Reportagens

Um corredor para o muriqui-do-norte, o maior primata das Américas

Workshop sobre o Corredor Ecológico Brigadeiro-Caparaó trouxe nomes de peso da conservação brasileira para discutir a proposta de um corredor para o muriqui-do-norte

Marcelo Baêta ·
1 de setembro de 2021

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) é o maior primata das Américas, endêmico da Mata Atlântica, carismático, pacífico, conhecido pelos abraços e bolinhos (abraços coletivos) em que se enlaçam uns aos outros, e está criticamente ameaçado de extinção. Sua população estimada é de 1.200 a 1.300 indivíduos e os 12 maiores grupos populacionais da espécie estão isolados uns dos outros. Não por acaso, assim como os grupos de muriquis, os remanescentes florestais da Mata Atlântica também estão espalhados entre si. A conectividade de habitats é, portanto, fundamental para a conservação da espécie e a consolidação de corredores que interliguem áreas de ocorrência dos muriquis configura-se como uma medida de proteção de extrema relevância. 

Nesse contexto, pesquisadores e gestores públicos propõem a criação de um corredor ecológico para o muriqui-do-norte entre o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (PESB), em Minas Gerais, e o Parque Nacional do Caparaó (Parna Caparaó), na divisa de Minas com o Espírito Santo. Há populações significativas da espécie apenas nesses dois estados, com potencial de ocorrência ainda no Rio de Janeiro e na Bahia. O Parna Caparaó e o PESB abrigam os dois maiores grupos de muriquis-do-norte, com 372 e 325 indivíduos, respectivamente. A criação de um corredor entre os dois parques motivou a realização do I Workshop Internacional Corredor Ecológico Brigadeiro-Caparaó, de 26 a 28 de agosto, o qual promoveu um ciclo de palestras (com mais de 14 horas de duração) no canal da Rede Eco Diversa, no Youtube, em parceria com o Projeto Muriquis do Caparaó. 

O coordenador do Centro de Primatas Brasileiros (CPB), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Leandro Jerusalinsky, registrou que todas as maiores populações do muriqui-do-norte encontram-se em unidades de conservação. Como outras espécies de primatas, apresentam sistemas sociais complexos e, por isso, precisam de grandes áreas para sua sobrevivência. Jerusalinsky citou um estudo segundo o qual “o que restou de Mata Atlântica está pulverizado em 200 mil fragmentos, sendo que mais de 90% deles tem 100 hectares ou menos”.

O coordenador do CPB destacou que o muriqui é uma excelente espécie-bandeira para a conservação da biodiversidade; uma espécie guarda-chuva, cuja proteção garante a proteção de outras espécies; e que o mundialmente conhecido primatólogo Russell Mittermeier costuma qualificá-la como o panda brasileiro.

Dois machos adultos de muriqui-do-norte se abraçando, Parque nacional do Caparaó. Crédito: Rodrigo Silva / Projeto Muriquis do Caparaó.

O maior grupo populacional de muriquis-do-norte encontra-se no Parna Caparaó, cujo levantamento populacional revelou a existência de 372 animais. A bióloga Mariane Kaizer, que integra o Projeto Muriquis do Caparaó, juntamente com Aryanne Clyvia e Daniel Ferraz, pesquisa a espécie no Parna Caparaó desde 2014. No primeiro dia de trabalho em campo, tiveram a felicidade de encontrar um novo grupo de muriquis, no lado mineiro do parque, em sua vertente oeste. A pesquisa cientifica revelou uma alta diversidade genética da população do Caparaó, o que a torna adequada para a eventual translocação de espécimes, caso ocorram manejos populacionais para outros locais. 

A terceira maior população da espécie está localizada na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala, localizada entre os municípios de Caratinga e Ipanema. Karen Strier, professora da universidade Wisconsin-Madison, é referência mundial na conservação do muriqui-do-norte. Coordena há 38 anos o Projeto Muriqui de Caratinga, desenvolvido na RPPN Feliciano Abdala. O Projeto coordenado por Strier treinou ao longo de sua existência quase 80 pesquisadores, entre os quais Mariane Kaizer e Daniel Ferraz, do Projeto Muriquis do Caparaó. 

A iniciativa de conservação foi responsável pelo aumento do número de indivíduos na RPPN de 50 para um máximo de 356, o que correspondia a 1/3 de toda a população da espécie, à época. Porém, nos últimos anos, surtos de febre amarela, secas, e outros fatores, diminuíram a população da RPPN para aproximadamente 240 indivíduos. 

Strier ressaltou características marcantes do muriqui. Trata-se de um animal muito pacífico, que vive até os 40 anos ou mais. Diferentemente de outros primatas, no caso dos muriquis são as fêmeas que saem do grupo principal em busca de um novo grupo, o que ocorre por volta dos seis anos de idade, pouco antes do primeiro período reprodutivo.

Corredores

A concentração dos esforços de conservação do muriqui-do-norte no corredor Brigadeiro-Caparaó não é um consenso. O professor Fabiano Melo, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), foi orientador tanto de Kaizer como de Ferraz, ao longo de suas trajetórias acadêmicas. Melo sugeriu que esses esforços se direcionassem inicialmente para a consolidação do corredor entre as RPPNs Feliciano Abdala e Mata do Sossego, o qual é reconhecido pelo governo de Minas, por meio de decreto, datado de 2014. As duas RPPNs estão localizadas ao norte do corredor Brigadeiro-Caparaó, como se pode visualizar no mapa abaixo, cedido pelo professor Luiz Paulo Pinto:

Mapa com cinco das principais áreas de ocorrência do muriqui-do-norte. Nele, é possível visualizar a perda e a fragmentação da Mata Atlântica na região. Fonte: Apresentação do professor Luis Paulo Pinto workshop

Ao site ((o)) eco, Kaizer afirmou que “as RPPNs Feliciano Abdala e Mata do Sossego fazem parte do Corredor Ecológico Sossego-Caratinga, que é um corredor que já vem sendo implementado”. Sobre a criação de um comitê gestor para a consolidação do corredor Brigadeiro-Caparaó, informou que o comitê “provavelmente será criado depois que fizermos o decreto do corredor (correspondente), assim como foi feito quanto ao Sossego-Caratinga”. 

Na pesquisa conduzida pelo Projeto Muriquis do Caparaó, houve a instalação de câmeras trap no dossel das árvores e no solo, monitoramento acústico e coleta e análise de materiais orgânicos. Na apresentação de Kaizer, no workshop, imagens captadas por câmeras trap mostram os muriquis se locomovendo no dossel das árvores, dos 38:30 aos 40:40. As imagens captadas no solo, por sua vez, mostram o potencial do maior primata das Américas como espécie guarda-chuva. Nelas, a partir dos 49:20, circulam pela floresta pacas, saguis-da-serra-claros (espécie em perigo de extinção), macacos-prego, onças-pardas, entre outros.  

Paisagem cafeeira com fragmentos de mata

A paisagem entre os parques do Brigadeiro e do Caparaó, originalmente, era constituída por uma Mata Atlântica exuberante, com rica fauna e flora nativas, em uma região habitada pelos índios puris e coroados, de acordo com a análise apresentada pelo biólogo Braz Cosenza, fundador e presidente da Centro de Estudos Ecológicos e Educação Ambiental (CECO). Principalmente a partir do século XIX, intensificou-se a colonização e o desmatamento, com foco na exploração madeireira. Posteriormente, iniciou-se o período da produção cafeeira, que até hoje persiste, permeada por fragmentos florestais com remanescentes de Mata Atlântica. A paisagem tem ainda como elementos marcantes duas rodovias que cortam o corredor entre os dois parques, a BR-116 e a MG-111. 

Um bloco de remanescentes florestais no meio do corredor Brigadeiro-Caparaó motivou a proposta de criação do parque estadual do Grumarim, em 2010, elaborada por Cosenza, a qual, na ocasião, não prosperou. A tese de doutorado de Cosenza, de 2014, versa sobre a proposta de um biocorredor Brigadeiro-Caparaó, baseado na associação entre a embaúba-branca ou embaúba-prateada (Cecropia hololeuca) e os muriquis. 

Assim como Cosenza, o biólogo Luiz Paulo Pinto destacou como um dos aspectos mais importantes para a consolidação do corredor Brigadeiro-Caparaó a necessária sinergia entre as ações conservacionistas e o incentivo à atividade econômica de produtores rurais da região, em especial os cafeicultores, os quais são, em sua maioria, produtores de cafés especiais em pequenas propriedades.

Reflorestamento, refaunação e seus meandros

Incentivar a atividade econômica local conjugada à preservação e à recomposição da Mata Atlântica, com vistas à consolidação do corredor Brigadeiro-Caparaó, requer conhecimentos e incentivos especializados. Nesse sentido, Dalyson Figueiredo, do Instituto Estadual de Florestas (IEF/MG), discorreu sobre projetos de restauração do bioma, sob a batuta do órgão, que fornece assistência técnica para a recuperação de áreas degradadas, a recuperação de nascentes, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), entre outras modalidades de fomento. Para Figueiredo, um dos principais incentivos para a recuperação de reservas legais (RLs) e áreas de preservação permanente (APPs) por parte dos produtores rurais é o cumprimento do Código Florestal, de 2012, que impôs as obrigações de realização do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Plano de Recuperação Ambiental (PRA). Do ponto de vista dos municípios, o incentivo advém da obrigação de implantação dos planos municipais de conservação e recuperação da Mata Atlântica.

Replantada a vegetação nativa, o próximo passo é refauná-la. O professor Fernando Fernandez relatou iniciativas de refaunação na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, pelo Projeto Refauna, o qual se iniciou em 2010, em que houve a reintrodução de populações de cutias, bugios e jabutis-tinga. O próximo passo será a reintrodução de araras-canindé. 

Há 37 anos, iniciou-se o trabalho de uma iniciativa de conservação, capitaneada pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), a qual elevou o número de micos-leões-dourados, nas florestas de baixada da Mata Atlântica, no estado do Rio de Janeiro, de 200 para um máximo de 3.700. Após um surto de febre amarela que dizimou parte da população, nos últimos quatro anos, atualmente são 2.500 indivíduos. O secretário-executivo da AMLD, Luis Paulo Ferraz, detalhou iniciativas para a consolidação de corredores florestais entre os grandes blocos populacionais de ocorrência da espécie, em especial a construção de um viaduto vegetado sobre a BR-101, duplicada recentemente. 

O biólogo e administrador Cláudio Pádua, vice-presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), aprofundou o tema das oportunidades econômicas associadas à conservação e à preservação ambiental. Ele contou sua trajetória, no Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo, para a conservação do mico-leão-preto. O conhecimento sobre a biologia da conservação não era suficiente; era preciso envolver-se com as pessoas, a sociedade e a economia da região em que as ações de conservação foram desenvolvidas. 

Além de Leandro Jerusalinsky, coordenador do CPB, palestraram e estão envolvidos na iniciativa de formação do Corredor Ecológico Brigadeiro-Caparaó, pelo ICMBio, Fábio Veloso, gestor do Parna Caparaó; e Mônica Montenegro, coordenadora do Plano Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-coleira (PAN PPMA). Pelo Parque Estadual Serra do Brigadeiro, a apresentação e a representação institucional foram realizadas pela servidora Laurielen Pacheco.

*Editado às 13h47, do dia 02/09/2021.

  • Marcelo Baêta

    Jornalista, com especialização em meio ambiente e sustentabilidade. Autor do vídeo-documentário Liberdade, essa palavra (2006) e do livro-reportagem 1971 - O Ano do Galo (2012).

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Comentários 3

  1. nascimentw diz:

    Cada vez mais boys e menos mata atlântica!


  2. Rangel diz:

    Os vídeos do evento estão privados, saberiam dizer se estão em outros locais no YouTube? Seria muito bom a discussão estar aberta a toda comunidade, pois o tema é necessário em tantas outras frentes. 🙏


  3. Everton Miranda diz:

    Fantástica iniciativa! Espero ver esses e outros corredores se concretizando nas próximas décadas para que os muriquis contem sempre com populações fortes, que vão facilitar também o fluxo gênico de outras espécies ameaçadas.