Download PDF
O famoso Aracuã do Pinto, Ortalis remota. Espécie que parece só existir no estado de São Paulo. Foto: Fabio Olmos.

O famoso Aracuã do Pinto, Ortalis remota. Espécie que parece só existir no estado de São Paulo. Foto: Fabio Olmos.

Os Cracidae são um grupo de aves exclusivamente americanas que inclui os vistosos mutuns, as simpáticas jacutingas e os exuberantes aracuãs. Primos das perdizes, faisões, capotes e galinhas do Velho Mundo, este é um grupo antigo que parece ter surgido quando os dinossauros ainda viviam e a América do Sul havia acabado de se separar da Antártica e Austrália.

Boa parte do cracídeos (para simplificar) está ameaçada de extinção por serem aves florestais – e seu habitat diminui cada vez – e por serem grandes e carnudas, atraindo o interesse gastronômico de caçadores.

Em florestas sem caça (em geral, o mesmo que florestas sem gente) mutuns, cujubins, jacutingas, jacus e aracuãs podem corresponder a boa parte da biomassa, o peso vivo, de todas as aves. Entretanto, a maioria dessas espécies declina e desaparece mesmo quando a caça é moderada.

É o que vemos na Mata Atlântica, onde a Jacutinga e o Mutum-de-bico-vermelho foram caçados até a extinção no estado do Rio de Janeiro e em montes de reservas onde deveriam ocorrer na Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais. Talvez o ICMBio um dia lembre para que servem os “criadouros científicos” e toque projetos de reintrodução como o de ONGs como a SAVE Brasil.

Aracuãs, os menorzinhos da família, são mais resilientes à degradação das florestas e podem prosperar em florestas secundárias. Aracuãs também são os pequenos chamativos da turma. Visitantes das pousadas pantaneiras já devem ter acordado ao som do coro de casais ou famílias de aracuãs, que gritam avisando que aquele pedaço de chão é seu. Canção que já foi aliterada como “quero casar – quero matar” e outras frases indignas de um bicho boa praça.

O Aracuã do Pinto sobrevive apenas em fragmentos florestais que pertencem a usinas de açúcar e álcool e outras empresas agrícolas. Foto: Fabio Olmos.

O Aracuã do Pinto sobrevive apenas em fragmentos florestais que pertencem a usinas de açúcar e álcool e outras empresas agrícolas. Foto: Fabio Olmos.

São reconhecidas seis espécies de aracuãs no Brasil, com duas na Mata Atlântica: o aracuã-de-barriga-branca Ortalis araucuan, que ocorre do Rio Grande Norte ao Espírito Santo, e o aracuã-escamoso O. squamata, presente do nordeste do Paraná e sudeste extremo de São Paulo, até o Rio Grande do Sul. Muitos já devem tê-lo visto em quintais e parques de Florianópolis, Morretes ou Blumenau, prova da adaptabilidade do grupo quando não há tanta gente armada de estilingues ou espingardas.

Primeira tentativa

Sempre pareceu estranha a ausência de um aracuã entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ou parecia. Em julho de 1927, João Leonardo de Lima matou um aracuã e preparou sua pele para a coleção do atual Museu de Zoologia da USP. Segundo ele, a ave era procedente de Porto do Sapé, na foz do rio Pardo, rio sul-matogrossense que deságua no rio Paraná.

O falecido permaneceu esquecido até que o curador de aves do museu, Olivério Pinto – um dos maiores ornitólogos brasileiros dos quais você nunca ouviu falar – o usou para descrever um novo tipo de aracuã, que ele denominou Ortalis guttata remota.

É interessante que Pinto tenha decidido que a ave do Mato Grosso do Sul era uma raça local de guttata, uma espécie amazônica cuja localidade mais próxima está no Alto Guaporé em Mato Grosso, ao invés de associá-la às espécies da Mata Atlântica.

Exatamente o que Charles Vaurie, do American Museum of Natural History, fez em um trabalho publicado em 1965. Vaurie fechou questão que remota era o mesmo que squamata sem nunca ter examinado o espécime.

E assim ficou para a comunidade científica, apesar de Pinto discordar. Foi um daqueles casos onde masturbações taxonômicas e seguir a “autoridade” relegaram uma boa espécie ao esquecimento.

Aracuãs costumam ser vistos aos casais ou grupos familiares. Foto: Fabio Olmos.

Aracuãs costumam ser vistos aos casais ou grupos familiares. Foto: Fabio Olmos.

Ou não. Meu orientador de doutorado, Edwin Willis, professor da UNESP de Rio Claro e um dos maiores ornitólogos neotropicais de sua geração, fez um impressionante inventário das aves do estado de São Paulo em parceria com sua esposa Yoshika Oniki. Durante este trabalho, eles encontraram aracuãs em Barretos e Nova Granada, no noroeste do estado, que suspeitavam ser o remota. Willis me incentivou a procurá-lo e, em 97, tentei na Estação Ecológica de Paulo de Faria (eu trabalhava no Instituto Florestal), na margem paulista do Rio Grande. Mas não dei sorte.

De lá para cá muita coisa mudou na ornitologia brasileira. O passatempo da observação e fotografia de aves cresceu de maneira explosiva com o advento das câmeras digitais, das mídias sociais e, principalmente, do superpopular Wikiaves.

Inicialmente um site onde amigos postavam suas fotos de aves, o Wikiaves não parou de crescer. Uma iniciativa da SAVE Brasil com o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, tornou o Wiki um gigantesco repositório georreferenciado de imagens e sons de aves brasileiras e um dos melhores exemplos de projetos de ciência-cidadã no Brasil.

Redescoberta

“O achado de Dina atraiu atenções não exatamente desejadas e ela recebeu mensagem de um professor-doutor que desejava matar alguns aracuãs”.

Em 23 de outubro de 2011, a observadora de aves (e dentista) Dina Lúcia Bessa, moradora de São José do Rio Preto, estava passarinhando na companhia de seu marido J. Bessa no município vizinho de Guapiaçu, quando fotografou um aracuã voando sobre um canavial. A imagem, postada no Wikiaves no dia seguinte, causou furor na comunidade ornitofílica.

O achado de Dina atraiu atenções não exatamente desejadas e ela recebeu mensagem de um professor-doutor que desejava matar alguns aracuãs (o termo técnico é “coletar”) para ter mais material para publicar um paper mostrando que o remota é real. Em troca, Dina seria coautora do trabalho. Dina respondeu que não concordava em colaborar nessa captura, sem antes fazer um levantamento para saber se aquele que havia encontrado não seria o único exemplar da espécie. Se existisse apenas um indivíduo não faria sentido capturá-lo para pesquisa.

Enquanto isso, observadores de aves, que preferem bichos vivos, começaram a fotografar o remota em diferentes locais e postar as fotos no Wikiaves. Esse esforço colaborativo construiu um acervo que documenta as características que tornam o remota distinto de todos os outros aracuãs, sua variação individual e distribuição atual.

Depois de 57 anos no limbo, no início deste ano foi publicado o trabalho provando que aracuã descrito por Olivério Pinto é uma espécie distinta, e muito ameaçada. Belo exemplo de como a ciência-cidadã gera informações importantes e a documentação fotográfica pode ser utilizada no lugar de bichos mortos. Coisas até há pouco impensáveis para alguns pesquisadores.

O que sabemos sobre o Aracuã do Pinto, conhecido na região de sua redescoberta como “guarda-faca”, sugere que um punhado de indivíduos sobrevivem nos cacos de florestas da bacia do rio Turvo, no noroeste de São Paulo.

As florestas do noroeste de São Paulo deram lugar a canaviais e outras plantações. Foto: Fabio Olmos.

As florestas do noroeste de São Paulo deram lugar a canaviais e outras plantações. Foto: Fabio Olmos.

Não há notícia da espécie em Mato Grosso do Sul, e é de se pensar se o bicho de João Leonardo Lima, na verdade, veio da margem paulista do rio Paraná. O fato é que não sabemos, e nunca saberemos, qual a área originalmente ocupada pelo remota porquê há pouco onde procurar.Como seus parentes, o remota é uma ave das florestas. E florestas, mesmo as meia-boca, são muito escassas no noroeste de São Paulo.

Sem florestas

“Árvores não se suicidam cortando a si mesmas com motosserras ou correntões, elas tombam e queimam graças ao agro que diz ser pop”.

A primeira razão dessa escassez é o agro. A região foi ocupada no século 19 por fazendas de gado (Barretos é famosa por isso), que trocaram florestas e cerradões por pastos. No início do século passado houve a construção de estradas e ferrovias movidas a lenha nativa, na esteira do ciclo do café, que destruiu a Mata Atlântica da mesma forma como a soja faz hoje com o Cerrado. O golpe de misericórdia veio com os canaviais subsidiados pelo Proalcool nas décadas de 1970-80.

O olhar de satélite da SOS Mata Atlântica confirma o que olhos mostram: um enorme canavial misturado com pasto, soja e seringueiras, onde a vegetação nativa se limita a tripas ao longo dos rios e córregos. Icém tinha 1.637 ha e 4,5% de seu território com florestas, Olímpia 3.518 hectares (ha) e 4,3%, Barretos 6.192 ha e 2,7%, Guapiaçu 267,26 ha e 0,8% e Ubarana 607 ha e 2,8%.

É uma região que precisa de muita restauração florestal. Nenhum município chega perto de ter 20% de vegetação nativa, o mínimo esperado caso o Código Florestal tivesse sido respeitado. O mínimo que se espera da agricultura subsidiada.

O que sobra, no geral, está longe de corresponder ao discurso ufanistados que usam uma verdade verdadeira - 20,5% da vegetação nativa do Brasil está em propriedades privadas, contra 13% nas unidades de conservação – para vender a verdade alternativa de que “a agricultura lidera a preservação no Brasil”.

Árvores não se suicidam cortando a si mesmas com motosserras ou correntões, elas tombam e queimam graças ao agro que diz ser pop. O diabo vive nos detalhes: uma visita às florestas “preservadas” pelo agro onde o remota tenta viver mostra um inferno.

Como o Google Earth expõe, as florestas que sobraram são tripas ao longo dos rios e córregos, no geral com bem menos de 100 metros de largura. Faltam os jequitibás, jatobás, perobas e figueiras-brancas gigantes que davam estrutura a essas matas, derrubados a machadadas faz tempo.

Sobraram caquinhos de florestas nesse ambiente hostil. Foto: Fabio Olmos.

Sobraram caquinhos de florestas nesse ambiente hostil. Foto: Fabio Olmos.

Estas tripas de mata fazem limite com áreas agrícolas, principalmente cana, separadas por um aceiro que forma uma borda que torna as árvores vulneráveis a vendavais e ao dessecamento onde prosperam capins inflamáveis e cipós. Sintomas do criativamente batizado “efeito de borda”.

Resultado da fragmentação florestal, o efeito de borda é um desastre que afeta microclimas locais, aumenta a probabilidade de incêndios e invasões biológicas e é uma séria ameaça global à biodiversidade. Décadas de pesquisas mostram que florestas em faixas estreitas junto a áreas abertas são a receita indicada se você deseja que o efeito de borda degrade e colapse sua floresta.

Isso pode ser mitigado plantando alamedas densas de árvores de crescimento rápido entre a borda da mata e os aceiros,e com o enriquecimento através da inserção de árvores nativas de grande porte. Uma opção são plantações de seringueiras junto aos remanescentes florestais.

A ação do Ministério Público obrigou propriedades a desenvolver projetos de “restauração florestal” nos canaviais de Olímpia e Guapiaçu que visitei. Mas muitos estão invadidos por capins inflamáveis – o que causou muito estrago nesta estiagem – e usaram árvores exóticas como a bisnagueira Spathodea campanulata, cujo néctar é tóxico para abelhas.

Gambiarras que mostram que a “preservação” pelo agro precisa melhorar muito.

Massacre das hidrelétricas

“O Aracuã do Pinto provavelmente só existe porquê o rio Turvo e afluentes estão livres de hidrelétricas e por lá sobrou alguma mata ciliar”.

O agro não foi o único que destruiu as florestas do Aracuã do Pinto. Outra verdade alternativa é que hidrelétricas são “verdes”, chegando à picaretagem de querer que hidrelétricas que são usinas de emissão de metano– um dos gases de efeito estufa mais poderosos – possam emitir créditos de carbono.

Hidrelétricas também são eficientes em destruir ecossistemas e erradicaram boa parte das florestas ripárias (ou ciliares) de São Paulo. Florestas que são tanto refúgio para a fauna durante as secas como abrigam uma quantidade de espécies próprias, incapazes de sobreviver nas florestas e cerradões mais distantes dos rios.

A borda entre os canaviais e a floresta é um mero aceiro, que não funciona. Foto: Fabio Olmos.

A borda entre os canaviais e a floresta é um mero aceiro, que não funciona. Foto: Fabio Olmos.

Os autores do trabalho que reviveu o Aracuã do Pinto notam que “uma medição rápida usando imagens do Google Earth mostra que, da localidade-tipo (Porto do sapé) rio acima até uma elevação de 500 m nos canais principais dos rios Tietê, Grande e Paranaíba, cerca de 1.070 km de florestas ripárias, de um total de 1360 km (78%) foram inundadas”.

Os autores da façanha são a CESP e Furnas, estatais que transformaram as bacias do Tietê-Paraná (CESP) e Grande (Furnas) em lagos com margens peladas.

Hidrelétricas causam extinções. Como sou um observador de aves e estas são dos melhores indicadores ambientais vou usá-las para mostrar isso.

A antiga Fazenda Barreiro Rico, hoje Pousada Bacury, tem uma das avifaunas mais bem estudadas no país. A floresta de 2.200 hectares, conservada pela família do fazendeiro e naturalista José Carlos Reis de Magalhães, é um exemplo do agro que é pop de verdade e abriga preciosidades como a população mais interiorana de muriquis-do-sul.

Magalhães e pesquisadores estudaram a avifauna local antes do enchimento, em 1961, da hidrelétrica de Barra Bonita, no rio Tietê. Esta afogou a mata úmida que ocorria ao longo do rio, rica em palmito-juçara e com árvores de grande porte como a rara cabreutinga Cyclolobium claussenii. E assim extinguiu espécies que, se não fosse por pesquisas como essa, acreditaríamos exclusivas das matas úmidas da Serra do Mar como macucos, jacutingas, araçaris-banana, sabiás-cica, pavós, tucanos-de-bico-verde e outros.

O lugar onde Lima abateu o Aracuã do Pinto original foi sepultado pela hidrelétrica de Porto Primavera, iniciada no governo Paulo Maluf (o do verbo “malufar”). Porto Primavera teve as mesmas denúncias de obra superfaturada com péssima relação custo-detonação/geração que hoje vemos sobre atrocidades como Belo Monte.

Capins inflamáveis crescem na borda desprotegida. Foto: Fabio Olmos.

Capins inflamáveis crescem na borda desprotegida. Foto: Fabio Olmos.

Como o Google Earth mostra, esta hidrelétrica eliminou várzeas e florestas que nem chegaram perto de ser restauradas, como o Código Florestal mandava. O resultado é que, das 372 espécies de aves antes presentes, 21% desapareceram após o enchimento do reservatório.

O Aracuã do Pinto provavelmente só existe porquê o rio Turvo e afluentes estão livres de hidrelétricas e por lá sobrou alguma mata ciliar. Os olhos dos satélites mostram a desolação nas margens das hidrelétricas de Furnas ao longo do rio Grande e das CESP no Tietê e Paraná. Faz perguntar o que foi exterminado sem que nunca saibamos que um dia existiu.

O agro e o hidro têm um passivo ambiental que vai além de passarinhos extintos, árvores afogadas, piracemas desaparecidas e a troca de dourados por tilápias.

Reservatórios como Furnas, hoje com menos de 10% de capacidade, mostram um dos resultados da destruição da infraestrutura verde que evita o assoreamento de rios e reservatórios, modula o clima regional e abriga inimigos de pragas agrícolas. Aqueles que ajudariam a evitar que o agro pop continue a nos matar com agrotóxicos.

Reconstruir esta infraestrutura restaurando florestas dignas do nome ao longo de rios e reservatórios é um investimento, e não um custo. Empresasdeveriam entender isso, tão ansiosas por conquistar mercados antenados para questões ambientais como a União Europeia para o etanol  e ao mesmo tempo morder mais subsídios via o RenovaBio.

Os aracuãs, nossa saúde e nossa segurança hídrica e energética agradeceriam.

Depois de décadas de degradação pelo efeito de borda o resultado é esse. Foto: Fabio Olmos.

Depois de décadas de degradação pelo efeito de borda o resultado é esse. Foto: Fabio Olmos.

 

Leia Também

Bagres superpoderosos

Mais vale um monte de aves soltas do que uma penca na gaiola

Brasil ressuscita diplomacia do etanol