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Imagem de Satélite tirada no dia 24 de maio mostra a mancha de petróleo aproximando-se da costa (foto:NASA)

Imagem de Satélite tirada no dia 24 de maio mostra a mancha de petróleo aproximando-se da costa (foto:NASA)

Em uma manhã ensolarada de domingo acordei de bem com a vida, com o colesterol abaixo dos níveis de referência, as contas pagas e tentando fazer o primeiro filho. Daí decidi dar uma de maridão esperto e, sob o olhar carinhoso e agradecido da jovem esposa orgulhosa, inventei de instalar aquela prateleirinha branca na parede do banheiro. Foi mais pra inaugurar o kit furadeira Bosch. Assim que mirei cuidadosamente a broca 8 mm entre o reboco de dois azulejos direto num ponto quase que mentalmente georeferenciado... pimba!! Jorrou um jato de água fria que, se não tivesse parado no meu olho teria invariavelmente batido na parede oposta. Acertei em cheio o cano d’água do edifício. No desespero de evitar a molhadeira na virilha e no tapete do corredor, a bronca da mulher e a censura do síndico minha reação foi imediata e involuntária. Em questão de segundos meti heroicamente o mata-piolho no buraco pra estancar a hemorragia aquática descontrolada. Ali fiquei p. da vida em pé, com cara de bocó e escravo da própria burrada enquanto minha cúmplice no episódio buscava na lista amarela o socorro de um encanador 24 horas. Ele chegou duas horas depois que eu (muito esperto!) substituí meu dedo por um cabo de escova de dentes enrolado num pano de chão imundo.

Agora imaginem um vazamento enorme e descontrolado de óleo cru de um buraco no fundo do Golfo do México, com temperaturas congelantes e uma pressão capaz de esmagar um botijão de gás em milésimos de segundos. Multiplique por 100 o mesmo clima emocional gerado pelo episódio doméstico do meu banheiro. É mais ou menos assim o da diretoria da BP. Não é a virilha nem o tapete do corredor, é todo o mar do Golfo de México (por enquanto); não é a bronca da mulher ou a censura do síndico, é toda a comunidade internacional. Ambientalistas, políticos, empresários e milhares de comerciantes ao longo da costa sul dos EUA cobrando soluções e reparações pessoais e coletivas.

No caso da BP a preocupação com o vazamento foi inicialmente mais financeira, como em toda empresa privada que se preza, deixando as questões do impacto ambiental por conta do otimismo de uma solução rápida do problema antes que ele fugisse do controle. Só que agora no mundo globalizado e mais transparente, sobretudo pela divulgação em massa das informações via internet, todos os setores da sociedade civil global, governos e empresas, são cobrados diariamente pela prática da responsabilidade socioambiental e, para a infelicidade financeira e pública da BP, a censura internacional vem crescendo a cada dia com a demora da solução. Cedo ou tarde ela vai aparecer, mas o problema não para por aí.

Só está começando. As consequências ambientais e o impacto no ecossistema marinho ao redor do Golfo são irreparáveis, pelo menos a curto prazo. O meio ambiente ainda se convalesce de vazamentos históricos nas últimas décadas em todo o mundo, com os mais de 30 milhões de litros do “ExonValdes” no Alasca em 1989, os cerca de 100 km de costa da Namibia contaminados por vazamento de um barco de pesca afundado em 2002, os mais de 7 milhões de litros do petroleiro “Prestige” na Espanha em 2002 e, o pior dos piores, os vazamentos crônicos da desastrada e corrupta exploração petrolífera da Nigéria que só em 2009 despejou mais de 13 bilhões de litros de óleo cru no delta do rio Niger e emporcalhou campos agrícolas e pesqueiros tradicionais. Esse a mídia internacional não clama nem reclama (?!).

Mesmo vazamentos pequenos ocorridos há décadas em regiões costeiras ainda deixam pistas no óleo acumulado no sedimento de marismas e manguezais em todos os continentes. Sim, o óleo no mar se dispersa, volatiliza, sedimenta ou é transformado químio- e biologicamente (bactéria adora petróleo, pode?). Mas deixa resquícios de contaminação na teia alimentar com hidrocarbonetos e metais pesados. Sem falar no impacto das alterações físicas e químicas da água devido à lambuzeira geral. Esta é visível a olho nu, seja no pelo e penas dos animais marinhos que sufocam e (haja fígado!) se intoxicam até a morte, seja na pele dos comerciantes que sofrem com a queda do turismo em suas praias emporcalhadas de piche.

Mas de quem é a culpa, afinal? Apenas da BP? Das indústrias petrolíferas? Ou da demanda mundial por energia ainda não renovável? É a velha hipocrisia da condenação de traficantes. Eles só existem porque alguém socialmente ou psicologicamente doente consome e paga caro pela droga. Não, a culpa é de toda a cadeia produtiva. E nós, coletivamente, somos responsáveis por tudo isso porque nos acomodamos na conveniência dessa dependência dos combustíveis fósseis como matriz energética. Primeiro o carvão, que abriu os caminhos para a Revolução Industrial, atualmente o petróleo e, se os alertas contra o aquecimento global decorrente da poluição atmosférica não mudarem os rumos da matriz energética mundial, o gás deve substituir o óleo (sorte da Bolívia e dos taxistas).

O fato é que ainda estamos na era do óleo e dependemos quase totalmente de sua exploração e do beneficiamento industrial de seus derivados. Olhe ao redor da sala, do ônibus ou de onde quer que você esteja agora, aponte qualquer coisa da qual você dependa direta ou indiretamente p’ra viver e sobreviver que não tenha o dedo do petróleo. E agora atire a primeira pedra. Por enquanto, somos todos culpados, mas podemos e devemos nos redimir por meio da mudança de comportamento e hábitos de consumo. Mas isso só vem no longo prazo, com a educação de várias gerações e a consciência coletiva sobre a importância de equilibrar bem-estar social e qualidade ambiental - seja no mar, seja na terra, seja no quintal da sua casa.

Texto originalmente publicado no caderno Aliás de O Estado de S. Paulo

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