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Flechas com ponteiras de pedra foram uma inovação tecnológica na pré-história. Permitiam mais eficiência nas caçadas, possibilitando até o abate de mamíferos de grande porte, o que proporcionava mais carne para comer com menos esforço e consequentemente provocava o aumento da população humana. Registros arqueológicos realizados nos Estados Unidos associam o uso dessas flechas com ponteira de pedras à chamada cultura Clóvis, povos que habitaram as Américas há 13.000 anos. O nome é por causa do primeiro sítio arqueológico que foi encontrado perto de Clóvis, Novo México.

Estudos revelam que esta civilização desapareceu também por volta dos 13.000 anos. Já foram encontrados fósseis de grandes mamíferos extintos, como mamutes, bisões e cavalos crivados dessas ponteiras de pedra. Estudos bem fundamentados cientificamente revelam que a civilização Clóvis desapareceu no mesmo período da extinção destes mamíferos de grande porte. É bem aceita na comunidade científica a hipótese de que os Clóvis praticaram a caça excessiva provocando o esgotamento deste recurso natural e sofreram as conseqüências em seguida.

Pesquisando na internet (com os termos: Clovis projectile point), verifica-se que os norte-americanos têm centenas de publicações de livros, teses de doutorado e artigos científicos sobre estas ponteiras de flechas e lanças feitas de pedra, que já são estudadas há pelo menos 80 anos. Eles têm também centenas de pesquisadores que se dedicam ou se dedicaram ao estudo destes artefatos, o que torna possível a humanidade conhecer sua história.

Quando eu era criança, um operador de trator-de-esteira, nosso vizinho, mostrou-me um punhado destas ponteiras de flecha que achou durante a construção de uma estrada em Santa Catarina. Eu fiquei impressionado com aquilo e ele gentilmente me deu uma que posteriormente foi furtada da gaveta da escrivaninha de meu quarto junto com minha coleção de moedas antigas, que tinha até duas moedas de prata, que obviamente foram o motivo da cobiça.

Mais tarde, descobri que, assim como nos Estados Unidos, em Santa Catarina também são encontradas uma quantidade muito grande destas ponteiras de flechas e lanças de pedra (ou “ponta de projéteis”, como preferem os arqueólogos). Na foto abaixo está uma pequena amostra dos estilos e tipo de rochas utilizadas. Ao contrário dos Estados Unidos, aqui sabemos pouca coisa sobre os grupos pré-históricos que há mais de 10 mil anos utilizavam esta arma mais eficiente para caçar, denominados pela arqueologia brasileira de “tradição Umbu”.

As imagens seguintes são de ponteiras de pedra recicladas pelos povos da cultura Clóvis, encontradas nos Estados Unidos. Revelam que a humanidade já faz reciclagem e reutilização de materiais há pelo menos 13 mil anos. A imagem logo abaixo mostra uma ponteira que foi reciclada pelo menos três vezes, e a imagem inferior mostra que a ponteira foi reciclada para ter uma outra utilização, como um perfurador ou raspador.

Será que realmente estamos ajudando a natureza fazendo a reciclagem? No exemplo acima, dá para perceber que não. No entanto, as pessoas acham que fazer reciclagem das embalagens dos produtos que consomem ajuda o meio ambiente. As campanhas na mídia influenciadas pelo comércio altamente lucrativo de basicamente dois tipos de embalagens de bebidas, latinhas de alumínio e garrafas PET contribuíram para iludir as pessoas e aliviar a consciência delas quando doam para o diretor da escola ou para os catadores aquelas sacadas de latas de cerveja consumidas nos finais de semana. Tem até escola pública que troca por nota estas latinhas de cerveja. Quanto maior a quantidade de latas, maior a satisfação das pessoas.

Matérias e artigos sobre a tal reciclagem de latinhas de alumínio inundam os espaços em revistas e jornais reservados ao meio ambiente. Mas todos omitem o lado sujo envolvendo a reciclagem de latinhas de alumínio, como por exemplo, os gases liberados e os resíduos altamente tóxicos (cancerígenos) da queima da tinta das latinhas no processo de fundição. Quando analisamos com uma visão mais ampla todo o processo percebemos que esta reciclagem de latinhas de cerveja não é diferente da reciclagem das ponteiras de pedra das flechas para poder matar mais bichos.

A prova de que isto é a pura verdade está nos dados dos próprios fabricantes de cerveja. O consumo de cerveja tem aumentado significativamente nos últimos anos e não para de crescer, fazendo com que a produção nacional das embalagens de latinhas de alumínio não atenda mais a demanda, o que obriga o setor a importar as latinhas vazias, em quantidades cada vez maiores (não é por falta do metal alumínio, mas a capacidade de produção). A mineração de alumínio, bem como o consumo de energia elétrica nunca diminuiu, aumenta sempre, sem parar.

Quando entregamos estas latinhas para serem recicladas, a conclusão que se chega é que só estamos ajudando as cervejarias a vender mais cerveja. A natureza – e a humanidade - sofreriam menos impacto se as latinhas fossem prensadas e armazenadas para sempre em algum lugar especial, já que espaço para guardar lixo adequadamente não é problema, considerando as extensas áreas que as prefeituras aprovam todos os anos para implantar novos loteamentos, visando atender a demanda sempre crescente de moradias para a população que não para de aumentar. Assim, poderia provocar aumento de preço e reduzir o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o que de fato contribuiria para ajudar o meio ambiente e a sociedade.

Se a humanidade quiser continuar sua trajetória de buscar a felicidade, bebendo cerveja (com moderação) ou de outra forma mais saudável, vai ter que mudar de caminho. Os povos da tradição Umbu já nos provaram de forma trágica isso há 12 mil anos na Mata Atlântica. Viver de forma sustentável não é reciclar (afiar) as ponteiras de flechas para matarmos mais bichos, ou melhor, saquearmos a natureza para atender a demanda de consumo de uma população humana que aumenta cada vez mais.

Referências sobre as ponteiras de flecha encontradas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo

Fúlvio Vinícius Arnt, Marcus Vinícius Beber e Pedro Ignácio Schmitz, Instituto Anchietano de Pesquisas –Unisinos (RS). Os assentamentos líticos dos caçadores da Mata Atlântica em Taió, Santa Catarina. Novembro 2006 

Mercedes Okumura e Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia, da USP. Uma nova abordagem quantitativa para a análise da variação morfológica em pontas bifaciais do sudeste e sul do Brasil. Novembro de 2010.