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Guarda-parque enfrenta o fogo no Parque Nacional da Tijuca. Foto:

Guarda-parque enfrenta o fogo no Parque Nacional da Tijuca. Foto:

Gestores ou promotores da conservação da natureza por meio do estabelecimento, defesa e bom manejo das áreas naturais protegidas, nós com frequência esquecemos que o nosso trabalho vale pouco ou nada sem o esforço extraordinário dos guarda-parques. Esses homens e mulheres lutam pelos mesmos ideais, mas o fazem onde o risco é máximo, ou seja, desde as trincheiras, onde muitas vezes sacrificam as próprias vidas. Nas últimas duas décadas foram assassinados 79 guarda-parques latino-americanos por defender o patrimônio natural das suas nações. Pode não parecer muito, mas deve se levar em conta que a extensão de suas fileiras: são poucos os guarda-parques. Proporcionalmente a cifra representa mais do que a dos policiais falecidos em serviço. E nessa triste lista não estão os que morreram devido a acidentes de trabalho.

É fácil para nós, os que somos "chefes" ou "intelectuais", opinar ou tomar decisões sobre as áreas naturais protegidas. Tampouco é difícil visitar as áreas naturais e até fazer trabalho de campo, pois a todo o momento somos assistidos pelos guarda-parques e outros funcionários que nos guiam e informam, carregam nosso equipamento, nos alimentam e cuidam, sempre com um sorriso, com gentileza e humildade. Chamamos o que fazemos de "nossa luta", e isso é verdade. Mas o pessoal de campo fica lá quando vamos embora. Ficam com pouca ou nenhuma comodidade, sem informação nem capacitação atualizada, com salário exíguo e atrasado, sem equipamento adequado nem combustível suficiente e, pior, sem boa cobertura e assistência médica e, quase sempre, sem proteção legal. A parte mais dura e decisiva da luta pela conservação da natureza é a deles, dos guarda-parques.

"Nas últimas duas décadas foram 79 os guarda parques latino-americanos assassinados por defender o patrimônio natural das áreas naturais protegidas."

Apenas duas semanas atrás, um guarda-parque da Reserva Nacional de Paracas, no Peru, teve graves queimaduras em 60% do corpo enquanto controlava um incêndio. Na área prevista para ser o futuro Parque Nacional da Serra do Divisor, no lado peruano, outro guarda-parque mostrava a uma equipe de jornalistas como ele, sozinho no setor, devia enfrentar dúzias de operários de uma empresa madeireira que está abrindo ilegalmente uma estrada. Frente ao imponente maquinário da empresa, ele dispõe apenas de uma motocicleta velha, remendada com fios de arame e quase sem gasolina, que ele paga do seu bolso. Essas são situações que os guarda-parques vivem no dia a dia, em toda a região. Mas, na hora dos prêmios e reconhecimentos, eles raramente são os escolhidos.

Felizmente os guarda-parques latino-americanos têm feito esforços significativos para se organizar, tanto ao nível nacional como internacional e estão progressivamente conseguindo mais atenção e melhores condições para o seu trabalho. Os guarda-parques argentinos, agrupados na Asociación de Guardaparques Argentinos foram os pioneiros do boletim "Áreas Protegidas ...y Guardaparques" , que logo congregou outros veículos de comunicação de guarda parques, como "Amigo Guarda", do Peru, a Rede de Manejadores, da Bolívia, os Guardaparque de Chile e de outras publicações virtuais como "Guardaparques" e "Guardaparques sin Fronteras". Produzido sem apoio nem recursos, o Áreas Protegidas ...y Guardaparques já está no seu 17º volume anual e dispõe de 161 números publicados. Lê-lo, revela a magnitude do esforço dos guarda-parques e, acima de tudo, seu compromisso pessoal e engajamento na imensa e mal compreendida tarefa de salvar espaços naturais e a diversidade biológica da cobiça e imbecilidade humanas. E, de outra parte, é uma excelente fonte de dados de interesse acadêmico sobre o tema da conservação da natureza na América Latina.

"Nós os intelectuais da conservação devemos lembrar em todo momento que, sem os guarda parques, todos os nossos esforços não passariam de boas intenções."

Não é raro que os guarda-parques sejam antigos madeireiros, caçadores, pescadores e até garimpeiros. Muitos são indígenas ou caboclos. Quando compreendem a importância da nova missão, eles aplicam toda a sua experiência de convivência com a natureza para defendê-la. Outros são de origem mais urbana. Mas, todos amam com paixão o que fazem. Em alguns países, como a Argentina, a profissão de guarda-parque é institucionalizada em escolas e centros acadêmicos ad hoc. Lamentavelmente, na maioria dos países da América Latina os guarda-parques são formados casuisticamente, na base de cursos curtos em função da demanda e, em geral, de modo precário. Suprem as deficiências de treinamento com a experiência prévia ou com aquela que se acumula em convivência com a realidade do campo. Ademais, costumam absorver ávidos toda informação que lhes é proporcionada pelos funcionários e cientistas com quem trabalham.

Esta nota é apenas uma pequena amostra do meu reconhecimento e gratidão para com as dúzias de guarda-parques que conheci nas áreas protegidas da região. São lembranças de muitas caras de gente simpática, sempre orgulhosos da área em que trabalham e a qual protegem, como da contribuição que fazem e que, muitas vezes, eles mesmos, modestos, subestimam.

Temos obrigação de nos empenhar para que os guarda-parques sejam mais valorizados, recebam treinamento de qualidade, meios para trabalhar, segurança médica e legal no serviço, salários coerentes com a sua função e, sobretudo, carreiras profissionais com oportunidades de crescimento pessoal. Não nos esqueçamos que, sem eles, todos os nossos esforços não passariam de boas intenções.

 

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