Reportagens

Fernando Meirelles: “Cientistas são precisos e confiáveis, mas falam para eles mesmos”

Reconhecido no mundo todo, o diretor quer agora usar o cinema para acordar o público sobre as catástrofes ambientais que o homem causa.

Eduardo Pegurier · Marcio Isensee e Sá ·
26 de setembro de 2015 · 6 anos atrás
Fernando Meirelles. Foto: Paulo André Vieira
Fernando Meirelles. Foto: Paulo André Vieira

O cineasta Fernando Meirelles diz que a humanidade vai num péssimo caminho e não se dá conta. Ao contrário, estamos acelerando na direção de uma crise causada por problemas ambientais, especialmente os climáticos. Por isso, resolveu dedicar seu trabalho no cinema para comunicar a urgência da situação.

“A melhor maneira de envolver o público é contar histórias. Esquece um pouco as suas estatísticas, deixa seus gráficos de lado”. Ele se exaspera com o preciosismo dos cientistas, pois parecem não perceber que o excesso de sofisticação e números entedia e afasta as pessoas.

“Toda pesquisa científica tem por trás uma história incrível. Ache essa a história e o seu personagem, que o público se interessa”.

O enfoque de Meirelles corre o risco de perder o equilíbrio entre entreter versus informar o público. Ele aceita humanizar os bichos como na animação Madagascar. “Na hora que você faz um lêmure ir numa balada, você não está sendo muito fiel à natureza”. Mas, afirma, isso diverte a audiência enquanto ela aprende que o lêmure existe e precisa de habitat para sobreviver. “É melhor que nada, com rigor científico você não fala nada também. As pessoas não vão sequer saber que existe lêmure”.

O cinema ou a TV não devem substituir a ciência. “O trabalho é difundir a mensagem. Cientificamente, você pode até falhar, mas se você mobilizou pessoas, tá ótimo”, diz. Ele espera que isso mude comportamentos e tire votos de políticos que defendem, por exemplo, acabar como um área protegida. “É isso que precisa”.

Veja a entrevista completa no vídeo abaixo.

 

 

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  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

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Comentários 10

  1. George diz:

    Ajudaria muito se nossos pesquisadores usassem mais o português, e menos o latim e grego. Até a Igreja Católica já entendeu a importância de falar a mesma lingua que o povo entende…


  2. chicolam diz:

    Trabalho a mais de 10 anos dentro da academia e com extensão comunitária utilizando os quadrinhos e animação num contexto sócio ambiental.

    A ciência faz bem e muito bem seu papel assim como o cinema, quando se mistura os dois elementos ganhamos o que chamamos de ficção científica e ambos os lados saem ganhando.

    Dividir ou criar essa sensação separatista ou de apenas enxergarmos um ponto de vista com uma pequena fragilidade enaltecendo como grande defeito, não é um caminho saudável.

    Acredito no poder da parceria e da cooperação, um exemplo é a série COSMOS, é lindo quando o cinema como arte andar de braços dados com a ciência. Minha felicidade em ver a entrevista acima foi ver que em fim um cineasta percebeu a importância do assunto. A dificuldade que percebo no discurso está no cinema comercial entre o cinema de caráter realmente científico como os documentários. Bem, é na dificuldade e nos problemas que boas soluções nascem. Parabéns a entrevista, espero ansioso poder contemplar essas novas iniciativas nacional!


  3. Débora Pires diz:

    Parabéns Eduardo! Matéria ótima, obrigada por seu trabalho! Concordo plenamente com a visão do Fernando. Comunicação é o maior desafio não só dos cientistas mas dos projetos ambientais.


  4. PR.PR diz:

    Precisava alguém do "porte" desse grande cineasta e artista vir na tribuna pra apontar: "O rei está nu." O mundo acadêmico precisa se reciclar, duvidar de si próprio, o que é praxe da boa ciência. Como alguém disse, não lembro quem foi: "Uma pesquisa acadêmica tornou-se um fim em si mesma. Pesquisar tornou-se um mero meio de vida e, na maioria dos casos, um ato movido em grande parte pela mais boba vaidade." Os cientistas estão preocupados em ser reconhecidos somente por outros cientistas, esquecendo de disseminar conhecimento para um público mais amplo. O espaço que não é ocupado pelo saber científico acaba preenchido pelo obscurantismo e pela ignorância.


  5. A melhor palestra do VIII CBUC!!! Filmei na íntegra:


  6. Em meu blog, http://www.ecologiaemfoco.blogspot.com, dedico-me a informar sobre questões ambientais. Nele disponibilizo o meu Glossário de Ecologia.


    1. Flávio Zen diz:

      Fala Breno, dá uma editada no link. Está dirigindo para http://www.ecologiaemfoco.blogspot.com%2C/


  7. Flávio Zen diz:

    Pessoalmente acho que é uma versão muito simplista acreditar que o distanciamento da população em geral se deve ppmente à dificuldade de comunicação dos cientistas e que a espetacularização do sapo, contribuiria para atrair interesses ser mais uma atração competindo pela atenção do "espectador".

    Penso que o que há mesmo é uma deficiência observada em vários países de não construção de uma formação voltada para a ciência. De fato, ppmente nos primeiros anos, as escolas estão muito mais preocupadas em discussões sobre gênero, minorias, opressores e oprimidos, do que da preparação para se interpretar o mundo além da realidade social. No fundo viramos sociedade que se comporta como uma serpente que devora a própria cauda, um fim em si mesma.

    Essa é a razão de não se perceber a natureza e nem os limites do crescimento. Uma boa contribuição para se entender o tema está na apresentação de Bill Whittle: "O grande desaprendizado" disponível em" https://youtu.be/xtD2BwCV_K0

    Assim, precisamos de mais do que aumento de opções de espetáculos 😉


  8. Margi diz:

    Eduardo, parabéns. Amei a entrevista. É por aí… temos que achar uma forma de acordar a sociedade global que parece estar vivendo dias (anos!) de avestruz. abraços


    1. Obrigado, Margi. Foi bacana entrevistá-lo.