Especialistas contradizem declaração de ministra da Agricultura sobre regeneração da Amazônia após queimadas

Especialistas contradizem declaração de ministra da Agricultura sobre regeneração da Amazônia após queimadas

Cristiane Prizibisczki
domingo, 8 setembro 2019 8:59
Queimada fragiliza a floresta. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

No início da última semana, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, defendeu que uma eventual ajuda oferecida por países europeus para o Brasil, que sofre com a maior onda de incêndio nos últimos anos, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), não seja investida em programas de reflorestamento da Amazônia. Para a ministra, basta deixar que a mata se regenere sozinha. Segundo especialistas no assunto ouvidos por ((o))eco, esse cenário não vai acontecer.

No último dia 26, após participar de evento em São Paulo, Tereza Cristina declarou, em referência ao destino dos recursos oferecidos pelo G7 – posteriormente recusados por Bolsonaro: “Acho que reflorestamento não é no caso. O Brasil tem 66% da sua vegetação nativa preservada. Basta você, em alguns lugares, onde for importante, deixar que a floresta se regenere. A gente tem muitos casos aí onde, de maneira ilegal, alguns grileiros abriram muitas áreas no passado e que a floresta hoje já está regenerada“.

Regeneração empobrecida

Quando o fogo passa por uma floresta, os efeitos imediatos são claros: no lugar do verde úmido das matas, sobram apenas o negrume da madeira convertida em carvão, as árvores nuas de folhas consumidas pelas chamas e a fuligem adensando o ar. Mas esses são apenas os efeitos imediatos das chamas. As consequências podem ser ainda piores com o passar dos anos.

“Um incêndio entrando permite que outros incêndios entrem com mais facilidade. O primeiro fogo pode até ter pouco dano, mas está preparando a floresta para o fogo entrar nos próximos anos. Então, nós consideramos que áreas que foram queimadas aqui são bombas relógio para incêndios no futuro”, explicou Foster Brown, pesquisador da instituição americana Woods Hole Research Center e professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), no especial “A trajetória da Fumaça”.

A “bomba relógio” a que Brown se refere é criada pela morte das árvores e arbustos que, após uma primeira passagem do fogo, caem no solo e formam um tapete de matéria orgânica pronto para entrar em combustão. A maior intensidade de luz e vento que penetra, devido à abertura que as chamas provocaram no dossel das árvores, seca mais rapidamente este material, formando a condição perfeita para a ocorrência de mais focos de incêndio na área. E quanto mais vezes as chamas passam pela área, mais a estrutura da floresta será modificada.

Floresta queima em Rondônia. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

O que Foster Brown vivencia no Acre em relação ao fogo também foi comprovado no estado do Pará pelos pesquisadores Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, e Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, Inglaterra. Durante mais de uma década, os pesquisadores observaram florestas com diversos graus de pressão de fogo. Dependendo da área, avaliaram os trechos incendiados depois de um, três, cinco e nove anos.

O que eles perceberam foi que as florestas que não tiveram nenhum tipo de perturbação provocada por fogo durante esse período apresentaram um padrão estável em relação ao número e aos tipos de árvores. Mas em áreas incendiadas, as mudanças foram muitas e aceleradas. Segundo o pesquisador, a área passa a ser rapidamente dominada por espécies pioneiras de ciclo curto, mais típicas de capoeira jovem, causando uma taxa elevada de substituição de espécies e perda de biomassa.

Esta também é a conclusão de Erika Berenguer, pesquisadora-sênior da Universidade de Oxford que há dez anos estuda os impactos das ações humanas no bioma Amazônico. Segundo estudos realizados por ela, a floresta regenerada sozinha é muito mais empobrecida que a floresta intacta. “Quando temos uma queimada e a floresta vira um queijo suíço, cheio de aberturas, o microclima da floresta, isto é, sua temperatura e umidade, é totalmente alterado. Começam a chegar nestas áreas árvores que conseguem crescer nesse novo ambiente, de mais sol, mais seco, como a embaúba, por exemplo. Essas pioneiras crescem rapidamente, são típicas da Amazônia, mas são poucas espécies e que armazenam menos carbono”, explica.

De fato, um estudo publicado em 2018 na Royal Society Publishing – liderado pela pesquisadora Camila Silva, da Lancaster University, e do qual Erika Berenguer, Jos Barlow e Foster Brown também fizeram parte –, mostrou que, mesmo após três décadas, áreas queimadas apresentaram cerca de 25% menos biomassa, quando comparadas com áreas que não sofreram interferência do fogo.

“Embora nossos dados se estendam para 31 anos após o incêndio, há razões para esperar uma recuperação lenta por muitas décadas além desse período […] os incêndios mataram muitas árvores de tamanho grande e alta densidade de madeira, que levarão mais tempo para serem recuperadas, talvez sem surpresa, também descobrimos que o seu restabelecimento levará mais de 31 anos e muitos poderão levar séculos para se recuperar”, diz o estudo.

“Diferente do Cerrado, cujas espécies evoluíram de forma a se adaptar – e até precisar, em alguns casos – à passagem do fogo, a Amazônia não está preparada para nenhum tipo de queimada”.

A floresta se modifica significativamente cada vez que as áreas são invadidas por essas espécies pioneiras. Elas, por sua vez, são mais vulneráveis a qualquer incêndio, que pode tomar proporções ainda maiores por conta da alta concentração de combustível no solo. “[Com a passagem do fogo] a floresta perde os gigantes e fica muito mais densa, com sub-bosques, com árvores fininhas, aumenta significantemente o número de cipós. Estruturalmente essa floresta muda. Então, não é porque tá verde que está tudo bem, porque esse verde não é o verde que tinha antes”, explicou Erika Berenguer.

Dinâmica do fogo

Diferente do Cerrado, cujas espécies evoluíram de forma a se adaptar – e até precisar, em alguns casos – à passagem do fogo, a Amazônia não está preparada para nenhum tipo de queimada.

Quando o fogo entra pela primeira vez em uma área de floresta intocada – o que tem acontecido em dimensões preocupantes nos incêndios de 2019 – ele dificilmente chega na copa, ficando a cerca entre 30-50 cm do solo. Segundo a pesquisadora da Universidade de Oxford, esse fogo é muito lento, com movimentação de cerca de 300 metros a cada 24 horas. Isto significa que as chamas permanecem muito tempo na base das árvores, o que contribui para a alta taxa de mortalidade, já que os vasos condutores das plantas são danificados. “As árvores da Amazônia não têm casca grossa, para o isolamento térmico, como tem as do Cerrado”, explica.

De acordo com Carlos Peres, da East Anglia, a intensidade das queimadas é uma função da carga e continuidade de combustível disponível para um foco de ignição. Numa segunda queimada, segundo ele, a carga residual de combustível já é suficiente para gerar as labaredas de copa, que facilmente levam à mortalidade da maior parte das árvores com esta característica que, por sua vez, se tornam disponíveis para uma terceira queimada.

“Os dados que nós temos mostram que a partir dessa terceira queimada a regeneração de todos os grupos funcionais de plantas numa floresta seja praticamente irreversível. E quanto maior a extensão espacial das queimadas, menos provável seria a regeneração do ecossistema florestal, tanto do ponto de vista biológico quanto estrutural”, explicou o pesquisador.

Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

As consequências do fogo para biodiversidade na floresta amazônica são ainda mais graves na medida em que ele altera o sistema de dispersão de sementes nas matas – quantitativa e qualitativamente. As plantas morrem, os animais fogem. Sem comida, não retornam. E assim, fica mais complicado devolver à floresta suas características anteriores.

Cenário atual

Com 95.511 focos de incêndio do início de janeiro até a última quarta-feira (4), o Brasil já registra a maior onda de incêndios dos últimos nove anos, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Descontrolado, o fogo também avança sobre áreas protegidas. Até a semana passada, houve 68 ocorrências dentro de terras indígenas e unidades de conservação estaduais e federal. Isso significa que não são somente áreas degradadas que estão sofrendo com as chamas.

Soma-se a este quadro o aumento no índice de desatamento e a mudança no clima do planeta como um todo e na região amazônica, dois fatores impulsionadores das queimadas. É um ciclo que se retroalimenta: desmatamento e queimadas mudam o regime climático da região e a estrutura da mata, que se torna mais seca e mais propensa a novas queimadas, que se alastram com mais facilidade em áreas degradadas, mudando ainda mais a estrutura da floresta e o clima local.

Segundo o pesquisador Carlos Peres, ainda não dá para dimensionar o quanto de mata primária e secundária foram consumidas pelas chamas. “Ainda é cedo para podermos avaliar o impacto real das queimadas – muitas delas ainda ativas – deste ano”, disse. No entanto, o cenário não é animador. “Estamos puxando a floresta para o chamado ‘ponto de colapso’ estudado por Carlos Nobre, quando o bioma não vai mais se sustentar”, alerta Erika Berenguer.

Muitas são as incertezas sobre o que as queimadas de 2019 significarão para o bioma amazônico, mas uma coisa é certa: negar que a floresta precisa de ajuda – para se manter em pé ou se recuperar – como tem declarado o presidente Bolsonaro e seus ministros, não é a melhor estratégia para enfrentar o problema.

 

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3 comentários em “Especialistas contradizem declaração de ministra da Agricultura sobre regeneração da Amazônia após queimadas”

  1. Mais um chute agronômico, bem superficial Ministra. Com certeza na sua faculdade, seus professores em determinadas cadeiras, lhe ensinaram que sua opinião esta errada.
    Ou então a sra. não assistiu as aulas deste tema. Então esta explicado.
    Ministra mais ciência e menos achismos.

    Inté

  2. Os dados científicos são precisos e embasados em estudos esforçados de muito anos. Será triste o fim da natureza.Porém o ser humano esquece que fazemos parte da natureza. A morte da natureza nos arrastará para a morte também. É ver e esperar.

  3. A Amazônia tem que ficar de fora das disputas e questões políticas e ideológicas. A Amazônia é uma questão científica. Somente a Ciência pode resolver a problemática amazônica. Somente através da Ciência será possível explorar a Amazônia de forma racional, ou seja, aproveitar as riquezas da Amazônia sem destruí-la, promovendo o verdadeiro desenvolvimento sustentável dos estados no qual a Amazônia está presente.

    O aproveitamento racional da Amazônia garante o desenvolvimento da região sem quebrar a homeostasia da floresta, proporcionando o desenvolvimento sustentável. Para tal, basta ter boa vontade, debater propostas e muita ponderação de nossos representantes no poder público. Enfim, é isso aí… Deixo aqui a minha opinião.

    Vide: https://youtu.be/qXxrIJjvrf8

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