Colunas

“Hoje é dia do Cerrado, mas não vou comemorar”

Acordei na Serra da Canastra neste dia de homenagem ao Cerrado e, ironia, recebo de cara a notícia de autorização para mais desmatamento.

11 de setembro de 2013 · 12 anos atrás
  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

Margem do Rio Parnaíba, MA. Fotos: Adriano Gambarini | Clique para ampliar
Margem do Rio Parnaíba, MA. Fotos: Adriano Gambarini

Acordei na Serra da Canastra. Pensei neste dia, em homenagem ao Cerrado. Ironicamente abro minha caixa postal e vejo um documento emitido por um responsável técnico dos órgãos ambientais, dando parecer positivo ao desmate de uma grande área de Cerrado do oeste mineiro. Ou melhor, o pouco que resta deste importante bioma naquela região. A explanação referente à área é tão chinfrim, para não dizer outro adjetivo mais ofensivo, que a frase sobre a fauna existente cita 4 ou 5 espécies, pasmem, vulneráveis ou ameaçadas, e finaliza com um simples ‘etc’. Ou seja, a diversidade faunística do Cerrado, comprovadamente como uma das maiores do mundo, é resumida a três letras.

Não há o que comemorar. Nestes últimos 3 meses viajei pelos Estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia e Mato Grosso e efetivamente o que vi foram áreas extensas cobertas com monocultura e pecuária. E como se não bastasse o regaço feito nos campos de cerrado e rupestres destes lugares, estão articulando mudanças nos fluxos dos rios para que a tão vangloriada (pelo governo) produção de grãos mato-grossense seja mais facilmente escoada para o outro lado do mundo.

De acordo com a WWF-Brasil, 40% do Cerrado brasileiro estão ocupados pela agropecuária, e ao todo, o bioma já perdeu mais da metade da vegetação original. E para piorar, menos de 3% desta savana brasileira estão protegidos de fato.

Decididamente, não há o que festejar. Só um lamento pelas espécies que desaparecem sem ao menos serem descobertas e identificadas. Só um desconsolo pelas espécies conhecidas com cada vez menos área para sobreviver e proliferar. Só um triste futuro sem luz no final do túnel. Ou melhor, luz há de ter… do fogo das queimadas. Por isto, este ensaio não vai ter fotos de ‘bichos fofinhos’ ou ‘paisagens nostálgicas’. O que se vive hoje é o Dia de permanente melancolia pelo que um dia foi o Cerrado brasileiro.

 

Leia também
No Rastro dos Mamíferos do Cerrado
O Cerrado fez aniversário mas não há razão para festa
Entendendo o Cerrado

 

 

 

Leia também

Salada Verde
4 de fevereiro de 2026

Sociedade civil reivindica participação no Mapa do Caminho para fim dos combustíveis fósseis

Mais de 100 organizações enviam carta a embaixador Corrêa do Lago pedindo que criação do roteiro seja “processo político real e inclusivo”

Salada Verde
4 de fevereiro de 2026

Nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental entra em vigor

Norma criada pelo Congresso Nacional ficou conhecida, em sua etapa de construção, como PL da Devastação, pelos afrouxamentos feitos na legislação anterior e potencial destruidor

Salada Verde
4 de fevereiro de 2026

((o))eco anuncia os ganhadores da 2ª Edição da Bolsa Reportagem Vandré Fonseca de Jornalismo Ambiental

O processo seletivo reuniu 110 propostas de todo o país. Os seis contemplados vão se debruçar sobre segurança hídrica e soluções baseadas na natureza, temas do edital deste ano

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Comentários 1

  1. Luiza diz:

    Também não vou comemorar…. pois, com toda informação técnica, tantas belezas cantadas em verso e prosa, com poesias e cantorias que enaltecem o cerrado, não conseguimos incluir entre os BIOMAS NACIONAIS que merecem ser PATRIMÔNIOS NACIONAIS, e ainda mais atenção, cuidado, preservação e amor do povo brasileiro…. só vou lamentar hoje, no Dia do Cerrado……