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Sylvia Earle em Alcatrazes, com o Almirante Guerreiro, comandante do VIII Distrito Naval. Foto: Angela Kuczach.

Esta semana tivemos a passagem do tsunami Sylvia Earle. Em menos de 48 horas respirando o ar brasileiro, essa senhora de 82 anos foi recebida com honrarias pela Marinha do Brasil, recepcionada como Chefe de Estado pelo Presidente da FIESP, e absolutamente reverenciada no Palácio do Planalto. No rastro de tudo isso, sempre uma orla de fãs, fotógrafos, jornalistas, querendo um minuto de atenção, uma frase, uma foto, um autógrafo, um momento de atenção para agradecê-la por ser quem é, por fazer o que fez.

E o que fez Sylvia Earle?

Mudou o mundo, conforme o vemos.

Se você não se interessa por conservação marinha, mas já assistiu Titanic, viu o trabalho dela em ação: construiu o mini submarino que levou James Cameron até o fundo do mar, para ver de perto o naufragado navio. Ela também foi a primeira mulher a dirigir a NOAA (Agência de Administração Oceânica e Atmosférica Norte Americana), fundou a Mission Blue, ajudou o Google Earth a mapear todo o fundo do mar, é uma das Exploradoras da National Geographic, começou a mergulhar ainda na década de 1950 e desceu sozinha a mais de 1.000 metros de profundidade em um submarino individual. Com um submarino naval, desceu até 4,5 km de profundidade. Ela mesma fala que ao longo da sua vida passou mais tempo debaixo d’agua do que em cima, o que lhe conferiu o título de Her Deepness – Sua profundidade.

Sylvia Earle com conservacionistas brasileiras. Angela Kuczac, Marcia Hirota, Erika Guimarães e outras. Todas inspiradas pela primeira heroína do planeta.

Tive a honra e o privilégio de acompanhar sua visita ao Brasil nos 3 eventos que marcaram sua passagem pelo Brasil – visita ao Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes, lançamento do seu livro “A Terra é Azul”, na FIESP, e na audiência com o Presidente Temer para tratar da criação dos Mosaicos Gigantes de Unidades de Conservação marinhas. Aliás, fui a única mulher que esteve presente em todos os três momentos. Não obstante, apesar da honra do momento e da responsabilidade em representar um grupo de ambientalistas e cientistas muito competentes que trabalharam duro para que a vinda de Sylvia fosse possível, eu praticamente não consegui falar com ela... a voz embargava cada vez que eu chegava perto dessa gentil e doce senhora, que do alto dos seus não mais que 1,5 m é uma das figuras mais gigantes da nossa era.

Ouvi-la falar é uma lição de vida... a voz rouca, firme e pausada nos transporta para o fundo do mar, a simplicidade de sua mensagem é quase brutal: temos que conservar o oceano, o que der não importando o tamanho, porque nossa vida depende dele. Sem azul, não há verde, não há vida.

Durante esses dois dias, tive a oportunidade de ver autoridades dos mais diferentes setores e hierarquias ampliarem seus horizontes, serem transportados para um mundo que nem sabiam que existiam, e assentirem em concordância com o que Her Deepness lhes dizia, tal qual uma avó experiente educando com paciência e chamando à razão um neto rebelde. E sim, isso também vale para o Presidente Michel Temer.

Isso tudo já seria espantoso, mas há mais: Sylvia é feita de graça, doçura, gratidão e... otimismo! A pergunta que eu gostaria de ter feito, e que minha emoção não deixou, é: Como??? Como diante de um mundo tão vasto, conforme ela o conheceu, com tanta grandiosidade em biodiversidade, e que ela viu sendo destruído ao longo dos anos, o otimismo ainda está presente?

Esse foi o meu aprendizado, e que levarei para a vida.

Mãe dos Parques

Maria Tereza no Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais. Foto: Mariceia Pádua.

E se o mundo nos deu Sylvia Earle, nos demos ao mundo Maria Tereza Jorge Pádua. A Dama da Conservação, que traz consigo, nada mais, nada menos que o título da mulher que mais criou Áreas Protegidas NO MUNDO!

Nossa Maria Tereza, nascida e criada no interior de São Paulo, enfrentou desde cedo o desafio de habitar um mundo notoriamente masculino. Formada em Engenharia Agrônoma pela Universidade Federal de Lavras, na [época de sua graduação era uma das únicas quatro mulheres da graduação!].

Esteve a frente do processo de criação IBDF e do IBAMA. Foi fundadora da FUNATURA, Maria Tereza desbravou o Brasil e ficou a bandeira da conservação, onde antes ninguém tinha ousado ir. Com uma equipe mais do que reduzida, quando o IBDF ainda era uma Secretaria, que mal contava com mapas, foi ela quem, baseada na teoria dos refúgios do Pleistoceno, criou grande parte das UCs da Amazônia, o Parque Nacional do Pantanal, cuidou da maior parte do processo de regularização fundiária do Parque Nacional do Iguaçu, criou a maioria dos Centros de Pesquisa existentes até hoje em nosso país – como CEMAVE, Tamar e projeto peixe-boi, entre outros – e, pega de surpresa na cerimônia de criação do Parque Nacional de Grande Sertão Veredas, chorou a ponto de borrar a maquiagem. Quem a conhece sabe o que isso significa...

No todo, Maria Tereza ajudou a estabelecer mais de 8 milhões de hectares!!!

Quem hoje acompanha o estabelecimento de UCs, pode imaginar a dimensão desse feito.

Por seus feitos, Maria Tereza foi reconhecida com a Medalha John C. Phillips em 2016, no Congresso Mundial de Áreas Protegidas no Hawaii, um feito anteriormente alcançado apenas por uma mulher.

Maria Tereza no CBUC, em 2015. Foto: Marcio Isensee.

De Maria Tereza, além da conservacionista, admiro a completude: é uma mulher magnifica, mãe, esposa, avó, “ótima cozinheira” (palavras dela!), vaidosíssima, elegantíssima, linda, gentil, absolutamente sem papas na língua e de uma classe invejável.

Essa semana ela me chamou de sua “filha ecológica”, e essa foi a minha Medalha John C. Phillips particular, que não sei se mereço, mas que de agora em diante passa a ser meu Norte para lutar mais por nossas áreas protegidas com mais força, competência e garra...

Olhando para essas duas belíssimas senhoras, vivenciando e vendo de perto os desafios que as mulheres dedicadas à conservação enfrentam, minha admiração por elas só cresce. Fico aqui me perguntando que se hoje a vida de uma mulher que ouse ser uma liderança na sua área já é desafiadora, como era quando elas iniciaram sua jornada?

Talvez a palavra que defina tudo isso seja: entrega. Tanto Sylvia Earle quanto Maria Tereza Jorge Pádua são duas inconformadas. Não admitem olhar para o mundo e se resignar a destruição do ambiente natural tal qual acontece. Não aceitam desculpas, não se conformam com o que aí está, e muito menos com o caminho mais fácil. Isso e um cérebro privilegiado que usam com maestria.

Olhar para essas mulheres fantásticas, que ocupam o topo do meu panteão de heroínas, é como uma parada no meio de uma corrida para recuperar o fôlego.

Somos reconhecidas como boas executoras, organizadas e responsáveis, mas ainda temos que trabalhar três vezes mais para ter o destaque, que às vezes um homem tem de graça. Temos que falar mais rápido para não sermos interrompidas no meio do raciocínio em uma mesa de reunião e frequentemente correr na frente para garantir um lugar na foto, ainda que na terceira fileira.

Olhar para essas mulheres fantásticas que transformaram o nosso mundo é compreender que para aquelas de nós que não abaixam a cabeça para a ditadura do “socialmente estabelecido”, há um lugar que o conservadorismo do mundo não nos alcança.

Com toda minha gratidão,

Angela Kuczach

Diretora Executiva da Rede Nacional Pro Unidades de Conservação

PS: este artigo é dedicado a Marcia Hirota, Leandra Gonçalves, Renata Leite Pitman, Patricia Medici, Niede Guidon, Erika Guimarães, Claudia Campos, Zelia Brito, Elenise Sipinski, Bianca Reinert, Vitoria da Riva e tantas outras brasileiras que todos os dias têm suas jornadas duplas, triplas e, mesmo assim, dedicam suas vidas a um mundo mais verde e azul.

 

 

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