as honras merecidas, um enorme exército de vociferantes soldados verdes e vermelhos, como as cores da bandeira do estado que invadem. São milhares, dizem que até 10.000 bravios guerreiros e guerreiras, que, como se descreve nas novelas épicas, cobrem o céu com seu voo e ensurdecem os inimigos com seus cantos de guerra. Exagero? Não. Não é possível exagerar quando se observa de perto a chegada triunfal dos papagaios “charões” (Amazona pretrei) nos municípios de Urupema, ou Painel ou São Joaquim quando da época dos pinhões, que a nossa espécie tanto gosta de comer, concorrendo assim com os bichos.

Isso mesmo. Milhares de papagaios em várias e contínuas nuvens ao entardecer e ao amanhecer, podem ser observados, especialmente ouvidos e até fotografados, de longe ou de perto, com grande facilidade se a gente consegue estar moderadamente abrigada contra o frio, de março a julho de cada ano. É um espetáculo que impressiona a qualquer um e que comove até aqueles que já viram congregações de milhões de aves marinhas nas costas do Peru, ou de milhares de flamingos rosa nos lagos do Quênia. Claro é que esse espetáculo ímpar não tem nenhum impacto nas cascas duras, duríssimas, das autoridades estaduais e até municipais. Os trompetes estridentes dos verdes soldados do ar clamando por suas florestas de araucárias e por um pouco de atenção não os perturbam.

Um enorme exército de vociferantes soldados verdes e vermelhos. Foto: Jaime Martinez

Um enorme exército de vociferantes soldados verdes e vermelhos. Foto: Jaime Martinez

As autoridades desconhecem o fato, bem como a mídia em geral e como os próprios catarinenses, de que a visita anual dos charões é uma benção para a região. Não há visitação pública, nem mesmo grupos de observadores de aves para um acontecimento natural tão espetacular. Os governos estadual e municipal “vendem” com grande custo e com muito alarde, na mídia, a neve, o frio, a época dos pinhões, e promovem uma série de feiras, festas, festanças, comedeiras e bebedeiras. Nenhuma dessas preclaras autoridades e pessoas importantes teve a sensibilidade, nem sequer o olfato comercial de aproveitar um espetáculo natural que, como esse, é único no planeta: os charões, pois fazem a maior concentração de papagaios conhecida no mundo!

De Binóculos, uma observação dos bandos de charões. Crédito: Marc Dourojeanni

De Binóculos, uma observação dos bandos de charões. Crédito: Marc Dourojeanni

Os papagaios charões, considerados ameaçados de extinção, disputam o mesmo alimento com a nossa espécie, quando da maturação da saborosa semente de araucária, espécie também em processo de extinção em nossa natureza. Podem voar até 70 km por dia à procura desse que é seu principal alimento, embora comam também sementes de podocarpos ou pinheiro bravo e poucas outras. Ao entardecer se reúnem em bandos grandes, que parecem nuvens e fazem uma parada em determinadas florestas remanescentes de araucárias. Ao amanhecer, se reúnem em locais predeterminados, como para receber as ordens do dia que emanariam de um comando supremo, e após se acumular nesses locais, a ordem de largada é dada e imediatamente obedecida e festejada com uma gritaria infernal.

Há algumas décadas esse fenômeno era bem conhecido no estado de Rio Grande do Sul, no município de Muitos Capões. O governo federal, por indicação de especialistas até criou a Estação Ecológica de Aracuri Esmeralda, com o objetivo de proteger a espécie, sua alimentação e seu pouso. Essa Estação Ecológica foi estabelecida no ano de 1981 com apenas 277 hectares, pois ainda contava com as florestas vizinhas. Como os ambientes no entorno da Estação Ecológica foram desmatados e profundamente alterados não apresentaram mais condições para abrigar os papagaios. Assim eles se mudaram na época de sua alimentação com pinhões para o já privilegiado estado de Santa Catarina.

Importante é saber que a espécie é uma das poucas de papagaio que faz uma migração anual regular. Os papagaios ficam de junho a janeiro no estado do Rio Grande do Sul para a sua reprodução. Em princípios de janeiro começam a abandonar sua área de reprodução e começam sua migração para o sudeste de Santa Catarina. No outono todos os bandos já migraram e realizam uma enorme reunião, uma verdadeira jamboree, nos pinheirais do Planalto Central Catarinense, onde ainda existem os pinheirais nativos. Depois de sua farta alimentação se dispersam novamente voltando em sua grande maioria para o estado do Rio Grande do Sul e formam casais, que são monogâmicos e estáveis.

O charão, apesar de seus elevados números, é uma espécie ameaçada que depende para a sua existência de florestas também ameaçadas. Foto: Marc Dourojeanni

O charão, apesar de seus elevados números, é uma espécie ameaçada que depende para a sua existência de florestas também ameaçadas. Foto: Marc Dourojeanni

O charão, apesar de seus elevados números, é uma espécie ameaçada que depende para a sua existência de florestas também ameaçadas. Felizmente há uma equipe de cientistas que trabalham há anos no Projeto Charão da Universidade de Passo Fundo, com a Associação dos Amigos do Meio Ambiente e com recursos da Fundação Grupo Boticário para a Proteção da Natureza, liderada pelo biólogo Jaime Martinez, o especialista nos charões. Graças a essa equipe e ao Projeto Charão, muitas medidas fundamentais para o conhecimento e a consequente proteção da espécie foram e estão sendo tomadas. Muito há que se fazer, todavia para a proteção de ambientes naturais com as araucárias. Além da proteção desses habitats e ecossistemas, há que se evitar a todo custo a comercialização ilegal dos animais e estabelecer-se regras para o turismo, em especial para os bird watchers, ou observadores de aves. Os municípios de Urupema e Painel precisam se preparar adequadamente para receber turistas, em especial aqueles que gostam da natureza e de seus espetáculos.

Que as ocorrências de espetáculos naturais sejam ignoradas pelas autoridades constituídas não é nenhuma novidade no estado. É, ao contrário, uma tradição, como, por exemplo, com as baleias francas, que chegam à época do inverno e permanecem por aqui até outubro e não há um serviço adequado de avistagem de baleias para o turismo receptivo. Sobre as baleias eu até já tive a oportunidade de escrever aqui no próprio (o))eco. O maravilhoso Parque Estadual da Serra do Tabuleiro está abandonado à própria sorte e seguramente algum poderoso local já está tramando uma nova redução da sua área.

O Estado de Santa Catarina, seus municípios e seu povo devem se preparar para, no próximo ano, receber dignamente a seus verdes e gritantes visitantes. Devem tomar todas as medidas necessárias para que as belas araucárias sejam preservadas, para que os hotéis, pousadas e restaurantes estejam prontos, para que os guias estejam capacitados para mostrar os verdes visitantes sem perturbá-los. Em suma, preparados para aproveitar essa maravilha da natureza sem matar “o papagaio dos ovos de ouro”.