Agricultor do Mato Grosso durante evento de concessão de títulos de regularização de terra (foto: Empaer/MT)O preço da terra pública definido pelo programa Terra Legal, do governo federal, precisa ser reavaliado, de acordo com um parecer técnico da quinta câmara de coordenação e revisão do patrimônio público e social do Ministério Público Federal. O programa, em vigor desde o ano passado, visa regularizar cerca de 67,4 milhões de hectares (ha) de terras públicas na Amazônia Legal nos próximos anos.
Até maio de 2010, de acordo com o MPF, aproximadamente 68 mil posseiros entraram com pedido de regularização de suas posses que, juntas, chegam a pouco mais de 7 milhões de ha. A grande maioria destas pessoas (60,4%) ganhará a terra do governo, por possuir propriedade de até 1 modulo fiscal, ou seja, aproximadamente 100 hectares. O restante dos posseiros (até 4 módulos, 26,7%, e de 4 a 15, 7,2%), adquirem terras públicas com descontos que podem chegar a 80%. No entanto, a minoria entre os pedidos de regularização representa as maiores propriedades que, juntas, chegam a 5 milhões e 661 mil hectares.
Um dos problemas apresentados no parecer do Ministério Público Federal é o fato de posseiros com áreas de 4 a 15 módulos fiscais (perfil de propriedades médias) se beneficiarem de descontos da mesma forma que aqueles que ocuparam áreas de até 4 módulos fiscais (menores, próprias do pequeno agricultor familiar).
De acordo com o regulamento do Terra Legal, posseiros de propriedades médias podem adquiri-las a preços acessíveis e, após três anos, vendê-las a terceiros. No entanto, ao vender, a terra estará mais valorizada, o que pode ser visto como um ótimo negócio àquele que grilou áreas da união – e ao que pretende grilar. “A baixa valoração da terra e a possibilidade de lucro após três anos podem ocasionar novas ocupações onde o monitoramento e a fiscalização não sejam tão efetivos”, afirma Marco Antônio Delfino de Almeida, procurador da república do MPF/MS.
De acordo com ele, uma coisa é baratear o preço da terra para o pequeno proprietário, outra é baratear para o médio. “Há de se haver um privilégio ao agricultor familiar. Aqueles que possuem de 4 a 15 módulos fiscais podem exercer suas atividades produtivas com menos subsídios governamentais. Fornecer subsídios a estes proprietários causa prejuízo aos cofres públicos e é economicamente insustentável. É preciso tratar os desiguais de forma desigual”, diz.
O parecer técnico foi recentemente enviado ao Terra Legal e, atualmente, o Ministério Público Federal aguarda uma resposta. “O programa é bom, avançou muito em transparência, mas precisa avançar mais, até que promova a Amazônia sustentável que queremos – com a devida proteção às populações tradicionais e com a valoração justa de áreas públicas ocupadas. Esperamos que o programa tenha as correções devidas e que compreendam que as irregularidades na questão do preço da terra devem ser sanadas”, afirma o promotor. (Karina Miotto)
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Quem são os atingidos por desastres?
Há mais de dez anos desde o rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais (MG), faltam informações e sobram consequências →
Nascimento de filhote de harpia em reserva da Bahia é comemorado pela Ciência
Desde 2018 não eram registrados nascimentos na unidade. Filhote ativo no Corredor Central da Mata Atlântica é passo importante para evitar extinção →
Em homenagem ao cão Orelha, governo aumenta multa para quem maltrata animais
Novo decreto amplia de R$500 para R$ 1.500 valor da multa mínima em caso de maus tratos aos animais. Governo também estabeleceu a criação da Conferência Nacional de Direitos Animais →


