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Rinocerontes mortos por caçadore em unidade de conservação na África do Sul. Foto: Tim Condon/Oxpeckers

Rinocerontes mortos por caçadore em unidade de conservação na África do Sul. Foto: Tim Condon/Oxpeckers

De um lado, 663 rinocerantes tombados por rifles, suas presas mutiladas e as carcaças abandonadas na savana. Do outro, 133 caçadores presos pelas autoridades sul-africanas, muitos deles sob a mira de guardas com treinamento de soldados do exército.

O palco da batalha é a principal área protegida da África do Sul, sua atração turística mais visitada: o Parque Nacional Kruger. Mortes e prisões dizem respeito somente ao ano de 2013. Se contadas desde 2010, serão 1463 as perdas entre os rinocerontes e 335, as prisões entre os caçadores.

As últimas estatísticas sobre a caça de rinocerontes foram divulgadas há uma semana pelo governo da África do Sul e confirmaram que a vantagem segue nas mãos dos criminosos. Em todo país, no ano passado, o número de animais mortos chegou a 1004, contra os 668 registrados em 2012. Os números se tornam ainda mais alarmantes se comparados com o balanço de 2010, quando os dados começaram a ser divulgados. Naquele ano, o total foi de 333 mamíferos assassinados.

Os guardas-parques andam fortemente armados e não poucas vezes terminam alvejando os invasores. No último dia 20, um alerta da polícia local chegou aos jornalistas de que os “rangers” haviam matado quatro suspeitos de caça ilegal. Poucos horas antes, outros três já tinha sido derrubados em uma perseguição a um grupo de 6 caçadores. Como notícias de um verdadeiro front de batalha, no mesmo dia soube-se que 46 carcaças de rinocerontes foram encontradas dentro do parque.

A razão para tamanha barbárie é o valioso chifre, exportado aos mercados do Oriente Médio e Ásia, onde é empregado como símbolo de virilidade ou em miraculosas curas da medicina não tradicional. Um especial da TV pública americana mostra que as curas prometidas carecem de suporte em pesquisas recentes. Mesmo assim, como ocorre com outros animais perseguidos por suas garras (tigres), barbatanas (tubarões), bile (panda), o consumo de elixires no oriente empurrou o rinoceronte para as fronhas da extinção.

E não apenas na África: o rinoceronte de Java (Rhinoceros sondaicus) está criticamente ameaçado com uma população estimada de 40 a 60 indíviduos. O rinoceronte indiano (Rhinoceros unicornis) está na lista vermelha da IUCN como vulnerável. Sua população somava apenas 370 exemplares há 10 anos, mas desde então acredita-se que haja um incremento. No sul do continente africano, onde apesar do turismo e a caça regulamentada, a sanha desenfreada pelos chifres coloca em ameaça populações que estavam se recuperando graças a ações em cativeiro. O rinoceronte branco (Ceratotherium simum) com sua população de cerca de 20 mil indíviduos está perto de estar ameaçada, segundo a Lista Vermelha. Já seu parente, o rinoceronte negro (Diceros bicornis), está criticamente ameaçado, graças a uma redução de 98% da população desde os anos 60. Hoje restam 4800.

A guerra dos rinocerantes, como já é chamada a carnificina, tem sim contornos bélicos de escala global, não muito diferente das redes clandestinas e das máfias internacionais que operam carteis de droga. As investigações mostram que o principal mercado comprador é o Vietnã, responsável por distribuir o insumo a outros países da Ásia. A escolha do Kruger como fonte de exploração está ligada a sua proximidade com a fronteira com Moçambique, a porta de saída dos chifres ilegais. Em ambos os países, os governos foram recentemente elogiados por introduzirem medidas de controle, porém os resultados efetivos ainda são esperados.

No front de batalha está uma jornalistas mais experientes na cobertura de temas ambientais que eu jamais conheci, Fiona MacLeod. Após anos trabalhando liderando investigações para o Mail&Guardian, um dos principais diários sul-africanos, ela decidiu criar sua própria agência dedicada a noticiar cada fato e desdobramento da guerra dos rinocerantes.

Para tanto ela esta aglomerando reportagens sob investigações maiores com nomes sugestivos como “Chinese Links”, "Mozambique Links" ou "US Links", para mostrar a escala global do comércio clandestino das presas retiradas dos animais na África do Sul.

Em outubro do ano passado, durante uma conferência de jornalismo investigativo no Rio de Janeiro, foi lançado o site do Centro de Investigações Oxpeckers (homenagem a um pássaro comum na savana africana). A missão similar a que deu origem a O Eco acabou nos aproximando de Fiona e seu projeto. Através de nosso lab de inovação em jornalismo ambiental, nosso time de designers e desenvolvedores ajudou a criar o site de Oxpeckers, no qual se pode ver em um mapa interativo (veja abaixo) as últimas estatísticas de caça ilegais e prisões, bem como os últimos relatos sobre a batalha no campo.

 

 

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