Especialistas demonstram preocupação sobre projeto de reintrodução das ararinhas-azuis

Cristiane Prizibisczki
terça-feira, 3 março 2020 18:26
Filhotes de ararinhas azuis. Foto: ACTP.

Na tarde desta terça-feira (03), 52 ararinhas-azuis, espécie extinta na natureza há 20 anos, chegaram ao país para serem reintroduzidas nas matas da caatinga do Estado da Bahia, onde é endêmica. Muitos anos e diversos atores de diferentes países foram necessários para que isso pudesse acontecer. A importância e significado do fato é consenso entre pesquisadores e conservacionistas. No entanto, a forma como o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-Azul (PAN Ararinha-azul) – que viabilizou a vinda dos exemplares ao país –, tem sido colocado em execução – e por quem – tem dividido opiniões.

Falta de acesso a informações como variabilidade genética e condições de saúde dos exemplares que chegaram ao Brasil, bem como alterações no protocolo nacional de manejo de animais silvestres importados, estão entre os “fios soltos” da história apontados por especialistas. Isso sem contar a reputação da pessoa que comanda o maior parceiro do Brasil no projeto, a Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados (Association for the Conservation of Threatend Parrots – ACTP), criadouro alemão de onde os exemplares que pousaram em solo brasileiro nesta terça-feira vieram (Veja box abaixo). A direção do PAN-Ararinha-azul nega que haja alguma irregularidade na condução do processo.

Questionamentos 

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixxi) é um dos animais mais ameaçados do mundo. Devido ao histórico de destruição da sua área de ocorrência, uma região muito pequena da caatinga no nordeste da Bahia, assim como à intensa captura de indivíduos para o tráfico ilegal, a população da espécie – que já era pequena – sofreu intenso declínio e, em 2000, a ararinha-azul deixou de ser encontrada nas matas baianas.

Os esforços brasileiros para a recuperação da espécie começaram no final da década de 1980, quando a última população selvagem desta ave, composta por apenas três indivíduos, foi avistada na região onde é endêmica. Após idas e vindas nesses esforços, um projeto mais robusto foi colocado em ação, o PAN-Ararinha-azul, que teve início em 2012 e, em 2019, entrou em seu 2º Ciclo, com o objetivo principal de realizar a reintrodução de ararinhas em sua área de ocorrência até 2024.

As ararinhas sendo transportadas da Alemanha para o Brasil. Foto: ACTP.

Atualmente, existem somente cerca de 180 exemplares em cativeiro, segundo dados do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio): são 22 indivíduos no Brasil – que vivem no Criadouro Fazenda Cachoeira, em Minas Gerais; 2 na Bélgica; 2 em Cingapura e o restante (152) no criadouro alemão, a ACTP.

Diante deste histórico, falar dos problemas na execução do PAN-Ararinha-azul é delicado para muitos pesquisadores. Afinal, após duas décadas extinta na natureza, um número expressivo destas preciosas aves retorna para o Brasil para serem reintroduzidas na caatinga baiana. Um fato sem precedentes.

No entanto, especialistas ouvidos por ((o))eco na condição de anonimato levantaram diversas preocupações que, em última instância, podem comprometer a execução do projeto e inclusive representar riscos à fauna brasileira. Elencamos as principais críticas sobre a execução do PAN-Ararinha-azul. Confira:

  • Transporte dos animais

Cerca de 85% do total de ararinhas-azuis em cativeiro encontrava-se nas dependências da ACTP na Alemanha. 1/3 do total desta população foi transportado ao Brasil, de uma só vez, em um voo fretado. Especialista ouvidos por ((o))eco defendem que a manobra foi muito arriscada, não somente pela possibilidade da ocorrência de uma fatalidade, mas também pelo risco da disseminação de patógenos, já que as ararinhas que foram trazidas têm diferentes procedências, e de mortes causadas por problemas de adaptação – esta será a primeira vez que muitos dos exemplares vão enfrentar o clima tropical.

Segundo Ugo Vercillo, analista ambiental da Coordenação de Ações Integradas para Conservação de Espécies do ICMBio e uma das pessoas que está à frente do Plano, todas as etapas do processo de reintrodução seguem um protocolo de biossegurança aprovado pelo governo brasileiro. “Tem todo um protocolo que foi desenvolvido segundo as orientações do MAPA [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], que regra desde o transporte até a manutenção dos animais, e que foi aprovado pelo Ministério. […] Os ritos serão seguidos devidamente”, disse.

  • Variabilidade genética 
Ultimo macho selvagem, desaparecido em 2000. Foto: Projeto Ararinha Azul.

Garantir a variabilidade genética entre os indivíduos disponíveis para cópula é essencial para que a reprodução dos animais seja bem sucedida. A página do PAN-Ararinha-azul não disponibiliza dados atualizados sobre o estudo genético dos exemplares trazidos para o Brasil.

A pedido de ((o))eco, a coordenação do Plano enviou uma planilha com o que seria este estudo, mas especialistas informaram que o documento enviado não possui informações genéticas completas, que poderiam ser traduzidas em uma grande árvore genealógica ou indicações dos melhores pares para acasalamento.

Segundo Ugo Vercillo, o estudo de variabilidade genética das aves que chegaram ao Brasil foi conduzido por um especialista no assunto, o doutor Cromwell Purchase, pesquisador sul-africano com doutorado em Zoologia pela Universidade de Pretória. De fato, pelas mãos de Purchase, a ACTP conseguiu o feito da reprodução em cativeiro de muitos indivíduos. No Brasil, sob orientação deste profissional, o plantel de aves da Fazenda Cachoeira subiu de 12 para 22, somente no último ano.

  • Quarentena e Saúde dos animais

De acordo o MAPA, todo animal importado para o Brasil – por compra, empréstimo ou repatriação – deve passar por um período de quarentena no Quarentenário de Cananéia-SP. As ararinhas vindas da Alemanha foram levadas diretamente para o Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas-Azuis, construído na cidade de Curaçá, onde a espécie é endêmica. Lá elas passarão pela quarentena.

Como não há informações públicas sobre quais e como foram feitos os exames para identificação de patógenos, especialistas temem que as aves estejam doentes. De fato, segundo apurou ((o))eco, metade das ararinhas que chegaram foram positivadas para Mycoplasma sp., uma doença bacteriana crônica, causa comum da morte de papagaios.

Da esquerda para a direita: Ugo Vercillo (ICMBio), Cromwell Purchase, Edson Duarte (MMA) e Martin Guth (ACTP). Foto: ACTP.

Segundo Ugo Vercillo, além dos testes obrigatórios determinados pelo MAPA, o protocolo de biossegurança adotado pelo PAN-Ararinha-azul incluiu exames para zoonoses que não estavam listados na demanda regular do Ministério, como forma de garantir uma segurança maior no processo de translado e manejo das aves.

“Sabe-se que um grande número de cepas de Mycoplasma são apatogênicas. Vale ressaltar que os animais aqui no Brasil serão novamente testados para todos os agentes presentes no protocolo, passarão por uma quarentena conforme as exigências do MAPA. Ainda, lembro que os animais estarão em ambiente isolado e, antes de qualquer soltura, passarão por novas baterias de exames para garantir que estarão sadias para viverem em vida livre!”, disse.

Segundo Vercillo, o grupo de ararinhas trazidas da Europa é composto por 28 fêmeas e 24 machos, de idades que variam de 1 a 26 anos. De acordo com dados históricos de Registros Genealógicos Internacionais (Studbook), a idade reprodutiva das ararinhas em cativeiro se inicia com 4-5 anos (ave studbook nº 15 e nº17). As aves mais avançadas que se reproduziram pelos registros disponíveis até o momento tinham 24 anos de idade (studbook nº 12 e 20). Especialistas na espécie presumem que a vida reprodutiva da ararinha pode, no geral, se estender além desta idade.

  • Manejo e propriedade

O Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas-Azuis foi construído pela ACTP e parceiros na cidade de Curaçá, dentro das unidades de conservação criadas pelo governo brasileiro como parte do PAN. Ao todo, foram investidos 1,9 milhão de euros no local – 1,5 mi euros na construção das dependências e 400 mil euros no transporte e preparação do Centro. O acordo firmado com o governo brasileiro também prevê aporte de 180 mil euros/ano para manutenção dos trabalhos pelos próximos cinco anos, quando o projeto será reavaliado.

Acordo assinado pelo governo brasileiro e a ACTP para repatriar 50 ararinhas-azuis. Foto: Renata Meliga/ ASCOM/MMA.

Segundo o ex-ministro do Meio Ambiente Edson Duarte, que estava à frente da pasta quando o acordo foi firmado em 2018, não existe contrapartida em dinheiro do governo brasileiro por este ser um projeto conjunto. A função do governo, segundo ele, é apoiar a recuperação da área e o processo de soltura das aves por meio da implementação das UCs e dos trabalhos de monitoramento do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemavi/ICMBio).

Segundo Ugo Vercillo, não haverá termo de doação das aves ao governo brasileiro por parte das entidades estrangeiras parceiras. “Parte dos animais que virão para o Brasil já são do governo brasileiro. Outra parte é da Al-Wabra e outra parte é da ACTP. Desses animais, todos que forem soltos na natureza serão de propriedade do povo brasileiro. E os animais que serão mantidos lá, a gente mantém a propriedade como está. Não tem nem uma iniciativa nossa de se discutir isso, porque, mais importante para gente do que propriedade, é ter os animais no nosso território sendo preparados para a soltura, esse é o nosso objetivo”, disse. Segundo apurou ((o))eco, as aves de propriedade brasileira repatriadas não chegam a 5 exemplares.

Por ser uma propriedade privada, o Centro será gerido pela ACTP, inicialmente com funcionários alemães – incluindo o pesquisador Cromwell Purchase. “Uma das premissas do projeto é capacitar a equipe do Brasil para que o Centro, no futuro, seja gerido por brasileiros”, explica Ugo Vercillo.

Para os especialistas ouvidos por ((o))eco, a atual situação – um centro privado, com funcionários estrangeiros, manejando aves que não serão de propriedade do governo brasileiro e em uma área de alto endemismo, não só para a ararinha-azul, mas também outras espécies ameaçadas ou em risco de extinção – levantam suspeitas sobre os reais interesses da organização. As preocupações estão relacionadas às controvérsias acumuladas pela ACTP e seu fundador.

Histórico de polêmicas

A Associação para Conservação de Papagaios Ameaçados (Association for the Conservation of Threatend Parrots – ACTP) é comandada por Martin Guth, um homem, no mínimo, controverso. Sua ligação com pássaros – e especificamente com Psittaciformes, ordem de aves que inclui papagaios –, começou no final de 1980, quando ele trabalhou para um negociante de animais em Hamburgo. Não se sabe muito sobre a vida de Guth na década de 1990, somente que saiu de Hamburgo e passou a comandar uma casa noturna em Berlim, onde acumulou muitas dívidas.

Segundo uma investigação realizada pelo jornal inglês Guardian em 2018, em 1996, Guth foi sentenciado a cinco anos na cadeia por sequestro, extorsão e tentativa de fraude. Em 2009, novamente foi condenado, desta vez a um ano e oito meses de prisão, por sete casos de fraude.

Suas condenações não têm relação a organização conservacionista fundada por ele e há quem defenda que o que Martin faz em sua vida pessoal não é relevante quando o assunto é a ACTP – e os inegáveis feitos conquistados por este criadouro. No entanto, tais fatos levantam dúvidas sobre sua reputação. Além disso, outras investigações conduzidas internacionalmente mostram que os procedimentos adotados pela entidade também não estão livres de críticas.

Martin Guth viu a ararinha-azul pela primeira vez em um passeio de férias em Tenerife no Loro Parque, zoológico que abriga a maior coleção de papagaios do mundo, após sua primeira condenação. Em 2006, em sociedade com Jürgen Diest, um coletor de débitos de Munique, ele fundou a ACTP. Nenhum dos dois possui qualquer formação na área biológica ou em conservação.

As primeiras ararinhas-azuis – três exemplares – trazidas para compor o plantel da ACTP foram compradas de um empresário holandês por 15 mil euros, segundo Guth. Em 2014, uma reviravolta do destino fez com que a ACTP adquirisse mais 142 exemplares da ave, que estavam em posse do sheik árabe Saoud Bin Mohammed Bin Ali Al-Thani, um membro da família real do Catar e grande colecionador de animais raros. Al-Thani morreu naquele ano e, a partir daí, a ACTP deu início à importação dos animais, que eram mantidos na Al-Wabra Wildlife Preservation Centre. A organização saudita é hoje parceira no PAN-Ararinha-azul.

Além do Brasil, em pouco mais de uma década de funcionamento, ACTP firmou parcerias com os governos das ilhas de Santa Lúcia, São Vicente e República Dominicana, no Caribe, e com a Austrália, com o objetivo de importar papagaios. Isso foi feito com a aprovação da agência federal alemã para a conservação, a Germany´s Bundesamt für Naturschutz (BfN). Tudo dentro da lei, garante a ACTP.

Uma investigação conduzida pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung em 2019 indicou, no entanto, que o homem do qual Guth adquiriu suas primeiras ararinhas-azuis é ligado à máfia de Berlim, comandada pelo clan Abou-Chaker, contra o qual o governo alemão tem investigações e condenações por roubos, tráfico de drogas e extorsão. O proprietário da ACTP diz que não conhecia Abou-Chaker na época que adquiriu as ararinhas.

Outra crítica feita à ACTP é sua falta de transparência. A organização não publica detalhes sobre suas finanças, por exemplo. Essa prática é permitida pela lei alemã, mas é atípico para uma organização mantida por doações. E isso é importante? Talvez sim. Segundo as investigações feitas pelo jornal alemão, a ACTP já recebeu, indiretamente, recursos de Arafat Abou-Chaker, o chefe da máfia berlinense.

Solicitar informações da organização também não é tarefa simples. ((o))eco entrou em contato com a ACTP pelo meio disponibilizado no site da entidade – um formulário – perguntando, entre outras questões, a origem dos recursos usados na construção do Centro de Reprodução e Reintrodução de Curaçá, mas não obteve resposta até o fechamento da matéria.

Caso Australiano

Somente da Austrália, a ACTP importou 232 pássaros entre 2015 e novembro de 2018 – 80% do total de aves exportadas no período pelo país. Os lotes de aves que saíram da Austrália com destino às dependências da ACTP na Alemanha incluíam espécies ameaçadas, como cacatuas-negras-de-bico-longo e cacatuas-negras-de-cauda-vermelha, avaliadas em dezenas de milhares de dólares cada.

As leis australianas que regem o assunto são bastante restritivas e só permitem a exportação para fins de exibição, não para venda. Apesar de estar registrado como zoológico, segundo o jornal inglês Guardian, as dependências da ACTP nada se parecem com um zoo: são bastante afastadas de um centro urbano, com difícil acesso, e suas dependências não possuem horário de funcionamento ou livre acesso a visitantes. A ACTP também não está, até o momento, registrada em nenhuma grande associação internacional de zoológicos.

A investigação conduzida pelo jornal inglês mostrou ainda que um membro da ACTP foi condenado em 2015 pelo comércio ilegal de pássaros. Além disso, o Guardian teve acesso a mensagens trocadas privadamente em mídias sociais nas quais um criador alemão oferecia para venda cacatuas-negras por 95 mil euros cada (150 mil euros o par). As mensagens apresentavam código postal de um município alemão onde a ACTP tem instalações.

Procurada pelo Guardian, a agência federal alemã para a conservação disse que tinha conhecimento dessas mensagens, que as negociações conduzidas pela ACTP foram feitas legalmente e que as acusações sobre o status de zoológico não tinham fundamento.

Martin Guth nega que haja alguma irregularidade nas atividades da ACTP e afirma que sua organização é “extremamente cuidadosa em seguir todas as regras e leis colocadas tanto pelas autoridades alemãs quanto pelos países com os quais nós temos parceria”. Ele acusa o Guardian de assediar parceiros associados da ACTP e fabricar histórias sobre a organização.

Caso República Dominicana

Alguns meses após a passagem do Furacão Maria, que assolou parte da República Dominicana em setembro de 2017, a ACTP transportou dois papagaios-imperiais e 10 papagaios-de-colar-vermelho, endêmicos do país, para suas instalações na Alemanha. Após a transferência dos animais, a divisão de florestas, parques e vida selvagem do país recebeu da organização três veículos 4×4.

Antes do furacão, o país registrava apenas de 350 a 450 exemplares de papagaios-imperiais na natureza. A transferência desses 12 animais, no início de 2018, não foi autorizada pela gerência da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagem em Perigo de Extinção (Cites) na República Dominicana, por autoridades científicas do país ou pela Autoridade para Vida Selvagem Dominicana.

Logo após este fato, 13 organizações não-governamentais internacionais enviaram uma carta ao diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Erik Solheim, expressando “graves preocupações” sobre o ocorrido. Eles diziam temer que aquela “não seria a última transferência” e que a justificativa da ACTP – que transferir os pássaros era uma ação de emergência para protegê-los de furacões – era infundada.

Em maio daquele ano, uma segunda carta, desta vez assinada por mais de 40 cientistas, foi enviada a autoridades dominicanas e alemãs, reforçando a preocupação sobre o ocorrido, e afirmando que as aves foram “secretamente capturadas”.

Em abril daquele ano, a ACTP publicou uma resposta de 19 páginas defendendo que instalações de conservação fora da República Dominicana eram a melhor opção para proteger os papagaios de futuros furacões. Na carta, a parceria com o Brasil foi citada para validar as boas práticas conduzidas pela ACTP.

Diante de tal histórico, membros de organizações conservacionistas internacionais, e agora pesquisadores brasileiros com quem ((o))eco conversou temem que a real intenção de Martin Guth é usar a associação para secretamente vender aves raras. Até o momento não há provas de que isso aconteça.

Edson Duarte, à época ministro do Meio Ambiente, visita instalações da ACTP na Alemanha. Crédito: ACTP.

Ministro do Meio Ambiente à época da assinatura da parceria com a ACTP em 2018, Edson Duarte foi questionado se o governo brasileiro tinha conhecimento do histórico da associação. O ex-ministro, que esteve nas dependências do criadouro alemão, afirmou: “Quando fui pessoalmente lá, ficamos todos muito bem impressionados. Mas não nos limitamos a apenas conhecer o centro e onde estavam as ararinhas. Conversamos com as autoridades e [verificamos que] os problemas, as denúncias feitas, não têm relação com este acordo com o Brasil, com as ararinhas. E as informações que tivemos é de as denúncias tinham sido esclarecidas, inclusive com aval das autoridades alemãs. Tanto é que nosso acordo passou por todo um crivo das autoridades federais do governo brasileiro quanto do governo alemão. Então isso nos traz muita segurança”.

Especificamente em relação à denúncia feita pelo Guardian em 2018, sobre a suposta venda de aves provenientes da ACTP, o ex-ministro declarou: “Quando nós tivemos conhecimento [da denúncia do Guardian], o processo já estava muito avançado na nossa relação. Não tivemos os detalhes, [mas] do que foi acertado com o governo brasileiro e nesse programa de reintrodução da ararinha, não se percebeu ou não se avistou que isso pudesse comprometer o projeto de reintroduzir a ararinha no Brasil. Como eu disse, todo processo passou pelo crivo e pela avaliação das autoridades tanto brasileiras quanto alemãs, e também dos outros países que estão envolvidos nesse processo”.

Apesar das preocupações levantadas, Pedro Develay, diretor-executivo da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), organização que faz parte da aliança global da Birdlife International, se mantém otimista. “Eu acho que o Brasil não é um país tão frágil assim, tem muita gente de peso e muito séria envolvida nesse projeto […] Tem toda uma instituição por trás, tem uma comunidade inteira envolvida. Acho muito difícil começar a traficar bicho na cara de todo mundo sem ninguém perceber, em tempos de internet, de redes sociais, de WhatsApp. […] Acho que temos que ver a agenda positiva”, defende.

Para Develay, o que deve estar em foco agora é o retorno das ararinhas para o Brasil, lugar de onde elas nunca deveriam ter saído. “Vêm 52 ararinhas e de fato acho que serão soltas, o que é incrível e é a única chance que a gente tem, se a gente quer introduzir a ararinha. Por várias circunstâncias, chegamos a esta situação, não vai ter outro jeito, só com o plantel da Fazenda Cachoeira, de Minas, não vai dar, porque são poucas e têm outras questões. Então chegamos a esta situação e o cenário é positivo […] Ou é isso ou não vai rolar”.

 

 

Leia Também

Ararinhas-azuis retornam amanhã para a Caatinga

O sertão resiste no corpo frágil da ararinha de Curaçá

A saga da ararinha-azul para voar novamente em liberdade

 

10 comentários em “Especialistas demonstram preocupação sobre projeto de reintrodução das ararinhas-azuis”

  1. Alguém tem que dar os primeiros passos , temos que ficar atento e fiscalizar para que aparência de boa intenção não se transforme e um punhado de interesse particular.

    Responder
  2. Me perdoe que vou dizer , mas estes especialista tem um excesso de zelo , os animais são Natural da região , o próprio extinto dos animais faz elas se vira sozinha , tem hora que enche o saco este mimi , solta na natureza e pronto se de deu se não , paciência , única oportunidade de reintroduzir um animal extinto e os cara criando caso . Aff

    Responder
    • Olá Juliano, vi seu post e achei importante dar minha contribuição. Esses cuidados que os especialistas tem com as ararinhas é extremamente necessário. Se gasta dinheiro e tempo para conseguir indivíduos adultos saudáveis. Como as ararinhas são muito raras não se pode dar ao luxo de perder indivíduos, pois estará perdendo variabilidade genética. Isso causaria declínio da espécie novamente porque correria cruzamento entre indivíduos muito próximos. É como se nós vivêssemos num local que só tivéssemos parentes para se relacionar, isso levaria a má formações e doenças. Além disso tudo os especialistas precisam ver se as ararinhas não carregam doenças, pois alguns indivíduos doentes poderiam transmitir doença para o restante da população e ocorrer mortalidade. Por último tem que ser fazer uma readaptação das ararinhas. Seria como ensiná-las a "serem selvagens" novamente, saberem se esconder de predadores, obter seu próprio alimento e etc.
      Tudo isso pra que a espécie tenha o máximo de chance possível para vingar. Como vê, não é nada fácil, mas com esses cuidados se tem uma boa vantagem. Espero ter contribuído com sua dúvida. Um abraço.

      Responder
  3. Parece que a controvérsia é saber se os animais são realmente a ararinha azul da região. Preocuação legítima e que deve ser dirimida antes da soltura para fortalecer essa reintrodução. Quem é estudioso da conservação das espécies tem propriedade na fala. Pois então que tudo se resolva e que a Natureza vença mais esta batalha.

    Responder
  4. O que mudou na região onde ela era endêmica pra espécie não ser extinta de novo? A conciência dos habitantes evoluiu pra preservação? A quantidade de mata nativa aumentou? Torço pra que dê certo. ßó fiquei curioso sobre qual condição melhorou pra chegarem ao ponto de tentar a reintrodução.

    Responder
  5. Parabéns por essa matéria. Só se ver em redes sociais e outras fontes, notícias sobre a reintrodução da spix em seu habitat natural, tudo em tom de muito glamour. É preciso ter cuidado, pois eu me lembro muito bem quando trabalhei com o pessoal do projeto da arara azul de lear e aconteceu de cair dois filhotes dos ninhos nos paredões de arenito. Foi aquele maior alvoroço, um cuidado imenso, esses filhotes então passaram a ficar em processo de quarentena numa voadora instalada na fazenda serra branca. Por algum tempo o pessoal do projeto em parceria com a loropark da espanha pensaram em levar esses filhotes para uma base dessa lorapark, localizada na praia do forte, mas não conseguiram por conta de uma manifestação da comunidade. Só sei que esses filhotes após ficarem jovens foram soltos, e o problema é que permaneciam próximos de localidades. Não se exatamente se conseguiram acompanhar os bandos.

    Responder
  6. INFELIZMENTE TEM TUDO PARA NÃO DAR CERTO, APENAS 52 ARARINHAS?? SERÃO EXTERMINADAS PELOS PREDADORES E AS QUE POR VENTURA SOBREVIVEREM E SE REPRODUZIREM NÃO TERÃO VARIAÇÃO GENÉTICA SUFICIENTE PARA PERPETUAR A ESPÉCIE. O IDEAL SERIA TENTAR REPRODUZIR TODAS ELAS ATÉ SE CONSEGUIR UM NÚMERO MUITO MAIOR, TALVEZ UMAS 500, PARA SEREM SOLTAS. PARA GARANTIR A EXISTÊNCIA DA ESPÉCIE, NO CASO DE FRACASSO DO PROJETO, DEVE-SE TAMBÉM MANTER UM BOM NÚMERO EM CATIVEIRO.

    Responder
    • Como 500 se só existem 150 no mundo !!!! Existe boas chances , mesmo porque irão introduzir ovos da ararinha azul nos ninhos da Maracanã , espécie de características idênticas, assim esses filhotes serão criados como selvagem ! Tem que tentar

      Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.