Verde em chamas

Ronaldo Brasiliense
sexta-feira, 20 agosto 2004 17:28

O município de São Félix do Xingu, no sul do Pará, campeão de desmatamentos na Amazônia em 2002, repetiu sua performance em 2003: perdeu outros 1.332 quilômetros quadrados de sua floresta tropical. Nos últimos anos, a área total do município que foi devastada corresponde a 9.210 quilômetros quadrados, o equivalente a duas Brasílias.

São Félix do Xingu também tem se destacado pelo grande número de queimadas detectadas pelo satélite norte-americano Noaa-12, cujas imagens são monitorados diariamente por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos (SP). Desde a semana passada, São Félix do Xingu está sob “alerta verde” – o termo utilizado pelos técnicos do Ministério do Meio Ambiente para designar os municípios amazônicos onde os focos de incêndio ameaçam a floresta.

Na rodovia PA-279, que vai de Xinguara a São Félix do Xingu, os sinais de fumaça estão por toda a parte. O fogo está sendo principalmente atiçado por fazendas de gado financiadas por dinheiro público, conseguido com a aprovação de projetos agropecuários na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), recriada no governo Lula. Árvores frondosas deram lugar a capim. Mas o avanço da soja já é percebido em alguns trechos.

Somente nos últimos 10 dias foram computadas mais de 1.200 queimadas em São Félix do Xingu. Outros municípios das regiões sul e sudeste do Pará também ardem em chamas: Novo Progresso, às margens da rodovia Santarém-Cuiabá (BR-163), teve mais de 800 focos de calor e Altamira, na área de influência da rodovia Transamazônica, registrou 700 queimadas. Cumaru do Norte, mais de 600 na primeira quinzena de agosto.

Se São Félix do Xingu é o campeão de desmatamentos entre os municípios, o título na disputa entre os estados vai para Mato Grosso. Depois de liderar o país em número de focos de calor e registrar um aumento de 133% no total de áreas desmatadas no ano passado, o estado continua comandando, disparado na frente, o ranking do fogo na Amazônia. Isso apesar das queimadas estarem proibidas no estado desde 15 de julho – uma moratória que em teoria deveria estar em vigor até 15 de setembro. Desde o início do ano, Mato Grosso concentrou quase 30 mil (55,5%) dos 53.785 focos de calor detectados pelo sistema de monitoramento por satélite do Inpe, que registra as queimadas em tempo real.

O pesquisador Alberto Setzer, coordenador do programa de monitoramento de queimadas do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, não tem dúvidas em acusar as queimadas na região de ilegais. Além da proibição atual por decreto, segundo ele, o uso do fogo em vegetação é proibido pelo Código Florestal, exceto com a autorização expressa do Ibama. E o cenário, na realidade, deve ser bem pior. Os satélites Noaa, segundo Setzer, só conseguem registrar entre 60% e 70% das queimadas. Os instrumentos não têm como ver através de nuvens, e os focos de calor muitas vezes são muitos pequenos – possuem menos de 30 metros de frente – ou são extintos antes da passagem do satélite. “É preciso ter uma chama para fazer a detecção”, explica Setzer. Além das queimadas feitas pelos fazendeiros para a renovação de pastos no “verão amazônico”, que vai de junho a novembro, os pequenos agricultores derrubam e queimam a floresta por razões econômicas: sai mais barato queimar a mata do que comprar adubo para tratar o solo.

No ranking nacional dos estados campeões de queimadas, o Pará está em terceiro lugar, perdendo para Rondônia e Mato Grosso. Em Cumaru do Norte, fiscais do Ibama investigam denúncias de moradores da região sobre incêndios numa área de mata fechada equivalente a 6 mil campos de futebol. O local é de difícil acesso, sendo necessário o uso de helicópteros. Entre os municípios de Ourilândia do Norte, Cumaru do Norte, Água Azul e São Félix do Xingu, onde se concentram grandes fazendas de gado, os fazendeiros costumam promover a derrubada e queima de árvores para a formação de pasto.

Segundo maior estado da Federação, atrás apenas do Amazonas, o Pará tem um território com mais de 121 milhões de hectares de terras, mas dispõe de apenas 72 fiscais para cuidar de desmatamento, queimadas, extração ilegal de madeira e tráfico de animais silvestres. “O fogo faz parte da ecologia do cerrado, mas não da floresta”, diz o pesquisador Carlos Nobre, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Se o fogo prevalece numa área de transição, portanto, o ecossistema que vai ganhar a briga é o cerrado.” Modelos feitos por Nobre indicam que de 20% a 60% da Amazônia podem virar savana até o fim do século, levando em conta o desmatamento e o aquecimento global – sem contar o fogo.

Ambientalistas aguardam agora a divulgação, pelo Ministério do Meio Ambiente, dos dados referentes aos desmatamentos feitos na Amazônia brasileira entre agosto de 2003 e agosto deste ano. A taxa de desmatamento na Floresta Amazônica no período de agosto de 2002 a agosto de 2003 – já durante o governo Lula, portanto – assustou os ambientalistas, atingindo 23.750 km2. A área desmatada no período é a segunda maior já registrada na Amazônia, superada apenas pela marca histórica de 29.059 km2 de floresta devastados em 1995. O índice de desmatamento de 2002 foi revisado pelo governo e passou de 25.476 km2 para 23.266 km2. Abaixo, a relação dos municípios que mais desmataram em 2003, por hectares.














São Félix do Xingu PA 156,715 122,007 133,273
Uruará PA 70,817
Aripuanã MT 16,059 55,412 69,548
Tapurah MT 56,299 58,647 51,826
Novo Repartimento PA 153,023 22,402 51,167
Marabá PA 38,120 26,576 46,436
Porto Velho RO 22,258 20,665 45,587
Brasnorte MT 3,340 24,933 45,523
Novo Progresso PA 30,902 27,459 44,486
Nova Ubiratã MT 16,082 27,586 43,975
TOTAL 492,799 385,685 602,638

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