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O cenário real do que é a realidade do saneamento básico do Brasil sob as lentes de André Pires.

Com muito material ao seu alcance e um tema complexo, André Pires, 38 anos, diretor do documentário “A Realidade do Saneamento Básico no Brasil”, viu na sua primeira experiência com um filme ambiental render um aprendizado que ele não imaginava. Ao ser chamado pelo Instituto Trata Brasil −, organização formada por empresas com interesse nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país −, André se viu diante de um desafio e de uma triste realidade.“Eu sabia do problema, mas não tinha noção do absurdo que é”, diz André Pires.

Jornalista formado pela UNITAU (Universidade de Taubaté), André começou a sua carreira na TV Rede Vanguarda, em São José dos Campos. Em 2005, passou a trabalhar em produção de vídeo, voltada  para a publicidade. “Fiquei no campo da publicidade até 2015, até que começou aquela coisa do jornalismo, do documentário, começando a falar mais alto. Aí, eu comecei com a ideia de produzir conteúdo, documentário, fazer coisas nesse sentido, até que veio o Trata [como André, carinhosamente, chama o Instituto Trata Brasil] e me chamou para fazer os trabalhos. O Rubens Filho, que é o diretor de Comunicação do Trata Brasil, se formou em Taubaté também. Por volta de 2008, eu dei uma palestra sobre produção e ele ficou com o meu contato. Em 2015, eu produzi o meu primeiro documentário, que foi sobre música dos anos 90, nada a ver com meio ambiente. O Canal Brasil comprou o documentário, o Rubens assistiu e como ele já tinha o meu contato falou comigo que tinha umas propostas para fazer uns filmes na área de saneamento e eu aceitei. Aí, a gente começou a trabalhar junto”.

“A Realidade do Saneamento Básico no Brasil” foi o primeiro trabalho de André Pires junto com o Trata Brasil. O filme foi selecionado e exibido no 18º para o FICA (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental) em 2017, realizado em Goiás. Há outro trabalho em andamento cujo tema é a falta de saneamento nas favelas de São Paulo.

Produzido pela Kurundu Filmes, o documentário, que levou 7 meses para ser realizado, mostra entrevistas com moradores de regiões críticas de São Paulo e Porto Alegre, e também personalidades que colaboram com o Instituto, que são chamados de embaixadores, como o desenhista Maurício de Sousa, a ginasta campeã mundial, Daiane dos Santos e do medalhista olímpico em Vela, Lars Grael.  

Na véspera do Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22 de março, o “Três Dedos de Prosa” conversa com André Pires, diretor do documentário de trinta e seis minutos, “A Realidade do Saneamento Básico no Brasil”, que pode ser assistido pelo Youtube.

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((o)) eco: Na “Realidade do Saneamento Básico no Brasil”, você começa com o depoimento do desenhista Maurício de Sousa, que fala da infância dele, com água limpa, com o rio Tietê limpo, que viveu aquela coisa do peixe nadando e ao longo do documentário, a gente percebe a degradação. Foi intencional?

Na verdade, foi. O legal é que a gente começa com ele falando, mas ao mesmo tempo com aquela imagem do Tietê parado. O trânsito andando do lado e aquele rio morto, estático, parece que a água nem flui. Foi para dar esse choque.

((o)) eco: Qual foi a sua maior dificuldade em realizar esse documentário?

Acho que a maior dificuldade foi que eu realmente não conhecia o tema a fundo. Eu sempre fui mais da área cultural, de fazer coisas relacionadas à música, e não tinha essa pegada ambiental até então, e acho que essa foi a maior dificuldade. Como tinha a parte do Trata por trás, acabou me dando suporte e foi tranquilo. Eles são a maior referência do país, quando se fala em saneamento. Então, acabou que ajudou e a gente se complementou, mais da parte técnica do que realmente do conteúdo. Acho que isso funcionou muito bem, entrar com esse suporte deles.

Outra grande dificuldade foi que tinha bastante material, para ser sincero. O tema é muito complexo, a gente teve realmente que fazer um recorte. Todos os entrevistados são embaixadores do Trata Brasil, são pessoas que têm alguma relação com a questão do saneamento básico e com o Instituto e isso foi bom porque já delimitou, mas ao mesmo tempo, a gente rodou boa parte do Brasil e tinha muito material.

((o)) eco: O que mudou na sua visão após esse documentário? E como você vê esse problema?

Acho que pra mim, como primeiro filme na área ambiental, mudou tudo. A concepção, o entendimento do que é saneamento básico no Brasil, no mundo, e eu acho que, na verdade, essa experiência me toca muito. Eu procuro ler bastante sobre saneamento, procuro pesquisar e até me envolver com algumas coisas e dar mais atenção para o tema e para causas ambientais de maneira geral. Comecei a seguir e a conversar bastante com ambientalistas, então isso vai te alimentando. E sem perceber você vai ficando mais atento a tudo isso. Eu converso com os ambientalistas até hoje, inclusive os que me ajudaram na produção. Eu era uma pessoa que nunca tinha me atentado a nenhuma causa ambiental, apesar de sempre ouvir falar, mas nunca tinha me atentado de fato e acho que isso foi a maior mudança.

André Pires no 18ºFICA -
Festival Internacional de Cinema Ambiental - Goiás-GO

Eu vejo o problema como falta de investimento, mas eu não tinha o entendimento do porquê não se investia. E você vê a senhora Eliane Rocha, da comunidade, dando uma aula de política, sem ter feito nem a quarta série. Eu acho que é muito de ouvir as pessoas, ver a dor das pessoas e também de ver que aquilo não toca mais ninguém e ver que as próprias pessoas não percebem o problema, com exceções como essa senhora, mas a maioria não percebe. Tem uma passagem neste filme, no Guarujá, um senhor, e a gente perguntou para ele se o saneamento trazia problemas para a saúde dele e ele: “Não, não tem nada, tá tudo certo.” E a gente perguntou: “ E diarreia, o senhor já teve?” “Já, a gente sempre tem. ” Então, eles não têm a percepção de que a falta de saneamento traz problemas. O problema é muito mais embaixo, é estrutural, é social, é da educação. É muita coisa, eu confesso que eu fiquei assim, meio que duvidando de que algum dia vai melhorar. Não consigo ver melhorias.

 

Eliana Rocha, moradora do Jd. Canaã, Itaquaquecetuba (SP).

 

O campeão olímpico, Lars Grael, um dos embaixadores do Trata Brasil, durante as filmagens do documentário, a “Realidade do Saneamento Básico no Brasil”.

 

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