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Se fosse hoje, São Bonifácio, a quem credita-se a invenção da árvore de Natal, iria preso. A lenda conta que no ano 800, em localidade onde hoje é a Alemanha, o santo andava por um bosque quando viu um grupo praticando um velho hábito pagão no Norte da Europa da época, a adoração de árvores. Teve um xilique. Pegou um machado e saiu golpeando todos os troncos que viu pela frente. Quando o ataque passou, no meio da clareira recém-aberta, brotou um pinheirinho. Bonifácio, talvez prestes a ser trucidado pela turba ensandecida de adoradores de árvores, saiu-se com uma idéia genial. Inventou um milagre. Disse que a planta representava o nascimento de Jesus. E assim, bem num desmatamento, nasceu de Natal.

Apesar dessa origem ambientalmente incorreta, o sujeito que acha importante o respeito à natureza e acaba de montar uma árvore de Natal em casa não tem razão para se desesperar. A lenda de Bonifácio se presta também à uma leitura ecológica. Na verdade, depois de derrubar uma floresta, ele deu uma para ambientalista nenhum colocar defeito. Reciclou um ato pagão em ícone do cristianismo. Não valia à pena, talvez fosse até impossível, o esforço de jogar fora prática humana milenar. A história diz que existem registros de gente botando e reverenciando plantas dentro de casa para celebrar datas sagradas desde os egípcios.

Eram momentos em se homenageava deuses com poderes específicos sobre a natureza – de produzir boas colheitas a aplacar uma tempestade. De certo modo, festejavam um vínculo com seu meio-ambiente, outro argumento que pode servir para aplacar a culpa dos ecologistas no Natal. Ao longo dos milênios, a humanidade empregou plantas variadas para festejar divindades. No Egito, eram palmas. Em Roma, na Festa de Saturno, decorava-se as casas com galhos de árvores diferentes. Na região que um dia seria a Alemanha, colou para essas ocasiões o pinheiro. A idéia de decorá-lo também veio de lá.

Como se pode imaginar, há muita lenda em torno da lenda original para explicar porque as pessoas passaram a pendurar objetos m suas árvores de Natal. Todas são piegas. A melhor explicação é a que apela para o fato que foi entre os germânicos que a indústria de vidro – matéria prima das primeiras decorações – se desenvolveu primeiro na Europa. Durante muito tempo, suas guildas eram as únicas capazes de produzir vidros de diferentes formas, tamanho e cores.

Aparentemente, subir uma árvore de Natal como conhecemos hoje, cheia de penduricalhos, partiu de algum fazedor de vidro e sua família e virou uma mania à moda antiga: sem qualquer campanha de marketing. Aconteceu simplesmente porque todos aqueles vidraceiros juntos foram achando que era uma boa idéia. Para tomar o resto da Europa e do mundo, a árvore de Natal teve que fazer escala no mundo anglo-saxão. Naquele tempo já funcionava a máxima que para ser global voce precisa falar inglês. Ela apareceu nos Estados Unidos com soldados mercenários alemães que lutaram do lado dos inglêses na guerra da independência. Mas não aconteceu.

Foi só em meados do século XIX que a árvore de Natal deu seu salto definitivo em terras anglo-saxãs. Coincidiram dois fatores. O primeiro era puro marketing. Vitória, rainha da Inglaterra, casou-se com o príncipe alemão Albert e isso colocou o pinheiro decorado dentro do Palácio de Buckingham e, gradativamente, dentro de cada casa do império britânico. O segundo, criou mais mercado. Com as levas de imigrantes alemães para a Pensilvânia e Illinois na mesma época, a árvore de natal criou raízes nos Estados Unidos.

Em 1920, tinha virado um símbolo praticamente universal no país. Não havia lar que não tivesse a sua. Daí para o resto do mundo, foi um pulo. Depois da II Guerra Mundial, o domínio americano sobre o planêta se estendeu também à árvore de Natal. Foi de lá que passaram a sair a maioria dos enfeites e a estética do pinheiro natalino. Na década de 60, os americanos começaram a testar pinheiros artificiais. O primeiro a fazer sucesso foi o de alumínio. Não durou muito. Na década seguinte, os pinheiros de plástico apareceram e num assalto lento e gradual, començam a desbancar seu modelo natural, que aliás tem muito pouco de natural. Faz tempo que não se arranca árvore de Natal de um bosque.

A primeira notícia que se tem de uma fazenda dedicada a produzir árvores de Natal é de fins do século XIX, quando um sujeito que vendia o produto todo o fim de ano em Nova Iorque percebeu que era mais vantajoso plantá-lo do que ir buscá-lo numa floresta. Numa fazenda, o pinheiro podia ser moldado pela mão do homem, ganhando tamanho e peso uniformes. Facilitava transporte e padronizava a cadeia de produção de enfeites natalinos. O pinheiro teve que ficar com simetria perfeita demais para a natureza. Esse modelo foi seguido à risca pelos fabricantes das árvores de plástico.

O salto real do plástico no mercado, o que deixou os fazendeiros de pinheiros realmente preocupados, aconteceu nos últimos quatro anos, segundo o The Wall Street Journal. As vendas de árvores artificiais aumentaram 32% no período. Foram quase 10 milhões em 2003. É menos da metade do que venderam os pinheiros de fazenda, 23, 3 milhões, mas há entre as duas uma diferença fundamental, que conta pontos para o plástico. A comercialiação de pinheiros de fazenda encolheu 16% de 2000 para cá.

Os chineses, que pelo menos em teoria não entendem nada de Natal, são os maiores fabricantes do mundo de árvores artificiais. Fazem galhos hoje em dia que se prestam a mais que dependurar bolas, estrelinhas ou sinos. Graças a chips de computador, há os galhos que cantam canções natalinas, os que contam as horas, minutos e segundos que faltam para a chegada do ano novo e os que até provocam uma nevasca em miniatura dentro de casa. A soma de China – garantia de preço baixo – com vida longa e tecnologia parece ser a chave do sucesso de público.

Talvez não seja bem o pinheiro natalino que São Bonifácio tinha na cabeça quando inventou toda essa história. Mas ainda quebra o galho. O milagre do santo foi dar um novo significado ao fascínio do homem pela natureza, pondo religião numa manifestação pagã. O pinheiro natural foi apenas um detalhe. O plástico também é outro detalhe para a legião de pessoas que vai aderindo ao plástico para enfeitar seu dezembro. Elas só querem continuar seguindo a milenar tradição humana de adorar árvores.