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O recente artigo de Paulo Bessa sobre a criação de eco-limites murados em torno de favelas cariocas me lembrou da Vila Autódromo, uma favela de pequeno porte que surgiu e cresceu no início dos anos 90, nos poucos metros que havia entre o muro que cercava o autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e as águas da lagoa de mesmo nome. A situação foi insólita, porque, antes de mais nada, mostrou a incapacidade do governo em coibir a invasão mesmo de uma área plana que ficava à vista de todos e em um ponto turístico importante da cidade.

Na época, o autódromo de Jacarepaguá era a sede do Grande Prêmio Brasil de fórmula 1, transmitido para o mundo todo. Desde essa época, o automobilismo carioca não contava com mais de umas poucas provas por ano, fora das semanas em que o circo da fórmula 1 acampava, a pista e as arquibancadas passavam o resto do ano em estado de abandono. Quando março, o mês do GP, se aproximava, uma frenética atividade de manutenção tomava conta do lugar, envolvendo desde o corte de capim já atingindo a altura de um homem à recomposição dos bancos rotos das arquibancadas de estrutura de aço e assentos de tábua. Pode ser que a minha memória esteja me pregando peças, mas me lembro da história de um espectador que despencou da arquibancada pelo buraco de um desses assentos.

Por fora do muro do autódromo havia uma estrada que percorria todo o seu perímetro. Acho que foi o uso da mesma que impediu que a favela encostasse no muro. Mesmo a proximidade do clube da aeronáutica não criou temor de que um poder maior impedisse a invasão. Dessa forma, nesses tempos em que criar favelas era a política de habitação oposta a das remoções ocorridas durante a ditadura militar, a invasão dos terrenos e a construção de casas aconteceram de forma rápida e sem obstáculos.

Uma vez consolidada a invasão, logo em seguida, começaram os negócios. Já que a falta de qualquer limite era aparente e confiável, quem não ia querer, a preço de banana, um bom terreno com bela vista e à margem da lagoa?  As equipes de automobilismo que competiam no autódromo em geral tinham oficinas montadas em áreas próximas. Mesmo o limitado tamanho do esporte no Rio demandava o trabalho de vários tipos de prestadores de serviço de mecânica e guarda de carros de corrida e karts. Várias dessas pessoas recompraram terrenos dos invasores iniciais, na expectativa de um dia poder legalizá-los ou, na pior das hipóteses usufrui-los por uma temporada. Os que o fizeram mantiveram a aparência pobre e inacabada de construções informais.

Assisti tudo de perto, não por interesse, mas porque freqüentava as corridas de kart na pista secundária que ficava dentro do autódromo. Essa fase durou pouco e perdi de vista as transformações posteriores do local. Acompanhei o caso pelos jornais, quando o município ameaçou remover a favela. Depois, morei fora do Brasil. Olhando o Google Maps para escrever essa coluna, vejo que a favela está marcada no mesmo local em que a vi crescendo. Na foto de satélite aparecem várias casas com piscina. Segundo a mesma fonte, já existe até uma Associação de Moradores, Pescadores e Amigos de Vila Autódromo, com endereço e telefone marcada no mapa.

Moral da história, ou melhor, minha conclusão: se as regras públicas proíbem a construção em áreas de proteção ambiental (como beiras de lagoa) e ao mesmo tempo impedem a remoção sumária de transgressores, o resultado é que a proteção ambiental não passa de uma senha para a invasão. Bem frisado por Bessa, em situações como essa, muros de nada adiantam. Não passam de uma parede gratuita para as construções informais, nem sempre de pobres, fornecida como cortesia pelo Estado brasileiro.