Uma fazenda submersa no Pantanal

Renato Rizzaro e Gabriela Giovanka (imagens e texto)
segunda-feira, 5 setembro 2016 23:58

O vídeo acima é um documentário curto sobre a fazenda de Ruivaldo de Andrade, no Pantanal, que teve 90% das suas terras submersas por enchentes causadas pelo assoreamento da bacia do rio Taquari, consequência do desenvolvimento de agropecuária intensiva rio acima.

A seguir, contamos também em prosa como foi essa rica experiência.

Em 2011 iniciamos nossa jornada pelo Brasil para criar a coleção de posters Aves dos Biomas Brasileiros. Naquele ano fomos até Corumbá, conhecemos o Moinho Cultural e o Instituto Acaia Pantanal, de onde rumamos para a Escola Jatobazinho, três horas de barco rio Paraguai acima.

Nossa chegada coincidiu com a volta às aulas, o que naquela época era um acontecimento marcante, pois as crianças ficariam hospedadas na Jatobazinho por vários meses. Muitas rabetas (tipo de motor de popa) aportaram com famílias inteiras trazendo seus filhos para a escola. Ares de despedida, rever amigos de sala, de quarto, professores, amigos, merendeiras, toda equipe preparada para mais uma jornada letiva e de convivência.

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Poucos são os que têm acesso ao estudo, pois a escola pode estar a até 3 dias de barco de casa, o que inviabiliza frequentá-la. Seu Ruivaldo Nery de Andrade (55) é um dos poucos que conseguiu completar o segundo grau. Poderia ter seguido a Faculdade em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, pois seu pai tinha condições, à época, de financiar inclusive aulas particulares, antes de “quebrar” por causa das enchentes.

Ruivaldo escolheu seguir o coração e cuidar da Fazenda Mutum, hoje na terceira geração, criada logo após a Guerra do Paraguai, quando o “Brasil precisava colonizar esta parte do Pantanal… O meu bisavô foi um dos pioneiros”, nos conta Ruivaldo e continua: “o governo dava milhares de hectares, você chegava, ia cercando… Meu bisavô teve dez filhos e a família ficou por aqui, meu pai casando com a prima… Calculo que isso tudo deve dar uns 200 anos de história!”.

Porém, Ruivaldo e sua esposa Denise não lutam somente pela educação dos três filhos, Ruivaldinho, Roberto e a caçula Débora, que com a Escola Jatobazinho e a Fundação Bradesco estão encaminhados. A maior preocupação deles é com a enchente. “Fazem muitos anos, que as águas permanecem a pelo menos 5 centímetros acima do solo. Isso provoca uma modificação muito forte no ambiente, porque as árvores nativas deixam suas sementes caírem para brotarem na época da seca, porém com água por cima isso fica inviável.”

A sua propriedade tem 5 mil hectares dos quais 4,7 mil estão submersos. Tem muito trabalho para barrar a água que verte dos corixos, para cultivar o que sobrou de sua fazenda. No início, pensou em fazer pequenas elevações, mas logo percebeu que necessitaria ensacar areia para que o fluxo e as chuvas não desbarrancassem tudo. Pensou em comprar sacos vazios de adubo, ideia inviabilizada pelo custo, em média 50 centavos/saco. Como necessitaria de milhares, o dinheiro não daria. Certo dia, de passagem pela Escola Jatobazinho reparou que recebiam material de construção em sacos que seriam descartados. Lá estava a salvação de sua horta! Autorizado pela diretoria, coletou os sacos e construiu os diques e conseguiu cultivar o que restou de sua grande fazenda. “Dá trabalho, porque reviso os diques e reponho os sacos a cada um ou dois anos, para a água não invadir a plantação de cana, de coco, o pomar, minha casa…” Até hoje passa de barco pela escola e recolhe os sacos vazios.

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Dos doze irmãos, foi o único a permanecer no Pantanal e nos conta que também passou por momentos apertados. “Devido às enchentes tive muita dificuldade, porque a primeira coisa que você perde é o crédito, todo mundo sabe que você está quebrado… e aí a gente teve que ir na dura mesmo, na enxada, na foice, fomos rompendo essas barreiras…” Hoje a situação melhorou, após a contenção das águas, planta cana, mandioca, árvores frutíferas, tem algum gado arrendado, carneiros e, recentemente, com ajuda do Instituto Acaia Pantanal e de Dona Tereza Bracher, construiu um pequeno galpão para produção de rapadura, farinha de mandioca e doce de leite que, modéstia às favas, diz ser o melhor da região.

Os planos não param e a próxima aquisição deverá ser um barco maior e mais rápido, para levar a sua produção em menos viagens e tempo, pois com a sua atual rabeta demora seis horas até Corumbá, isso quando não tem vento nem chuva.

Passamos três dias na Fazenda Mutum e conhecemos a força com que esta família se dedica ao seu chão. Uma história transformadora, de pertencimento, envolvente e determinada a salvar o Pantanal, como Ruivaldo afirma ao final de nossa entrevista.

 

 

Conheça os guias de aves dos biomas do Brasil produzidos por Renato Rizzaro e Gabriela Giovanka

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Guia: Aves do Cerrado

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