Download PDF
Tucano-de-bico-preto fotografado no Parque das Aves, em Iguaçu. Fonte: Wikimedia Commons

Tucano-de-bico-preto fotografado no Parque das Aves, em Iguaçu. Fonte: Wikimedia Commons

Ano passado dei uma palestra sobre zoos e aquários como ferramentas de conservação da biodiversidade para um público formado essencialmente por pessoas da área de biológicas.

Após a palestra, uma estudante de biologia me procurou dizendo "Nossa, adorei sua palestra, sempre achei que zoológicos não serviam para nada!". Depois dos três primeiros segundos de indignação, me toquei que na verdade, antes de trabalhar em um zoo eu também não entendia a importância.

Zoos e aquários têm quatro pilares de ação que são educação, lazer, pesquisa e conservação. Cerca de 10% da população mundial visita zoos e aquários anualmente. Só no Brasil, são mais de 20 milhões de pessoas. Que outra instituição tem este público? Ou a possibilidade de fazer um trabalho de educação e sensibilização para questões ambientais com um alcance tão grande? Se uma das principais ameaças para várias espécies animais é o tráfico, e se governo obviamente não tem "pernas" para combatê-lo, que estratégia mais eficiente do que conscientização nós teríamos? Operações de fiscalização resolvem uma parcela ínfima do problema. Conscientização atinge milhões de pessoas, e o contato com as animais pode provocar uma mudança real de atitude.

Em um mundo tão cheio de estímulos, acredito que o encantamento que uma pessoa experimenta quando observa um animal é imbatível. Considerando que poucos de nós teremos recursos para viajar o mundo observando animais na natureza, zoos e aquários podem realizar esta incrível tarefa de gerar empatia e conexão.

Creio que a maior parte dos argumentos contra zoos são decorrentes de falta de informação, talvez uma falha nossa de comunicação, que cria uma visão equivocada. Afinal, quantas pessoas sabem que, no mundo todo, zoos são a terceira maior fonte de financiamento de programas de conservação, com uma contribuição anual de cerca de US$ 350 milhões?

Com uma taxa de extinção que cresce a cada dia e uma acelerada perda e descaracterização de ambientes naturais, programas que consigam manter populações demográfica e geneticamente sustentáveis em cativeiro são cada vez mais importantes.

Uma análise realizada em 2012 mostrou que das 33 espécies animais atualmente classificadas como extintas na natureza pela IUCN, 31 são reproduzidas em zoos e aquários, e seis delas já estão sendo reintroduzidas na natureza graças ao trabalho de reprodução para conservação realizado em cativeiro. Na última atualização da Lista Vermelha de espécies ameaçadas da IUCN, 64 espécies de vertebrados melhoraram seu status de conservação, sendo 13 delas devido à reprodução em cativeiro, com a contribuição significativa de zoos e aquários, através de suporte técnico, logístico e financeiro.

Recuperando espécies

Tenho visto com frequência discursos anti-zoos e pró-santuários (...) Não importa se o nome dado é zoológico, refúgio, santuário, centro de proteção à vida ou qualquer outro. A atividade é a manutenção de animais sob cuidados humanos.

Existem inúmeros e bem documentados exemplos de espécies extintas na natureza que foram recuperadas graças ao trabalho de reprodução em cativeiro feito por zoológicos. Alguns casos notáveis são o condor da Califórnia, o cavalo de Przewalski (Mongólia) e o furão-de-patas negras (Estados Unidos).

No Brasil, o mico-leão dourado é um bom exemplo de como o trabalho cooperativo entre zoos possibilitou reintroduções e melhoria do status de conservação da espécie.

Em 2012, no Congresso da Associação Mundial de Zoológicos e Aquários (WAZA) conheci uma campanha do Zoos Victoria, na Austrália, para que as pessoas não comprem produtos com palm oil, pois as plantações acabam com florestas na Indonésia ameaçam, entre outras espécies, os orangotangos. O impacto foi tão grande que produtores de óleo e indústrias que o utilizam em seus produtos procuraram os zoos dizendo "O que temos que fazer para que vocês retirem estes banners?

Pensem nas possibilidades....são 700 milhões de pessoas por ano!

Tenho visto com frequência discursos anti-zoos e pró-santuários. Na verdade, isto é apenas uma mudança de nome. Não importa se o nome dado é zoológico, refúgio, santuário, centro de proteção à vida ou qualquer outro. A atividade é a manutenção de animais sob cuidados humanos. O desafio é garantir que estas instituições trabalhem bem, e vesti-las com outra roupa é uma solução simplista e equivocada.

Uma discussão sobre a melhoria das instituições zoológicas no Brasil é bem vinda (ou melhor, urgente e imprescindível), mas é muito importante conseguir identificar claramente o problema. A questão da qualidade dos zoos é (ou deveria ser) uma responsabilidade compartilhada por zoos, pelas instituições governamentais que os mantém e pelos órgãos responsáveis por sua fiscalização.

A grande questão não é se zoos devem ou não existir, mas sim como todas as instâncias responsáveis pela melhoria de sua qualidade podem trabalhar de forma eficiente e integrada para garantir que eles trabalhem bem e cumpram sua missão.

*Yara de Melo Barros é presidente da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil